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Festival em Paris exibe documentário sobre violência agrária e impunidade no Brasil

Destaque do Festival Brasil em Movimentos, em cartaz até domingo (20) em Paris, o documentário "Pau d'Arco", da jornalista e documentarista Ana Aranha, revisita um dos mais graves massacres agrários da história recente do Brasil. O longa mostra como os conflitos pela terra continuam produzindo violência, medo e impunidade no país.

18 set 2026 - 10h42
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Resumo
Exibido em Paris após estrear no Brasil e na Netflix, o documentário "Pau d'Arco", dirigido por Ana Aranha, retrata a violência agrária e a impunidade no país. Gravado em tempo real ao longo de sete anos, o longa acompanha Fernando, um sem-terra sobrevivente do massacre policial de 2017 no Pará que matou dez trabalhadores, e seu advogado na luta por justiça. A obra busca combater preconceitos e aproximar o público da dura realidade humana dos conflitos por terra no Brasil.

O filme acompanha, durante sete anos, a luta por justiça de um sobrevivente sem terra e de seu advogado após a morte de dez trabalhadores rurais em uma operação policial no sul do Pará, em 2017. Depois de estrear nos cinemas brasileiros em 2025 e chegar à plataforma Netflix, o documentário segue em sua trajetória internacional.

A jornalista e cineasta Ana Aranha.
A jornalista e cineasta Ana Aranha.
Foto: © Divulgação / RFI

Para a diretora Ana Aranha, a participação em um festival voltado a conflitos sociais e ambientais do Brasil tem um significado particular. Segundo ela, trata-se de um cinema que busca não apenas entreter, mas aproximar realidades frequentemente invisíveis para quem vive nos grandes centros urbanos.

"O filme serve para gerar conexão entre pessoas que têm acesso ao cinema e às plataformas e aquelas que vivem questões pouco visíveis no Brasil", resumiu Ana Aranha à RFI.

Ela lembra que o massacre de Pau d'Arco recebeu ampla cobertura quando aconteceu. "Foi capa dos jornais e notícia internacional. Mas nós ficamos lá", conta. Enquanto a maior parte da imprensa acompanhou os desdobramentos imediatos do caso, a equipe decidiu seguir documentando a trajetória dos sobreviventes.

No centro da narrativa está Fernando, trabalhador sem terra e homossexual que sobreviveu à chacina e teve coragem de depor contra os policiais envolvidos, ao lado do advogado que o acompanha na busca por justiça. Ao longo das filmagens, novos episódios dramáticos marcaram a vida dos dois protagonistas.

"Fatos gravíssimos aconteceram com essas pessoas enquanto filmávamos. Tivemos uma oportunidade rara de registrar os acontecimentos enquanto eles aconteciam", conta Ana Aranha.

Essa é uma das particularidades do documentário. Em vez de reconstruir fatos do passado por meio de entrevistas retrospectivas, "Pau d'Arco" acompanha a história em tempo real.

Entre o jornalismo e o cinema

Coordenadora de projetos especiais da agência Repórter Brasil e ex-chefe de redação do veículo, Ana Aranha diz que a própria força da história a levou a ultrapassar os limites da reportagem e a realizar seu primeiro longa-metragem. O ponto de virada ocorreu quando conheceu Fernando.

"Ele tem uma força, um brilho e uma presença diante da câmera que me fizeram pensar: isso é cinema", relembra.

A diretora afirma que foi a potência humana do personagem que atraiu outros profissionais do audiovisual para o projeto. Segundo ela, a narrativa acabou adquirindo uma estrutura próxima à de um filme de ficção, embora todos os acontecimentos registrados sejam reais.

Derrubando preconceitos

Nas discussões realizadas após as exibições, um aspecto chama particularmente a atenção da cineasta: a surpresa do público ao entrar em contato com a realidade dos trabalhadores sem terra. Segundo Aranha, isso ocorre tanto na França quanto no Brasil.

"Existe muito preconceito e pouca informação sobre quem são essas pessoas", afirma. "Quando o espectador entra na vida do Fernando e entende o que significa querer transformar um pasto abandonado em uma plantação de mandioca, batata ou quiabo, ele passa a enxergar essa realidade de outra maneira."

Para a diretora, o filme ajuda a desmontar estereótipos ao mostrar os motivos que levam famílias inteiras a participar de ocupações de terra.

"As pessoas que ocupavam aquela fazenda estavam passando fome. Havia crianças e idosos em situação de insegurança alimentar. É preciso uma necessidade muito grande para correr um risco desses", observa.

Ao acompanhar a vida de um sobrevivente da chacina, "Pau d'Arco" procura deslocar o olhar do espectador para quem vive diretamente os conflitos fundiários, e não para os grandes proprietários ou para as disputas políticas em torno do tema.

"A proposta é criar uma conexão humana. O cinema permite isso. Quando as pessoas se emocionam com uma história, elas conseguem compreender realidades que antes lhes eram completamente desconhecidas", destaca Ana Aranha.

O filme será exibido neste sábado (19), às 19h, no cinema 7 Parnassiens, na capital francesa.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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