Monja Coen: como ser jornalista a fez ter contato com a ‘dor do mundo’ e a levou ao zen budismo
Em entrevista ao Terra, Monja Coen fala sobre sua trajetória de vida em meio a caminhos incertos, e como tudo a fez chega onde está agora
Ela não imaginava que seria monja. Quando criança, estudou em uma escola de freiras e, mesmo que ainda sem conhecer o zen budismo, via beleza na clausura. Para o futuro, pensava em fazer filosofia ou teologia. Mas não demorou muito para o seu pai “cortar suas asas”. Ele era rígido, dizia que professores não eram respeitados, ganhavam pouco e eram malvistos. Isso fez com que Cláudia Dias Baptista de Souza, que veio a se tornar Monja Coen, cursasse Direito. Não era o que queria, e a vida a levou ao jornalismo, onde foi repórter por anos.
- Monja Coen é uma das participantes do Festival Fronteiras, evento que acontece nos dias 7 e 8 de março, em São Paulo, e que conta com apoio do Terra
Em entrevista exclusiva, Moja conta que foi essa experiência que a fez ter contato com a “dor do mundo” e começar a buscar caminhos de não violência para digerir tudo com que tinha contato ao trabalhar diariamente. Até que, em uma das pautas, conheceu o zen budismo, se interessou e anos depois resolveu dedicar sua vida a esse propósito. No fim, virou professora.
“Eu tinha relações muito tumultuadas, muito apaixonadas, muito violentas. Até que eu falei, peraí, não é por aí o caminho”, conta Coen, que foi repórter durante a ditadura militar pelo grupo O Estado de S. Paulo, tendo entrado na última leva de profissionais antes da graduação se tornar obrigatória para exercer a profissão. Ela, que agora está com 78 anos, nasceu na capital paulista e cresceu em uma família que promovia saraus e incentivava a leitura. Foi o gosto pela escrita que a fez se aproximar do jornalismo. Mas, se tornar repórter, foi algo que precisou aprender na prática.
Entrevistar pessoas foi a primeira coisa que causou estranheza e a tirou da zona de conforto. Ela achava invasivo fazer perguntas que, por si, não faria a ninguém. Com o tempo, entendeu que está sendo um canal, uma intermediária do público. “Começou a haver uma mudança em mim. No zen a gente fala do ‘eu não eu’. Não sou eu que faço, somos nós. Eu estou respondendo a pedido de um grupo grande de pessoas e não meu individual. Então foi muito importante isso para mim”, relembra.
O segundo fator que mudou tudo foi o contexto. Foi jornalista durante seus 20 anos, quando o Brasil passava por uma ditadura. “Eu estava vivendo uma época muito conturbada, de um governo militar. Tinham assaltos a bancos, mortes para um lado e para o outro, pessoas desaparecendo. E eu certamente concordava que a sociedade como estava precisava de mudanças”. O ‘ser jornalista’ em meio a tudo isso, foi o que a tirou de seu ‘locus familiar’ e a colocou no lugar de intermediária.
Tudo isso foi me transformando, eu tinha 19 anos, 20 anos, nessa época. O processo de trabalhar no jornal, o processo de entrevistar tantas pessoas, de ver tantas diferenças sociais, de ver tantos abusos e ao mesmo tempo tantos excessos de um lado e falta de outro, começaram a me levar a uma procura de como é que nós podemos ter sociedades mais harmoniosas, mais igualitárias, sem violência” -- Monja Coen
O terceiro ponto foi quando, por meio do jornalismo, teve contato com o budismo. Coen relembra que conheceu o zen budismo quando pediram-lhe para fazer uma matéria sobre sociedades alternativas. Ela encontrou grupos que trabalhavam sem agrotóxicos, que reciclavam, e tinham uma maneira de viver que a interessou. Em paralelo, com uma juventude marcada pela guerra do Vietnã, a cena do monge vietnamita que ateou fogo ao próprio corpo em ato de protesto também a intrigou. O tamanho autocontrole em meio a dores profundas chamou sua atenção.
Algo que a marcou muito, quando jornalista, foi quando precisou conversar com a esposa de um homem que tinha morrido, e ela acabou sendo a pessoa que deu a notícia para a mulher.
