Única Cinegrafista Mulher da Emissora Enfrenta Machismo e Ameaça do Talibã Em "No Good Men"
Drama acompanha uma profissional de televisão em Cabul que tenta preservar o trabalho, a relação com o filho e a própria liberdade em meio às mudanças de 2021
Exibido no Festival do Rio, o drama "No Good Men", escrito, dirigido e estrelado por Shahrbanoo Sadat, retrata o Afeganistão pré-retomada do Talibã sob a ótica de Naru, a única mulher cinegrafista de uma TV em Cabul. O longa une ficção e imagens reais para expor os desafios da protagonista ao conciliar a maternidade, um romance profissional e a opressão machista diária, sintetizando a perda iminente da liberdade feminina perante o iminente e tenso colapso sociopolítico do país.
Exibido no Festival do Rio 2026, "No Good Men" acompanha o Afeganistão pouco antes da retomada do poder pelo Talibã, em 2021, mas escolhe observar esse período pelos olhos de uma mulher tentando trabalhar, cuidar do filho e conquistar seu espaço em uma sociedade profundamente desigual. Escrito, dirigido e protagonizado por Shahrbanoo Sadat, o longa tem 103 minutos e mistura jornalismo, drama, romance e alguns momentos de humor sem esquecer a tensão que cerca seus personagens.
A guerra e a instabilidade política estão presentes, inclusive através de imagens reais, tiros e acontecimentos que fazem parte daquela realidade, mas o filme não fica preso somente ao conflito. O interesse está principalmente em acompanhar Naru e perceber como ser mulher interfere em praticamente todos os aspectos de sua vida. Trabalhar como cinegrafista, cuidar do filho, enfrentar o machismo dos colegas e defender os próprios direitos se tornam desafios diários em um lugar onde sua liberdade está cada vez mais ameaçada.
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Uma cinegrafista tentando conquistar seu espaço
Naru, interpretada pela própria Shahrbanoo Sadat, trabalha como cinegrafista em uma grande emissora de televisão de Cabul e é a única mulher exercendo aquela função. Separada de um marido infiel, ela ainda enfrenta uma disputa para continuar próxima do filho de três anos, enquanto tenta ser levada a sério dentro do trabalho.
Sua rotina muda quando surge a oportunidade de trabalhar com Qodrat, vivido por Anwar Hashimi, um dos jornalistas de maior destaque da emissora. Os dois começam a percorrer a cidade durante as coberturas jornalísticas e, conforme passam mais tempo juntos, a relação profissional ganha outra dimensão.
O romance entra na história sem tomar o espaço de tudo aquilo que acontece ao redor. Há momentos engraçados e uma boa dinâmica entre os dois, mas as diferenças de comportamento e pensamento continuam presentes. O relacionamento acaba servindo inclusive para mostrar algumas das contradições de homens que podem parecer mais abertos em determinadas situações, mas ainda carregam atitudes machistas.
Shahrbanoo Sadat constrói uma protagonista que vai muito além do jornalismo
Naru funciona muito bem porque sua luta não fica restrita ao ambiente profissional. Ela quer fazer seu trabalho, participar das coberturas importantes e ser respeitada pelos colegas, mas ao mesmo tempo precisa enfrentar problemas familiares e uma estrutura que constantemente tenta decidir o que uma mulher pode ou não fazer.
Shahrbanoo Sadat transmite muito bem essa mistura de determinação e desgaste. Naru sabe se impor, mas isso não significa que esteja imune ao medo ou ao cansaço. Algumas das situações mais fortes aparecem justamente quando percebemos o quanto ela precisa insistir para conquistar coisas que seriam completamente normais para os homens ao seu redor.
Anwar Hashimi também funciona bem como Qodrat, principalmente na relação construída com Naru. Os dois conseguem criar momentos leves sem fazer o filme esquecer onde e quando aquela história acontece. Mesmo nas cenas mais tranquilas, existe a sensação de que a situação política do país pode mudar tudo rapidamente.
Fotografia, imagens reais e som ajudam a mostrar um país em tensão
A fotografia de Virginie Surdej está entre os grandes acertos de "No Good Men". A câmera funciona tanto nos momentos mais íntimos quanto nas sequências pelas ruas, mostrando uma Cabul movimentada enquanto a ameaça de uma mudança política acompanha a rotina dos personagens.
Mesmo com grande parte da produção realizada fora do Afeganistão, principalmente na Alemanha, a ambientação convence. O uso de imagens reais de arquivo ajuda ainda mais. Esses registros aparecem dentro da história e aproximam a ficção dos acontecimentos que realmente marcaram o país, dando outro peso às coberturas realizadas pelos personagens.
O som também chama atenção, principalmente nas cenas ligadas ao trabalho jornalístico e à violência. Tiros, carros, movimentação nas ruas e transmissões ajudam a lembrar que existe um conflito acontecendo mesmo quando a câmera está concentrada na vida pessoal de Naru. O filme não precisa transformar cada momento em uma grande sequência de guerra para manter essa ameaça presente.
A trilha, com trabalhos de Therese Aune, Harpreet Bansal e Kristian Eidnes Andersen, acompanha bem essas mudanças e ainda utiliza vozes femininas afegãs. Já a montagem de Alexandra Strauss consegue alternar o romance, o jornalismo e os problemas enfrentados por Naru sem deixar os 103 minutos pesados.
A rotina de uma mulher diz muito sobre aquele momento do Afeganistão
"No Good Men" acerta ao mostrar um período tão complicado do Afeganistão sem abandonar a vida de quem estava no meio dele. Naru continua trabalhando, se apaixonando, cuidando do filho e tentando construir alguma normalidade enquanto percebe que seus direitos podem desaparecer ainda mais.
O jornalismo ganha bastante importância nesse caminho. Acompanhamos uma mulher que não está apenas observando o que acontece no país, mas registrando aquela realidade enquanto ela própria sofre com muitas das questões que aparecem diante de sua câmera. Isso dá força às cenas de reportagem e aproxima o lado profissional dos conflitos pessoais da protagonista.
Com uma fotografia muito boa, uso interessante de imagens de arquivo, ótimo trabalho sonoro e boas atuações, "No Good Men" consegue equilibrar romance e drama sem diminuir o peso do contexto político. A luta de Naru por respeito, pelo filho, pelo trabalho e pelo direito de fazer suas próprias escolhas acaba dizendo muito sobre a situação das mulheres naquele momento do Afeganistão.
É uma história sobre jornalismo e sobre um país prestes a enfrentar outra mudança profunda, mas é principalmente o retrato de uma mulher tentando continuar dona da própria vida quando tudo ao redor ameaça tirar esse direito dela.
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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