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Tom Cruise Surge Quase Irreconhecível Em "Digger", Filme Grandioso Que Se Perde No Roteiro

Ator abraça personagem arrogante e caricato no longa de Alejandro G. Iñárritu, que aposta em sátira, crise ambiental e uma produção visualmente ambiciosa

29 set 2026 - 20h02
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Resumo
Em "Digger", de Alejandro G. Iñárritu, Tom Cruise surge quase irreconhecível como um arrogante magnata do petróleo que tenta posar de salvador após causar um desastre ambiental. Apesar da atuação caricata e corajosa do astro e do primor técnico — com destaque para a fotografia e a maquiagem —, o filme peca pelo excesso. Com muitas ideias e mudanças de tom acumuladas em suas mais de duas horas, a produção desliza em um roteiro confuso e cansativo, que desperdiça a força de sua narrativa ambiciosa.

O novo filme "Digger", de Alejandro G. Iñárritu, coloca Tom Cruise em um papel bem distante dos heróis de ação que marcaram boa parte de sua carreira recente. Com 128 minutos de duração, o longa mistura sátira, drama, humor absurdo e uma discussão ambiental em uma história que passa por poder, dinheiro, exploração de petróleo e as consequências de uma catástrofe.

É um filme ambicioso e isso aparece rapidamente. O elenco é grande, a produção impressiona e existem várias ideias sendo trabalhadas ao mesmo tempo. O problema começa justamente quando tudo isso precisa virar uma história. "Digger" acumula informações, personagens, mudanças de tom e situações exageradas sem conseguir organizar muito bem o que pretende contar. É preciso acompanhar cada detalhe com bastante atenção e, mesmo assim, em alguns momentos fica difícil entender para onde a trama está caminhando.

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Imagem: Divulgação/Warner Bros.
Imagem: Divulgação/Warner Bros.
Foto: Divulgação/Warner Bros. / Woo! Magazine

Um desastre criado pelo próprio homem que promete salvar o mundo

Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um poderoso magnata do petróleo envolvido em uma operação que desencadeia uma grave crise ambiental. O problema ganha proporções ainda maiores quando um enorme bloco de gelo passa a representar outra ameaça. No meio do caos, Digger tenta ocupar justamente a posição de homem capaz de salvar o mundo de uma situação que ele mesmo ajudou a criar.

A história coloca ao redor dele personagens vividos por Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons. Ciência, política, interesses econômicos e a própria imagem pública de Digger entram nessa confusão, quase sempre acompanhados pelo exagero que Iñárritu escolhe para conduzir o longa.

A proposta fica clara, mas acompanhar tudo o que acontece nem sempre é simples. Existem muitas informações entrando rapidamente na história, e algumas situações poderiam ter recebido mais tempo ou uma construção melhor antes de o filme seguir para a próxima ideia.

Imagem: Divulgação/Warner Bros.
Imagem: Divulgação/Warner Bros.
Foto: Divulgação/Warner Bros. / Woo! Magazine

Tom Cruise abraça completamente o exagero de Digger

Tom Cruise entra de cabeça no personagem. Maquiagem pesada, próteses, mudanças na aparência e uma postura muito mais caricata ajudam a afastar rapidamente Digger Rockwell da imagem que o público costuma associar ao ator. Ele é arrogante, exagerado e frequentemente difícil de gostar, exatamente como o personagem pede.

Mesmo dentro de toda essa caricatura, Cruise encontra bons momentos quando a história permite que ele trabalhe situações mais dramáticas. É uma atuação diferente e interessante de acompanhar, principalmente por colocar o ator em um registro que foge bastante daquilo que ele vem fazendo nos últimos anos.

O elenco ao redor também é forte. O problema é que o roteiro assinado por Iñárritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman, com a história também desenvolvida com Jez Butterworth, coloca tanta coisa dentro das 2h08 que nem sempre consegue aproveitar bem tudo o que possui.

Existem cenas que duram mais do que precisavam, momentos absurdos que funcionam melhor do que outros e informações que poderiam ser apresentadas de maneira mais clara. O grande plot twist tenta mudar a forma como enxergamos parte do que aconteceu anteriormente, mas acaba adicionando outra camada a uma trama que já estava bastante confusa.

Imagem: Divulgação/Warner Bros.
Imagem: Divulgação/Warner Bros.
Foto: Divulgação/Warner Bros. / Woo! Magazine

Quando entra a parte técnica, "Digger" cresce muito

Se existe uma área em que "Digger" dificilmente decepciona, é na construção visual. A fotografia de Emmanuel Lubezki está entre os grandes destaques e aproveita muito bem os movimentos de câmera, enquadramentos e a escala dos cenários. Filmado inteiramente em VistaVision, o longa possui várias sequências que chamam atenção pela maneira como foram pensadas e executadas.

O design de produção de Dennis Gassner e Richard Johnson acompanha esse nível. Cenários, estruturas e diferentes ambientes são construídos com bastante detalhe e ajudam a dar ao filme a dimensão grandiosa que Iñárritu procura. Mesmo quando a história começa a se perder, existe sempre alguma coisa interessante acontecendo visualmente.

A transformação de Tom Cruise também merece destaque. O trabalho de maquiagem de Alessandro Bertolazzi e as próteses de Kazu Hiro ajudam a criar um personagem que, em determinados enquadramentos, quase faz esquecer que existe uma das maiores estrelas do cinema por trás daquela aparência.

A trilha de Cosmo Sheldrake e o trabalho sonoro completam muito bem essa parte técnica, principalmente nas cenas em que o filme precisa transmitir tensão ou aumentar ainda mais o absurdo de determinadas situações.

Duas horas que podem parecer bem mais longas

Toda essa qualidade técnica torna os problemas do roteiro ainda mais perceptíveis. "Digger" possui ótimas imagens, bons movimentos de câmera, cenários grandiosos, maquiagem excelente e um elenco que funciona. Existe muito cinema sendo feito ali, só que a história responsável por juntar todas essas peças é justamente a parte mais frágil.

Os 128 minutos acabam pesando. Não chega a ser um filme completamente chato, porque existem boas cenas e curiosidade suficiente para descobrir o que está acontecendo, mas em alguns trechos ele se torna cansativo e até sonolento. Se o espectador perder alguma informação ou deixar de acompanhar uma das várias peças que o roteiro coloca em movimento, voltar a entender a lógica da trama pode ser complicado.

"Digger" termina como um filme muito mais interessante pelo que apresenta tecnicamente do que pela história que conta. Tom Cruise entrega uma atuação diferente, Iñárritu constrói sequências visualmente impressionantes e a produção possui um nível técnico excelente. O roteiro, porém, tenta abraçar ideias demais e acaba deixando tudo mais bagunçado do que precisava.

Visualmente, há muito para admirar. Como narrativa, exige bastante paciência para organizar uma história que o próprio filme nem sempre consegue deixar clara.

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

Woo! Magazine
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