'Emergência Radioativa': por dentro do sucesso da série brasileira que conquistou o mundo
Em entrevista ao 'Estadão', o diretor Fernando Coimbra e a atriz Marina Merlino falam sobre o sucesso da série, bastidores da produção e os desdobramentos reais da produção para famílias de vítimas e sobreviventes
O diretor Fernando Coimbra confessa que foi com surpresa que recebeu a notícia do sucesso internacional de Emergência Radioativa. A série criada para a Netflix, que dramatiza o acidente radiológico com Césio-137 ocorrido em Goiânia, em 1987, extrapolou as barreiras territoriais e ficou entre as 10 mais vistas em mais de 55 países cobertos pela plataforma de streaming.
Não é que ele não acreditasse na história, ele ressalta - até porque já tinha uma expectativa de que haveria uma boa repercussão no Brasil, tanto por acreditar no tema quanto por enxergar nele um meio para trazer ao debate camadas de questões políticas, sociais e humanas que envolvem o caso. "Mas esse sucesso no mundo foi um susto", diz, em entrevista ao Estadão.
"Eu imaginava que fora do Brasil haveria um interesse em alguns lugares, porque acredito que essas histórias têm apelo universal. É uma história que você assiste e consegue se colocar no lugar daquelas pessoas", reflete. "Pelo fato de a trama se passar no Brasil dos anos 80, é curioso que a série esteja, até hoje, no Top 10 de países do Leste Europeu, em lugares muito próximos de onde aconteceu o acidente de Chernobyl." O desastre de Chernobyl aconteceu no dia 26 de abril de 1986.
A série que estreou na Netflix no último dia 18 de março parte de uma história verídica, e pouco explorada ou abordada em obras do audiovisual brasileiro, para ir além dos fatos. Criada por Gustavo Lipsztein, tem direção geral de Coimbra e direção episódica de Coimbra e Iberê Carvalho. A produção é da Gullane.
O segredo do molho
Diretor de títulos como Os Enforcados e O Lobo Atrás da Porta, que também mexem em feridas sociais com pitadas de thriller, o realizador diz que entendeu com o tempo o quanto histórias baseadas em fatos funcionam com o público nacional.
"Eu lembro quando a Netflix estava abrindo um escritório no Brasil, e eu tinha feito Narcos e Castelo de Areia e tinha uma relação com a Netflix lá nos EUA. Eles me perguntaram do que o brasileiro gosta, e eu falei que não sabia", diz - e ri. "Ninguém sabe. Temos sucessos enormes e fracassos enormes com comédias e todo tipo de coisa. Mas, depois de um tempo na estrada, eu falei: 'Uma coisa que o brasileiro gosta é de ver histórias reais ou com contexto real'. Não é à toa que as maiores bilheterias do Brasil estão ali."
Foi partindo disso que ele encontrou um formato para contar a história de Emergência Radioativa, uma série que, mesmo tendo como base acontecimentos e pessoas verdadeiras, não tem como obrigação retratar fielmente a realidade.
Antes mesmo da chegada de Coimbra, Lipsztein estruturou o projeto conversando com profissionais que se envolveram no acidente, e esta etapa foi retomada após o envolvimento do diretor.
"Havia uma pesquisa de iconografia para ver a imagem de Goiânia de 1987, mas tudo era muito fragmentado e faltava juntar as peças para entender como era tudo aquilo ali, visualmente", recorda. "Fomos entendendo o que faltava de informação e falamos de novo com médicos, físicos, com famílias de vítimas e sobreviventes. Fomos até Goiânia ver os lugares e aproveitamos para conversar com as pessoas, e até com outras vítimas que não fazem parte do nosso núcleo central."
Coimbra ressalta que essas personagens que não fazem parte do núcleo central da história acabam agregando de outras formas. "Se você for ver hoje, há centenas de pessoas que são consideradas vítimas. Não falamos com todas, mas falamos com quem acreditamos que teria mais a oferecer. Mas sempre com cuidado, pois sabíamos que os nossos personagens iriam condensar a experiência de mais pessoas. Era importante dizer: 'Olha, não é você'. Isso para físico, para médico, para vítima, para todo mundo."
Para a atriz Marina Merlino, destaque da série no papel de Catarina, é importante ressaltar que, em nenhum momento, houve a pretensão de se fazer uma biografia. Ela exemplifica o quanto sua personagem, embora possua o marcador semelhante à história de Lourdes das Neves Ferreira, não é uma cópia dela.
"São personagens fictícias que atravessam circunstâncias muito marcantes, e que são condensações de várias pessoas. A Catarina vai direto para o convívio social quando é liberada do estádio. Ela vai trabalhar, tem uma questão de desamparo, de não ter para onde ir. Não foi o que aconteceu com essa mãe na vida real. Ela ficou três meses isolada no prédio da Febem, medicada. Mas outras pessoas foram liberadas". explica. "A Catarina tenta ir para o Rio, o que também acontece com outra parcela. Ela atravessa uma questão de trabalho que aconteceu com muitas pessoas devido ao preconceito."
Simbolismo social e ressignificação
Um dos pontos mais particulares sobre o acidente com o Césio-137 é o seu demarcador social. Tudo começou com dois catadores de recicláveis que encontram uma cápsula de metal em uma clínica de radioterapia abandonada e venderam para o dono de um ferro-velho. Ele desmontou o equipamento e se deparou com a substância azulada e brilhante, que apresentou a familiares sem saber que se tratava de um material radioativo.
"Se a gente tivesse feito essa série há 15 anos, talvez não tivesse tanta repercussão, pelo momento social, pela pandemia ter acontecido", reflete Coimbra, ao pontuar que a história ganha mais força no contexto atual. "Ecoa demais. As pessoas viveram coisas muito parecidas com o que acontece ali; as questões de abismo social, de racismo ambiental, tudo segue presente."
