Julgado Por Algo Que Não Podia Controlar, John Davidson Tem História Contada Em "Eu Juro"
Drama acompanha da adolescência à vida adulta a trajetória de um jovem com síndrome de Tourette em uma época marcada pela falta de informação e pelo preconceito
Exibido no Festival do Rio, o filme "Eu Juro", dirigido por Kirk Jones, narra a trajetória real de John Davidson e sua convivência com a síndrome de Tourette desde a juventude na Escócia até se tornar ativista. Equilibrando dor e humor, o drama retrata o preconceito sofrido por Davidson, cujos tiques involuntários eram vistos como má conduta. Com atuações elogiadas de Scott Ellis Watson e de Robert Aramayo, premiado com o BAFTA, o longa humaniza o protagonista para além de sua condição clínica.
Exibido na mostra Panorama Mundial do Festival do Rio 2026, "Eu Juro" acompanha a história real de John Davidson e sua convivência com a síndrome de Tourette desde a adolescência. Escrito e dirigido por Kirk Jones, o longa tem 120 minutos e passa por diferentes momentos da vida de John, incluindo uma juventude em que seus tiques eram constantemente confundidos com mau comportamento, provocação ou falta de educação.
É um assunto pesado, principalmente quando o filme mostra o preconceito enfrentado por alguém que não tinha controle sobre aquilo que fazia ou dizia. Ainda assim, "Eu Juro" não passa duas horas tentando arrancar lágrimas do público. O humor aparece em alguns momentos e funciona justamente porque faz parte da personalidade de John e das situações vividas por ele. Quando a história precisa ser dolorosa, ela é. Quando existe espaço para rir, o filme também permite isso.
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Uma adolescência cercada por julgamentos
A história começa na Escócia dos anos 1980, quando John Davidson passa a apresentar tiques motores e explosões verbais que nem ele consegue entender. A síndrome de Tourette ainda era pouco conhecida pelo grande público, e essa falta de informação transforma praticamente qualquer ambiente em um problema.
Na escola, em casa ou simplesmente andando pela rua, John precisa conviver com pessoas que interpretam seus movimentos e palavras como algo proposital. A dificuldade não está somente nos próprios tiques, mas na reação de quem está ao redor. Há situações que provocam revolta justamente porque fica evidente que ele tenta explicar o que está acontecendo e, ainda assim, continua sendo julgado.
Scott Ellis Watson interpreta John durante a adolescência, enquanto Robert Aramayo assume o papel na fase adulta. A passagem do tempo permite acompanhar não apenas a maneira como o personagem aprende a conviver com a síndrome, mas também as pessoas que aparecem em sua vida e começam a enxergá-lo além daquilo que chama atenção em um primeiro contato.
Anos depois, o verdadeiro John Davidson se tornaria um importante ativista pela conscientização sobre a síndrome de Tourette no Reino Unido. Sua história ganhou projeção ainda em 1989, com o documentário da BBC "John's Not Mad", e, décadas mais tarde, ele recebeu um MBE pelo trabalho de conscientização desenvolvido ao longo dos anos.
Robert Aramayo impressiona como John Davidson
Robert Aramayo é o grande destaque de "Eu Juro". O ator não possui síndrome de Tourette e passou meses estudando a condição e convivendo com o próprio John Davidson durante a preparação. Esse trabalho aparece principalmente porque sua interpretação vai muito além de reproduzir os tiques.
Aramayo consegue mostrar o cansaço de John, sua raiva diante do preconceito, a vergonha em algumas situações e a dificuldade de viver sabendo que uma palavra ou movimento involuntário pode mudar completamente a reação das pessoas ao seu redor. Ao mesmo tempo, preserva o humor, a gentileza e a personalidade do personagem. Os tiques fazem parte da atuação, mas não viram tudo o que define John.
É um trabalho difícil justamente pelo risco de cair no exagero ou na caricatura, algo que o ator consegue evitar. Sua atuação rendeu o BAFTA de Melhor Ator, e é fácil entender o reconhecimento depois de acompanhar o filme.
Scott Ellis Watson também merece destaque. Sua versão adolescente de John enfrenta outro tipo de dificuldade: ele ainda está tentando entender o que acontece com o próprio corpo. Existe medo e confusão nessa fase, principalmente diante da falta de informação ao seu redor.
Maxine Peake, Shirley Henderson e Peter Mullan completam um elenco que ajuda bastante na parte emocional da história, principalmente nas relações que John constrói conforme cresce.
Som e fotografia ajudam a contar essa história
A fotografia de James Blann acompanha bem as diferentes fases da vida de John. Escolas, casas, ruas e espaços fechados são utilizados para reforçar alguns dos momentos em que o personagem parece não encontrar um lugar onde consiga simplesmente existir sem ser observado ou julgado.
A direção de Kirk Jones costuma manter a câmera próxima dos atores, dando bastante espaço para expressões e reações. Isso funciona especialmente nas situações em que alguém presencia um tique de John pela primeira vez. Muitas vezes, tão importante quanto aquilo que ele faz é observar como a outra pessoa reage.
O som naturalmente possui um papel importante. Silêncios, ruídos e explosões verbais mudam completamente determinadas cenas, e o filme toma cuidado para que os tiques não sejam tratados apenas como uma ferramenta para produzir humor. Quando uma situação engraçada acontece, a graça surge do contexto e das pessoas envolvidas, sem transformar a condição de John em uma piada.
A trilha de Stephen Rennicks acompanha esse equilíbrio e ajuda principalmente nos momentos mais emocionais. Mesmo com duas horas de duração, o ritmo funciona bem e permite acompanhar diferentes fases da vida do protagonista sem fazer a história parecer arrastada.
Uma história que emociona sem transformar John apenas em sua condição
"Eu Juro" funciona muito bem porque existe uma pessoa por trás da síndrome de Tourette durante todo o filme. John se irrita, faz piada, sofre, cria amizades, enfrenta preconceitos e tenta encontrar maneiras de seguir com a própria vida. A condição interfere profundamente em sua trajetória, mas o personagem nunca fica limitado somente a ela.
As atuações ajudam muito nesse resultado. Scott Ellis Watson constrói bem os primeiros anos dessa jornada, enquanto Robert Aramayo entrega uma interpretação impressionante na fase adulta. Há cenas difíceis de assistir pelo preconceito e pela maneira como John é tratado, mas também existem momentos engraçados e outros bastante emocionantes.
"Eu Juro" conta uma história sobre síndrome de Tourette sem transformar suas duas horas em uma aula sobre a condição. A informação aparece junto da trajetória de John Davidson, de seus relacionamentos e das situações que enfrentou. O resultado emociona e também ajuda a entender melhor comportamentos que ainda podem ser julgados antes mesmo que alguém procure saber o que existe por trás deles.
Vídeo: Reprodução/YouTube (@studiocanaluk)
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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