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Fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti exibe em Paris a estética que conquistou a moda global

O Museu de Artes Decorativas de Paris dedica, até 2 de maio de 2027, uma exposição ao fotógrafo Rafael Pavarotti. Nascido na Amazônia e influenciado pelas culturas afro-indígenas do Brasil, ele conquistou a moda e a cultura pop com suas cores vibrantes e seu estilo teatral. De gigantes do luxo a Beyoncé, passando por Madonna, com quem colaborou em seu último álbum, todos se renderam à sua estética.

2 out 2026 - 15h36
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Resumo
O fotógrafo paraense Rafael Pavarotti inaugurou em Paris uma exposição que celebra a estética vibrante e inclusiva que o consagrou na moda global. Inspirado por sua infância em Belém e pela Amazônia, seu trabalho destaca modelos afrodescendentes e indígenas através de cores primárias intensas, unindo engajamento político e o conceito de amefricanidade. Reconhecido por campanhas históricas na Dior e na Vogue, Pavarotti desafia padrões ao promover maior representatividade racial no setor.

Silvano Mendes, da RFI em Paris

Uma explosão de cores. É isso que chama atenção primeiro na exposição Rafael Pavarotti: Fotógrafo, recém-inaugurada em Paris. Algumas imagens em preto e branco pontuam o percurso, mas são as cores fortes e primárias que predominam: nas roupas dos modelos, nos acessórios ou como simples pano de fundo para destacar a textura da pele dos personagens, quase todos racializados.

"A cor sempre foi mais do que simples pigmentos para mim. Ela é um ancestral, um ritmo, um espírito, uma memória. É uma voz que existia antes de mim e continuará existindo depois de mim", afirma Rafael Pavarotti. "Ela simboliza algo maior, vivo, que pertence ao Sul e ao novo mundo que está emergindo."

O Sul e esse novo mundo aos quais se refere estão, de fato, no centro de seu trabalho, e sua Amazônia natal nunca está muito distante. Embora tenha deixado Belém, capital do estado do Pará, aos 16 anos, e passado depois por São Paulo, Rio de Janeiro e Londres antes de se estabelecer em Paris, é nas lembranças da infância que o fotógrafo de 33 anos busca inspiração.

O rigor dos pais artesãos, o olhar da avó que lhe ensinou que "a ousadia em matéria de cor não é uma provocação, mas uma forma de sinceridade", e a singularidade de uma cidade situada às portas da Amazônia. "Em Belém, a cor atua com instinto e convicção: as casas são pintadas em combinações cromáticas ousadas e as roupas se harmonizam de maneira intuitiva", recorda.

Tendo o Brasil e a Amazônia como referências constantes, Rafael Pavarotti coloca modelos negros e indígenas em papéis de destaque para ampliar a diversidade de representações na moda.
Tendo o Brasil e a Amazônia como referências constantes, Rafael Pavarotti coloca modelos negros e indígenas em papéis de destaque para ampliar a diversidade de representações na moda.
Foto: RFI

Mas seu trabalho não se resume às cores. Ele também se destaca pela escolha de seus personagens, figuras femininas poderosas, representadas como rainhas ou guerreiras. "Ele quer dar visibilidade, abrir espaço para todos os tons de pele. Os modelos, sejam afrodescendentes ou indígenas, são regularmente suas musas. Para ele, a ideia é contribuir para a evolução do universo da moda", resume Sébastien Quéquet, responsável pela conservação no Museu de Artes Decorativas de Paris e curador da exposição.

"O que me interessa é contribuir para um futuro visual em que circulem formas mais inclusivas de representação, em que os mais jovens encontrem imagens que ampliem sua concepção do possível, em que as futuras gerações possam se reconhecer com clareza, força e um sentimento de pertencimento", defende o fotógrafo no material de divulgação da mostra.

Foi assim que, em 2020, ele fotografou a primeira campanha publicitária da história da Dior realizada exclusivamente com modelos negros. Dois anos depois, também dirigiu a imagem de nove modelos negros na capa da Vogue UK. A imagem gerou debates, com alguns críticos enxergando nela uma forma de instrumentalização da questão racial.

'Amefricanidade'

Os amantes de fotografia podem até tentar comparar seu trabalho aode Viviane Sassen pelo uso da cor, ou mesmo o de Jean-Paul Goude pela encenação de alguns personagens. Mas Rafael Pavarotti vai além, porque seu olhar mistura "lugar de fala" e engajamento político.

Basta observar suas referências: ele cita frequentemente a escritora e ativista afro-americana Maya Angelou, a autora brasileira Carolina Maria de Jesus e o cacique Raoni, sem esquecer Zumbi dos Palmares e Dandara.

Rafael Pavarotti ganhou destaque no cenário internacional graças ao uso das cores e às suas referências culturais.
Rafael Pavarotti ganhou destaque no cenário internacional graças ao uso das cores e às suas referências culturais.
Foto: RFI

Sua abordagem também se insere em uma releitura estetizada da "amefricanidade", conceito desenvolvido na década de 1980 pela pesquisadora Lélia Gonzalez para dar visibilidade às lutas dos povos colonizados da América do Sul, sejam eles afrodescendentes ou indígenas. Na exposição, a série An Altar to Memory, que encerra o percurso, explora precisamente essa ideia: divindades iorubás convivem com o povo tupi e com espíritos afro-brasileiros, tudo isso apresentado com um apurado senso de encenação.

Anticelebridade, mas parte do sistema

Apesar do sucesso, o fotógrafo cultiva certa discrição, a ponto de se recusar a dar entrevistas durante a visita de imprensa da exposição em Paris. Mas ele sabe jogar o jogo da celebridade. Mesmo sem falar com jornalistas, fez questão de estar disponível quando Anna Wintour, a eterna papisa da Vogue americana, fez uma visita relâmpago ao museu na manhã desta quinta-feira (1º). Da mesma forma, apareceu ao lado de celebridades brasileiras e internacionais durante a festa de inauguração da exposição, sem nunca tirar seus óculos escuros.

"Ele não está à margem do sistema, nem o critica de fora. Está realmente no centro dos universos da moda, do entretenimento e da cultura pop", resume o curador da exposição. "Existe essa vontade de fazer sua mensagem ecoar de maneira ainda mais ampla, beneficiando-se, de certa forma, dessas celebridades e de seus públicos. É uma maneira de difundir seu trabalho", finaliza.

O fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti trabalhou com várias estrelas da música, de Beyoncé a Madonna, cujo álbum Confessions II teve capa assinada por ele.
O fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti trabalhou com várias estrelas da música, de Beyoncé a Madonna, cujo álbum Confessions II teve capa assinada por ele.
Foto: RFI
RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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