O diretor também acredita que havia uma necessidade de retirar o estigma que recaiu por décadas sobre essas vítimas. "Era muito importante começar e terminar essa série com eles, ter um olhar próximo. Até porque é quem realmente vive e é afetado pela situação", reforça, enquanto se recorda de que a imagem que fazia do caso — que aconteceu quando ele tinha 11 anos — é bem diferente da realidade.
"Você lia as coisas da época falando de furto, roubo. E eu imaginava toda uma coisa, as pessoas pulando um muro de noite. Aí depois você vê as imagens da clínica sem paredes, sem janelas, sem portas, sem telhado. Não é um roubo. As pessoas entraram; qualquer um entraria em um lugar que está claramente abandonado. A culpa é de muita gente, a responsabilidade é de mais gente ainda. Os 'alguéns' mais inocentes eram as vítimas, porque elas não tinham informação do que era aquilo. Não teria como ter, ninguém teria."
Merlino também acredita que há algo de essencial no que Emergência Radioativa propõe em relação à ressignificação da história dos afetados.
"Acho que a função das obras de arte, daquilo que é cultura, é a gente elaborar e reinventar o mundo, tentar elucubrar a possibilidade de criar o mundo que a gente deseja. Tem uma coisa muito fundamental que é justamente onde a corda estoura e quem leva a culpa: são essas pessoas, os catadores, o dono do ferro-velho, quando, na verdade, a responsabilidade é de quem deixou essa substância abandonada a céu aberto, colocando a população em risco", reflete.
A atriz aponta ainda que não se deve ignorar o simbolismo que alguns momentos da série carregam, no contexto político e social.
"Muita gente reclama da reação da família, da resistência de alguns dos personagens, mas eu acho que a maior parte das pessoas teria uma reação semelhante. Aparece alguém que você nunca viu na vida na porta da sua casa falando para você sair. Eu não sairia, especialmente porque a série se passa num período em que a redemocratização estava muito recente, as instituições estavam frágeis. E olha para as pessoas dessa família. O que significa um camburão na porta da casa delas, falando: 'Vamos levar vocês para o isolamento'? No final, quem estava desconfiado estava certo, em alguma medida, porque foi muita desinformação e desamparo."
Um trabalho a (muitas) mãos
Dos muitos elementos que contribuem para que tanta gente se identifique com Emergência Radioativa, um que está no centro da equação é o elenco, capaz de entregar nas cenas emocionantes sem apelar pela manipulação emocional. Coimbra explica que, desde o início, buscava atores que tivessem capacidade de improvisar e soassem naturalistas.
"Parece tanto uma ficção científica retrofuturista que, dependendo do jeito que você faz, parece que aquilo ali não aconteceu. Então eu tinha essa preocupação de criar uma dinâmica entre eles que fosse muito espontânea, e isso viria da qualidade desses atores, mesmo."
Um dos traços que foi modificado justamente devido ao improviso entre o elenco é a relação entre Catarina (Merlino) e o marido, João (Alan Rocha), que no roteiro seria mais conflituosa. "Eles foram trazendo uma coisa mais amorosa, uma parceria, tendo conflito, mas muito amor também, que foi muito bonito. Olhamos e pensamos: 'Vamos por aí porque está muito forte'", confessa Coimbra.
Marina complementa: "Esse núcleo teve algo de especial porque a gente não pode deixar que as personagens virem só a dor. Seria muito egoísta da nossa parte que essas pessoas fossem só o seu sofrimento. Essas pessoas são os seus sonhos, os seus amores, os seus vínculos, os seus prazeres, as suas realizações, os seus talentos, o seu riso. Então isso se construiu em cena. Muito disso está no que a gente não vê, mas está construído, e só foi possível por causa do encontro entre nós e a generosidade e sensibilidade da direção."
Emoção que transborda
Naquela que é provavelmente a cena mais dolorosa da série, do enterro de Celeste (Mari Lauredo), Marina conta que essa liberdade de improviso citada por Coimbra fez toda a diferença. A atriz revela que, na ocasião das filmagens, havia perdido o pai havia apenas quatro meses.
"O luto estava fresco, mas também é claro que não é a mesma coisa. Uma mulher que perdeu a filha naquelas condições e eu, que perdi meu pai com 79 anos. É sempre um processo de transformação. Nesta cena, o Fernando armou tudo e depois só disse: 'Vai, vai obedecendo ao seu instinto'. E cada take foi de um jeito. É um privilégio trabalhar com um set que acontece dessa maneira."
Consequências concretas
Mesmo com o grande sucesso da série, talvez o maior desdobramento de Emergência Radioativa seja o projeto de lei sobre o aumento de pensão às vítimas, aprovado pela Assembleia Legislativa de Goiás em março deste ano, depois de sete anos sem reajuste.
"Para mim foi a coisa mais incrível e surpreendente que aconteceu. Espera-se que isso vá gerar uma discussão e que, depois de um tempo, jogando luz sobre o fio, [algo vá acontecer]", reflete Fernando. "A gente estava consciente porque [os sobreviventes] falavam muito que a pensão não era reajustada há anos e estava abaixo do salário mínimo. A gente esperava que, saindo a série, isso virasse um assunto. Mas foi muito rápido", celebrou.
No entanto, ele pondera: "Estamos em ano de eleição também e, nesses casos, as coisas saem mais rápido por outros interesses. Mas é muito bonito, e a gente torce para esse tipo de coisa acontecer quando faz um trabalho desses. Espero que isso não seja só uma coisa momentânea que desapareça daqui a cinco anos", finaliza.
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