'30 Rock' na Netflix: Conheça a comédia cult dos anos 2000 que dissecou os processos da TV americana
Criada por Tina Fey, série foi sucesso de crítica, mas nunca teve números de audiência expressivos
Há mais de 50 anos no ar nos Estados Unidos, o Saturday Night Live é uma das instituições mais relevantes da história da TV norte-americana. Ao longo das décadas, o programa revelou atores e roteiristas que hoje são astros, como Jason Sudeikis (Ted Lasso), Julia Louis-Dreyfus (Thunderbolts*), Amy Poehler (Parks and Recreation), Bill Murray (Os Caça-Fantasmas), Robert Downey Jr. (Oppenheimer), Adam Sandler (Jay Kelly), Eddie Murphy e mais. Um dos principais nomes saídos do humorístico é Tina Fey (As Quatro Estações), primeira mulher a ocupar o cargo de roteirista-chefe do programa e que, após sua saída, criou uma série sobre sua experiência na atração.
O resultado foi 30 Rock, considerada pelo sindicato dos roteiristas dos EUA (WGA) como a melhor comédia do século 21 e vencedora de um número arrebatador de Emmys enquanto esteve no ar, entre 2006 e 2013. O curioso é que, apesar de ser um sucesso com a crítica, a série nunca conseguiu traduzir sua qualidade em espectadores, raramente superando a 100ª posição de programas mais vistos, de acordo com a Nielsen, principal analista de audiência da TV no país.
Ainda assim, a produção, que tinha um elenco formado por Fey, Alec Baldwin, Jane Krakowski e Tracy Morgan (que trabalhou com Fey no SNL), é vista hoje como uma das produções mais influentes do gênero no século. Adorada por pessoas de dentro da indústria, o programa ainda descolou participações especiais gigantescas, como Matt Damon, Helen Mirren, Jim Carrey, Salma Hayek, Jennifer Aniston, Julianne Moore, Jon Hamm, Christopher Walken, Michael Keaton, Carrie Fisher e até Martin Scorsese.
Disponível na Netflix desde o começo de maio, 30 Rock pode até não estar entre as séries mais vistas da plataforma no Brasil, mas é compromisso obrigatório para fãs de comédia ou para quem quer saber mais sobre o processo de bastidores da TV norte-americana.
A trama de '30 Rock'
Como mencionado acima, 30 Rock nasceu da experiência de Fey como roteirista-chefe e integrante do elenco do SNL. Na série, ela interpreta Liz Lemon, criadora, showrunner e produtora do The Girlie Show (TGS), um programa de esquetes ao vivo estrelado por sua melhor amiga, Jena Malone (Krakowski).
Brigando com os números de audiência e uma consecutiva perda de relevância, o TGS se vê ameaçado quando o executivo Jack Donaghy (Baldwin) é alistado pela General Electric, então dona da NBCUniversal, para comandar as produções da Costa Leste dos EUA. Uma de suas primeiras ordens no cargo é a contratação de Tracy Jordan (Morgan), comediante excêntrico, mas extremamente popular, para ser o novo rosto da atração.
Apesar de aumentar a audiência do programa, Tracy traz o caos ao TGS. Além do comportamento errático do humorista, o ego incontrolável de Malone e a falta de profissionalismo dos roteiristas, Liz também precisa lidar com as interferências corporativas da General Electric na produção, o que a coloca em choque com o novo chefe.
Ao longo das temporadas, a protagonista acaba se tornando uma espécie de aprendiz de Jack que, apesar do foco na arrecadação da NBC, briga nos bastidores para manter o TGS no ar. Juntos, eles navegam pelos vários obstáculos criados pelo corporativismo norte-americano na TV, enquanto ajudam um ao outro também em suas vidas pessoais.
Humor e bizarrices como crítica à indústria
Grande meta-comentário sobre a TV dos EUA, 30 Rock raramente poupava críticas a tudo o que envolve a produção de um grande programa televisivo. Patrocinadores, representatividade, preconceito e comportamentos ególatras de astros hollywoodianos são frequentemente alvos da acidez de Fey e seus roteiristas.
Através de Tracy e Jena, a série comenta as claras estratégias de relações públicas que instauram imagens imaculadas de famosos, enquanto, nos bastidores, esses mesmos astros têm comportamentos atrozes. Pelos roteiristas do TGS, vividos por Scott Adsit, Judah Friedlander, Keith Powell, John Lutz e Lonny Ross, Fey expõe o machismo insuportável da comédia na virada do século.
Mesmo as várias participações especiais de 30 Rock, que incluíram Whoopi Goldberg, Robert De Niro, Octavia Spencer, Conan O'Brien e Jon Bon Jovi, que interpretaram versões de si mesmos, aconteceram como forma de expôr os constantes jogos de poder da indústria. De Niro, inclusive, aparece sendo chantageado para participar de um quadro do TGS.
