'A Noiva', ambiciosa reinterpretação de 'Frankenstein', pede debate e não se importa se não agradar
Com ecos de Romeu e Julieta e com a energia trágica de Thelma & Louise e Bonnie & Clyde, filme de Maggie Gyllenhaal acompanha os dois personagens tentando sobreviver numa sociedade que os rejeita
Chega a ser irônico pensar que A Noiva de Frankenstein, filme de 1935, não é exatamente sobre a personagem que dá título ao longa, mas sim sobre o próprio Monstro: a busca pelo fim da solidão, a forma que ele sobrevive e como força a criação de um ser similar. A noiva só aparece por alguns minutos, brilhantemente interpretada por Elsa Lanchester, e com foco maior na dor masculina, sem nunca entender o que aquela figura é, o que sente, o que pensa. Não dá tempo: pouco após reviver, o laboratório arde em chamas. É justamente isso que o novo filme A Noiva busca corrigir, ampliar e, acima de tudo isso, reinterpretar.
Em cartaz nos cinemas a partir desta quinta, 5, o longa começa de forma inesperada: já morta, Mary Shelley (Jessie Buckley, em jornada dupla) surge em preto e branco falando sobre o processo de criação de Frankenstein. Diz que aquilo era apenas parte do que queria contar — havia mais. Assim como a personagem de 1935, Shelley explica que não pôde ir além do monstro masculino. O motivo? Um tumor cerebral a impediu de continuar. Agora, como Brás Cubas, fala após a morte para desenvolver a outra criatura. Criadora e criatura se conectam na tela, numa costura metalinguística que dá o tom da proposta.
Reconexão
É a partir daí que começa a força deste segundo longa de Maggie Gyllenhaal (A Filha Perdida). Assinando direção e roteiro, a cineasta não está interessada em simplesmente revisitar a história de 90 anos atrás — tampouco em romper completamente com as ideias de Shelley. O filme, que flerta com uma espécie de ópera punk-rock de tintas feministas, entende a Noiva (Buckley, já em terreno de possível nova indicação ao Oscar) como sujeito autônomo. O Monstro (Christian Bale) força sua criação pelas mãos da cientista Euphronius (Annette Bening), mas a trajetória dela ultrapassa essa origem e desejos.
Com ecos de Romeu e Julieta e com a energia trágica de Thelma & Louise e Bonnie & Clyde, a narrativa acompanha os dois personagens tentando sobreviver numa sociedade que os rejeita. A violência os cerca diariamente, mas se manifesta de maneiras distintas: o Monstro recebe socos e chutes de forma virulenta, direta; ela, criada a partir do corpo de uma prostituta, torna-se alvo constante de tentativas de violência sexual. São dois corpos deslocados, mas atravessados por formas diferentes de opressão nesse cotidiano sádico.
Ao longo de suas duas horas, A Noiva se revela um filme ambicioso. Investiga o cinismo social, a violência estrutural contra a mulher, o peso das convenções morais e a dificuldade de inserção de corpos dissidentes. Ao transportar a lógica de Shelley para os Estados Unidos dos anos 1930 — entre Chicago, Nova York e cidades pequenas do interior —, Gyllenhaal constrói uma fuga romântica e política ao mesmo tempo. Os monstros não apenas escapam: amam, desejam, performam suas identidades, tentam se entender.
Direções
Buckley, no auge da carreira após os elogios por Hamnet, entrega uma personagem complexa que vai para além do texto: as nuances de expressão da Noiva entregam o estado de confusão permanente em que vive, assim como os desejos que soam muito pra frente daquele tempo. O texto, complicado pelo jeito que despeja palavras, é tratado com cuidado pela atriz. Bale, outro destaque, é o Frankenstein perfeito. Solitário e sonhador, com nuances de violência, ama o cinema e se imagina como ator de musicais. Algumas das melhores cenas do filme são do Monstro ali, sonhando na sala escura de projeção.
Nem tudo funciona com a mesma força. Em determinado momento, a narrativa se dispersa e perde coesão, com a jornada dos dois monstros entrando num ciclo repetitivo. O filme não chega a se tornar cansativo, mas já abre espaço para dar aquela olhada nas horas.
Além disso, os personagens dos detetives vividos por Peter Sarsgaard e Penélope Cruz acabam subaproveitados, quase mesmo deslocados dentro dessa história tão instigante e potente. Servem apenas para ideias que não chegam a lugar algum e para colocar, na tela, estereótipos pouco inspirados. A sensação é de que o filme seria melhor sem eles.
Ainda assim, o conjunto se sustenta como exercício cinematográfico de experimentação: recontar uma história clássica, deslocar seus eixos e colocar teoria em prática. A presença de ideias associadas a pensadoras como Simone de Beauvoir, na construção social do feminino, e Judith Butler, na noção de performatividade do gênero, não é decorativa; atravessa a própria constituição da personagem e como ela se desenvolve.
Surpreende, inclusive, que um projeto dessa natureza tenha sido viabilizado por um grande estúdio como a Warner Bros. Trata-se de um filme assumidamente divisivo, politizado e pouco interessado em agradar. Mais do que buscar consenso, provoca. Dialoga com a ideia de que o cinema pode — e talvez deva — assumir posições, em vez de fingir neutralidade, indo contra tudo o que o cineasta Wim Wenders falou recentemente no Festival de Berlim, quando disse que "cinema é um 'contrapeso' à política". Aqui, Gyllenhaal ri da cara dele.
É uma obra que pede debate, pede para ser pensada. E tudo indica que, assim como aconteceu com Pecadores no ano passado, essa conversa está longe de terminar. Pode muito bem atravessar temporadas de premiações e chegar com força ao Oscar de 2027.