'A Casa dos Espíritos': Alfonso Herrera recorda leitura de livro na escola e fala sobre nova série
Na adaptação da obra de Isabel Allende que acaba de estrear no Prime Video, ex-RDB com passagens por séries como 'Ozark' e 'Sense8' comenta seu papel e a atualidade do romance
Como muitas pessoas, o ator mexicano Alfonso Herrera sofreu mental e emocionalmente durante a pandemia. Ele começou a fazer terapia enquanto filmava a série Ozark, da Netflix, em Atlanta. Durante uma sessão, a terapeuta pediu que ele repetisse em espanhol algo que acabara de dizer em inglês.
"Eu perguntei a ela por que queria que eu dissesse aquilo em espanhol", lembrou Herrera recentemente. "Ela respondeu: 'Porque o que você acabou de expressar é algo importante para você, e falar isso em voz alta na sua língua materna ressoará com um eco muito mais forte em sua mente consciente e no seu inconsciente'."
"O fato de esta versão ter sido filmada no Chile, em espanhol e com talentos ibero-americanos, gera um DNA muito distinto", afirmou Herrera.
Do RDB para séries de sucesso
O público internacional talvez conheça Herrera por Ozark - na qual interpretou o implacável traficante Javi na 4.ª temporada - ou pelas séries Sense8 e O Exorcista. No entanto, ele é uma estrela na América Latina há décadas, tendo estourado no início dos anos 2000 como integrante do grupo pop RBD. Filmes mexicanos como o drama de época O Baile dos 41 e a sátira política ¡Que viva México! expandiram seu currículo dramático.
Como é 'A Casa dos Espíritos'
A Casa dos Espíritos é uma saga multigeracional, imersa no realismo mágico, que narra a vida em um país latino-americano não especificado, ao longo de grande parte do século 20. Herrera interpreta Esteban, proprietário de terras que encarna ideais patriarcais e conservadores obsoletos com personalidade feroz.
A história retrata a violência política que espelha o golpe de Estado de 1973 no Chile, que derrubou o governo de Salvador Allende (primo do pai da autora) e instalou Augusto Pinochet no poder. Herrera leu o romance pela primeira vez como tarefa escolar no ensino médio.
Esteban está de luto e preenche o vazio com sucesso material. Ele é um autoritário disposto a usar a violência para manter o poder, não muito diferente de figuras da nossa realidade política atual. O que o personagem significa para você?
Esteban simboliza o sistema político latino-americano, que é repleto de injustiça, completamente desequilibrado e desprovido de consciência emocional. Esta história é tremendamente relevante porque retrata a polarização social, como a que vivemos hoje em muitos países, incluindo os Estados Unidos.
Falar de A Casa dos Espíritos é falar do que aconteceu na região que se estende do Rio Grande à Patagônia. Há muitas dores, feridas e cicatrizes que todos compartilhamos em toda a América Latina. Veja, por exemplo, as ditaduras no Chile, Argentina e Brasil. E, como disse o escritor Mario Vargas Llosa, o México também foi uma "ditadura perfeita", tendo sido governado pelo mesmo partido político por 70 anos. A história é um mural de quem somos como latino-americanos, pois também compartilhamos o legado do colonialismo, que consolidou nossas formas de comunicação, coexistência e estruturas sociais.
O papel foi fisicamente exigente? Você teve que falar com sotaque chileno e passar por uma transformação física conforme o personagem envelhecia.
Tive que equilibrar várias coisas ao mesmo tempo. O sotaque chileno difere enormemente do mexicano. Ao mesmo tempo, interpretei Esteban desde os 30 anos até sua morte, o que significou um uso extensivo de próteses. Enquanto filmávamos, eu e os maquiadores Pepe Mora e Jordi Morera assistíamos a Pinguim. Lembro-me de Colin Farrell dizendo em entrevistas: "Passávamos 3 horas e meia (na cadeira de maquiagem)". Pensamos: estávamos batendo 6 horas e meia apenas no processo de aplicação. Digo isso de brincadeira, mas, se você fizer as contas, passei mais de 240 horas sentado naquela cadeira. Eu colocava uma foto dos meus filhos no espelho e dizia a mim mesmo: "Vamos conseguir". O resultado valeu a paciência.
Você trabalha em produções de Hollywood há apenas uma década. Como isso começou?
Recebi convite para um teste para Sense8. Consegui o papel e, depois disso, voltei para o México e continuei trabalhando lá. Então, começaram a surgir mais oportunidades de audições nos EUA. A certa altura, não eram mais apenas convites para testes, mas ofertas diretas de trabalho para projetos interessantes como Ozark ou A Rainha do Sul.
Considerando seus vários filmes no México nos últimos anos, você não parece estar buscando ativamente o estrelato em Hollywood.
Trabalhar aqui no "norte" não é algo que me tire o sono. Tive a oportunidade de trabalhar nos Estados Unidos e conheci pessoas fantásticas, mas o que importa para mim é simplesmente continuar trabalhando, seja no meu país ou em toda a América Latina.
O modelo global de streaming também permite que livros como 'A Casa dos Espíritos' sejam adaptados com altos valores de produção, mas ainda em sua língua original.
Isso também tem a ver com o poder do romance. Eu estava na Suíça e entrei em algumas livrarias; os livros de Isabel Allende estavam consistentemente nas listas de mais vendidos. A Casa dos Espíritos foi um best-seller no Japão, França e Alemanha. Independentemente de a série ser em espanhol, acredito que ela atravessará com sucesso para outros mercados, em grande parte porque o romance permanece mais relevante do que nunca.
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