“Eram coisas muito dolorosas. A vida de um profissional repórter é muita dor, porque você está em contato direto com a dor do mundo, com as alegrias e as dores do mundo. Não são só com as coisas bonitas, mas com as coisas feias também, e como é que você digere tudo isso? Quando eu fiz essa matéria do Zen Budismo, e comecei a me interessar, eu pedi uma licença”. Coen não deu muitos detalhes sobre o que aconteceu, mas envolveu frustrações que a fizeram querer mudar de caminho. Nessa época, chegou a tentar tirar a própria vida.
Se engana quem a vê hoje, como uma mulher com os cabelos raspados, vestes sóbrias e voz tranquila, e pensa que sua história foi sempre ‘zen’. Ao longo de sua vida, Coen foi casada cinco vezes, sendo o primeiro casamento aos 14 anos. Usava maquiagem, salto alto e ouvia rock -- sendo, inclusive, prima de Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, fundadores da emblemática banda Os Mutantes. Antes de ser monja, já trabalhou auxiliando em shows de grandes múscos e fez parte de movimentos contra o consumismo, em uma levada ‘hippie’. Viveu experiências psicodélicas à “procura de Deus e da Verdade” e já chegou a ficar presa por alguns meses por tentar entrar na Suécia com LSD.
“Eu precisei passar por todas essas experiências para poder me tornar monja. Foram as dores do mundo que me levaram a procurar um lugar de quietude no meu coração, em mim, porque estava muito sofrido, tinha muitas mortes, muitos abusos, muitas coisas desagradáveis acontecendo. É como se o mundo empurrasse você dizendo: E agora, o que você vai fazer com isso?” -- Monja Coen
Para Coen, nesses momentos, em que a vida te empurra com tanta força, você tem que fazer alguma coisa.
Ao atender ao chamado, Coen passou doze anos no Japão. Foi lá que se ordenou, aos 36 anos, concluindo sua formação no Mosteiro Feminino de Nagoya. A rotina era de despojamento total: sem rádio, sem televisão e sem acesso a jornais com fotos. A única conexão com o exterior vinha de uma revista Time, enviada por uma amiga, que a informou sobre a Guerra do Golfo. Naquele momento, só lhe restou dedicar orações pelo fim do conflito.
Hoje, a monja rejeita o isolamento religioso. “A gente não pode se fechar, se trancar em casa, no templo, e ficar só meditando e não saber o que está acontecendo no mundo. Isso é absurdo”, diz a monja. “Eu continuo acreditando, se nós nos unirmos, acreditando na possibilidade de uma sociedade mais humana, no sentido mais harmônica, mais respeitosa, mais inclusiva, nós chegaremos lá”, complementa.
Ela acredita que o ‘DNA humano’ quer sobreviver e, para sobreviver, essa mudança já está ocorrendo. “Tem mais crianças, mais adolescentes, mais pessoas pensando no meio ambiente, na sociedade, na não violência. Nós ainda estamos no intervalo, ainda tem muitas violências [acontecendo], muitos abusos, mas existe um caminho de não violência que está sendo criado, que está sendo estimulado”.
‘O sentido da vida’
Monja Coen marcará presença no Festival Fronteiras, em São Paulo, neste sábado, 7 de março. No evento, que tem apoio do Terra, participará da programação “O sentido da vida: entre o espiritual, o filosófico e o simbólico. O que dá sentido à existência quando as certezas se desfazem?” ao lado do psicanalista Christian Dunker, da filósofa Katiúscia Ribeiro e do poeta Fabrício Carpinejar. O painel falará sobre “perspectivas que atravessam a experiência humana — o zen, o psicanalítico e o ancestral — para pensar propósito, sofrimento e esperança em tempos de incerteza. Uma conversa que costura silêncio, palavra e poesia para refletir sobre como seguimos buscando significado”.
Serão dois dias de evento, sábado e domingo, no Parque da Água Branca, na Barra Funda, com mais de 40 painéis em palcos simultâneos. Entre os nomes confirmados também estão Carla Madeira, Lilia Moritz Schwarcz, Milton Hatoum, Roberto DaMatta, Mary del Priore, Miriam Leitão, Luiz Felipe Pondé, Kaká Werá, Pérsio Arida, Matias Spektor, Ronaldo Lemos, Rachel Maia, Martha Gabriel, Malu Gaspar, Sérgio Dávila, Fernando Gabeira e Eduardo Giannetti.
Os ingressos, para cada um dos dias, estão disponíveis a partir de R$ 209. Mais detalhes podem ser conferidos no site festivalfronteiras.com.br.