Filme sobre polarização política leva maior prêmio de Cannes
Crítica ao "fundamentalismo de esquerda", "Fjord" foi o grande vencedor do festival de cinema. Drama do romeno Cristian Mungiu acompanha família evangélica que perde a guarda dos filhos.O filme "Fjord", uma crítica ao que o diretor romeno Cristian Mungiu chamou de "fundamentalismo de esquerda", venceu o prêmio de melhor filme no Festival de Cannes neste sábado (24/05), em uma cerimônia de encerramento repleta de estrelas.
Em seu segundo filme vencedor da Palma de Ouro, Mungiu explora as contradições da suposta tolerância da Escandinávia.
O drama acompanha um casal romeno evangélico e seus cinco filhos, que se mudam para uma vila remota na Noruega e perdem a guarda dos filhos por bater neles.
"Esta é uma mensagem sobre tolerância, inclusão e empatia. São valores maravilhosos que todos nós prezamos, mas precisamos colocá-los em prática com mais frequência", disse Mungiu ao público.
O filme é baseado em fatos reais e se destaca por questionar os valores progressistas da sociedade norueguesa, além de parecer simpático aos personagens religiosos conservadores — uma ruptura com a maior parte do cinema de arte exibido em festivais.
Em 2007, Mungiu foi premiado na mesma categoria com o drama romeno sobre aborto "Quatro meses, três semanas e dois dias".
Drama russo "Minotaur" vence Grande Prêmio
O drama familiar russo "Minotaur", de Andrey Zvyagintsev, que retrata um empresário insensível envolvido na invasão da Ucrânia pela Rússia, venceu o Grande Prêmio, segunda principal láurea do festival.
Presença constante em Cannes, Zvyagintsev é um cineasta aclamado cujos retratos sombrios da Rússia moderna sob Vladimir Putin renderam uma série de prêmios e duas indicações ao Oscar.
O diretor de 62 anos, que agora vive exilado na França, pediu a Putin que coloque fim ao "massacre" na Ucrânia em seu discurso de agradecimento.
Prêmios divididos
Entre os outros prêmios, a belga Virginie Efira e a atriz japonesa Tao Okamoto dividiram o prêmio de melhor atuação feminina por seus papéis no sensível drama ambientado em um asilo " Soudain", do japonês Ryusuke Hamaguchi.
A dupla belga Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, do romance gay da Primeira Guerra Mundial "Coward", também dividiu o prêmio de melhor ator por suas atuações no filme dirigido por Lukas Dhont.
Outros favoritos da crítica em Cannes incluíram o drama histórico artístico em preto e branco "Fatherland" (Pawel Pawlikowski) e "La Bola Negra" (Javier Ambrossi e Javier Calvo), um drama espanhol de grande orçamento sobre múltiplas vidas gays. Os dois filmes venceram o prêmio de melhor direção, em um terceiro empate.
A cineasta ruandesa Marie-Clementine Dusabejambo venceu a Câmera de Ouro de melhor filme de estreia por seu drama sobre o genocídio "Ben'Imana", que ela dedicou "às mulheres do meu país".
O melhor roteiro foi entregue a Emmanuel Marre por "A Man of His Time", um drama francês sobre um colaborador dos nazistas em Vichy, baseados nas experiências de seu bisavô.
Outros prêmios em Cannes incluem o de melhor documentário para "Rehearsals for a Revolution", um relato altamente pessoal da repressão política no Irã, da atriz e diretora exilada Pegah Ahangarani.
"Elephants in the Fog" — o primeiro filme do Nepal a competir em Cannes — venceu o prêmio do júri da seção oficial Certain Regard na sexta-feira, por sua história sobre a tradicional comunidade transgênero do país.
E o prêmio de melhor ator da seção Certain Regard foi para o jovem de 18 anos Bradley Fiomona Dembeasset, descoberto em uma audição de rua na capital centro-africana Bangui, pelo filme de apelo popular "Congo Boy", um drama de rap sobre refugiados.
Hollywood de fora
Cannes é o maior festival de cinema do mundo, oferecendo uma plataforma crucial para o cinema independente.
A 79ª edição contou com seu habitual elenco de estrelas de primeira linha, de John Travolta a Cate Blanchett e Vin Diesel, mas os estúdios de Hollywood em grande parte ficaram de fora.
Nenhum grande estúdio dos Estados Unidos concordou em lançar um blockbuster no festival neste ano, nem no Festival de Berlim em fevereiro - aparentemente, por temer que a crítica afete o desempenho dos filmes nas bilheterias.
Outros grandes temas de debate incluíram o uso de inteligência artificial no cinema, assim como a persistente sub-representação das mulheres na indústria.
Apenas cinco dos 22 filmes da competição principal deste ano foram dirigidos por mulheres.
ra (AFP, AP, DW)
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