A cultura de fãs, personalizada no incrível e inocente secretário Kenneth (Jack McBrayer), também foi criticada por 30 Rock, que ora agradecia a lealdade e o apoio do público, ora os atacava pelo apoio incondicional a astros e produções problemáticas.
Depois de anos recebendo apresentadores megalomaníacos e lidando com interferências políticas no SNL, Fey usou do surrealismo e do humor non-sense para disfarçar denúncias, basicamente desabafando com o público sobre tudo o que sofreu por anos na indústria.
Por que a genialidade de '30 Rock' não se traduziu em audiência?
Novamente, 30 Rock é, de fato, uma das séries mais aclamadas por crítica e público dos últimos 30 anos. As sete temporadas da comédia têm uma média de aprovação de 78% da mídia especializada e 91% de aprovação dos espectadores no agregador Rotten Tomatoes. Sua nota no IMDb é altíssima, 8,3 de 10. Mesmo seus piores episódios são destacados entre os mais bem escritos da época. Mesmo assim, os números da Nielsen conquistados por Fey e companhia eram pífios e isso acontece por uma série de fatores.
O primeiro é a concorrência. Enquanto estava no ar, 30 Rock competia com gigantes de audiência em outras emissoras como Scrubs, Modern Family e How I Met Your Mother. Mesmo dentro da própria NBC, a série era comparada com The Office e Parks and Recreation, duas das produções de maior sucesso da história do canal. Assim, mesmo atraindo milhões de espectadores, o programa brigava com pesos pesados das sitcoms.
Outro "problema" enfrentado por 30 Rock era seu humor, tido como inacessível para o grande público — obstáculo que também assombrou outra comédia cult da NBC, Community. A alta frequência de piadas autorreferentes, o surrealismo de algumas tramas e sua insistência no absurdo não conseguia competir com as concorrentes mais digeríveis, algo que, como resposta, fazia Fey dobrar a aposta na loucura.
A metalinguagem empregada na série também é vista como algo que afastou os espectadores casuais. Enquanto a maior parte das comédias da época focava em relações interpessoais mundanas, essas tramas eram frequentemente só um pano de fundo em 30 Rock, que preferia usar os 20 minutos de seus episódios com comentários sobre a indústria, o que acabava sendo lido como uma autoindulgência por quem não compreendia suas críticas.
E, quando fingia ceder à vontade por normalidade, criando tramas românticas para Liz ou Jack, 30 Rock rapidamente puxava o tapete debaixo da audiência com reviravoltas absurdas que davam ponto final a esses relacionamentos da forma mais bizarra possível.
Apesar de tudo isso, 30 Rock, assim como a já citada Community, conseguiu manter uma audiência fiel e, embora seus números fossem medíocres na transmissão original da NBC, eles cresciam exponencialmente quando exibidas em canais a cabo que a licenciaram e quando a Nielsen passou a somar espectadores que gravavam os episódios para vê-los mais tarde.
Os muitos troféus de '30 Rock'
Existem poucas coisas que agradam mais os votantes de grandes premiações de Hollywood do que produções sobre Hollywood e, como essa era a principal força motriz de 30 Rock, não surpreende que a série tenha empilhado troféus ao longo de suas sete temporadas.
Ao todo, foram 16 Emmys (incluindo três de Melhor Série de Comédia), sete vitórias no WGA Awards e seis Globos de Ouro. Somadas a premiações menores, 30 Rock recebeu mais de 100 prêmios em quase 370 indicações, números esmagadores que deixaram para trás até produções queridinhas como Friends, Seinfeld e How I Met Your Mother. Mesmo Modern Family, que teve quatro temporadas a mais que a série de Fey, foi indicada apenas 30 vezes a mais.
Não bastassem os prêmios, a série também influenciou diretamente o tom de comédias extremamente populares lançadas nos anos seguintes à sua estreia. Unbreakable Kimmy Schmidt (também criada por Fey), Veep, Better Off Ted, Broad City e Brooklyn Nine-Nine alcançaram sucesso ao beber da fonte satírica e absurda de 30 Rock.
Mesmo títulos mais pé no chão, como Atlanta e The Studio, talvez não conseguissem a aclamação que tiveram se 30 Rock não tivesse popularizado a mistura de meta-comentário e surrealismo durante sua exibição original.
Vale a pena assistir '30 Rock'?
Seja para ver Liz arrancando os cabelos por causa de Jenna e Tracy, Jack criar uma rivalidade com uma garota pré-adolescente ou apenas rir das desventuras que assolam o TGS, 30 Rock é obrigatória para qualquer fã de comédia. Ágil, ácida e tão absurda quanto deliciosa, a série finalmente está disponível num streaming relevante, pronta para ser devorada por uma nova geração de fãs.
Com sete temporadas, 30 Rock está disponível na Netflix.
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