'Ponto sem Retorno' encontra humanidade no fim do mundo de Ridley Scott
Thriller pós-apocalíptico troca a grandiosidade da destruição pelo afeto entre os poucos sobreviventes e encontra em Jacob Elordi um protagonista à altura
Em Ponto sem Retorno, Ridley Scott aborda um cenário pós-apocalíptico devastado por um vírus, adaptando a obra de Peter Heller. Estrelado por Jacob Elordi e Josh Brolin, o filme foca nas relações humanas e na intimidade dos sobreviventes em vez da ação convencional ou do colapso social. Com atuação contida de Elordi e tensão equilibrada, Scott entrega um thriller sensível que prioriza o afeto e a conexão emocional, provando que a humanidade resiste mesmo diante do fim do mundo.
Quando um novo filme de Ridley Scott chega aos cinemas, existe sempre alguma curiosidade em descobrir qual versão do diretor aparecerá desta vez. Aos 88 anos, o britânico construiu uma das filmografias mais irregulares — e também mais impressionantes — do cinema contemporâneo. Passou por clássicos como Alien e Blade Runner e, em outros momentos, entregou trabalhos muito mais questionáveis, como Êxodo, O Conselheiro do Crime, Casa Gucci e Gladiador II. Scott nunca pareceu especialmente interessado em construir uma obra coerente em torno de uma única assinatura. Prefere experimentar gêneros, histórias e escalas diferentes, com resultados que podem ir do extraordinário ao esquecível. Ponto sem Retorno, que estreia nesta quinta-feira, 27, encontra o diretor em um terreno particularmente familiar: o de um mundo em ruínas.
Adaptado do livro homônimo do escritor e jornalista Peter Heller, o longa tem algo de Mad Max e Eu Sou a Lenda ao imaginar uma sociedade devastada por um vírus — tudo indica que se trata da covid-19, embora a doença nunca seja nomeada. As cidades estão abandonadas, a natureza retoma os espaços ocupados pelos humanos e poucos sobreviventes permanecem espalhados pelo planeta. Um deles é Hig (Jacob Elordi), jovem que vive ao lado de seu cachorro em um pequeno abrigo, tentando encontrar comida, combustível e qualquer outro recurso necessário para continuar vivo. Quando a rotina se torna insustentável, ele decide colocar em funcionamento um pequeno avião — uma das poucas máquinas ainda operacionais naquele mundo — e partir em busca de algum lugar onde possa existir uma vida diferente.
A premissa, portanto, parece apontar para um filme sobre sobrevivência. Mas Scott está menos interessado no que aconteceu com o mundo do que naquilo que restou das pessoas.
Um mundo sem pessoas
Essa é a escolha que define Ponto sem Retorno — e também aquilo que pode frustrar quem chega ao filme esperando uma grande distopia de ação. Não há aqui uma investigação sobre as origens da doença, uma explicação detalhada sobre o colapso da sociedade ou uma tentativa de imaginar como seria reconstruir a civilização. O apocalipse é um cenário, uma condição de existência. O verdadeiro assunto está nas relações que ainda conseguem nascer quando praticamente todo o resto desapareceu.
O amor entre Hig e seu cachorro é o ponto de partida. Depois, vem a amizade com o homem que divide aquele refúgio, interpretado por Josh Brolin, e as relações que surgem com personagens vividos por Margaret Qualley e Guy Pearce. São vínculos que poderiam parecer pequenos diante de uma catástrofe global, mas que, para aqueles personagens, significam tudo. O amor é o norte de Ponto sem Retorno, e não a destruição.
Há momentos em que essa escolha pesa a mão. Scott não escapa completamente de um certo sentimentalismo, e algumas passagens chegam perto do piegas que costuma aparecer quando o diretor tenta transformar seus personagens em símbolos de algo maior. Mas o filme funciona justamente porque não abandona essas pessoas quando a ação diminui. E Jacob Elordi é fundamental nisso.
Em uma atuação contida, muito distante da imagem de galã que o ator construiu em parte de sua carreira, ele dá a Hig uma combinação interessante de fragilidade e determinação. O personagem não é um herói tradicional: é alguém tentando sobreviver, carregando o trauma do que perdeu e, ao mesmo tempo, procurando alguma razão para continuar. Elordi entende que o silêncio é tão importante quanto a ação e sustenta boa parte do filme apenas com o rosto e o corpo.
Quando Scott decide acelerar, porém, também mostra que ainda sabe exatamente o que está fazendo. Uma sequência envolvendo Josh Brolin e uns óculos de visão noturna é particularmente eficiente. O mérito não está apenas na execução da ação, mas no fato de que o espectador já está emocionalmente investido naqueles personagens. A ameaça funciona porque existe alguma coisa a perder. Scott entende, como poucos diretores de sua geração, que uma boa sequência de ação não depende apenas de barulho, velocidade ou escala: depende de tensão. É justamente aí que Ponto sem Retorno encontra seu equilíbrio.
O filme poderia ter mais violência, mais discussão sobre ego, sobrevivência e morte, mais interesse pela sociedade que desapareceu e pela que eventualmente poderia surgir em seu lugar. Há material para uma distopia muito mais ambiciosa escondido naquela premissa. Mas Scott deliberadamente escolhe não fazer esse filme. Prefere fazer um sobre pessoas.
Essa escolha dá ao longa uma dimensão quase romântica que não parece, à primeira vista, pertencer ao universo do diretor. Mas talvez seja justamente isso que torne Ponto sem Retorno interessante dentro de sua filmografia. Depois de tantos filmes grandiosos, épicos e espetaculares, Scott encontra força em uma história sobre intimidade. O fim do mundo importa menos do que a possibilidade de ainda existir afeto quando o mundo acaba.
Há algo de emblemático nisso também, na maneira como o diretor trabalha hoje. Scott já não dirige necessariamente como fazia décadas atrás. É conhecido o método recente de comandar parte das filmagens de maneira remota, inclusive acompanhando a montagem enquanto as cenas são produzidas. Seria fácil esperar, portanto, um trabalho automático, feito por alguém que já encontrou sua fórmula e apenas a repete. Ponto sem Retorno não parece isso.
É um filme consistente, com vigor e, sobretudo, vontade de contar uma história. Não é a grande reinvenção de Ridley Scott, tampouco uma nova obra-prima. Mas há uma vitalidade inesperada em sua maneira de olhar para esses personagens e insistir que, quando tudo acaba, talvez o que reste não seja a luta pela sobrevivência, mas sim a necessidade de encontrar alguém por quem valha a pena sobreviver. É um thriller pós-apocalíptico com coração. E, aos 88 anos, talvez seja justamente esse o lugar mais inesperado para encontrar Ridley Scott.
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