'A gente precisa da dúvida', diz diretor de filme que mistura IA e trauma das enchentes do RS
Em 'Futuro Futuro', cineasta gaúcho Davi Pretto aborda a inteligência artificial, a ansiedade climática e as enchentes no Rio Grande do Sul para questionar a passividade diante das crises do presente
Davi Pretto não queria fazer um filme apenas sobre inteligência artificial. Queria fazer um filme sobre a angústia de viver num mundo que parece estar acabando e a IA, segundo ele, é apenas o sintoma mais recente dessa sensação. Mas o destino, ou melhor, uma enchente histórica, decidiu que o diretor gaúcho teria que atravessar a própria tecnologia que criticava para conseguir terminar sua obra. O resultado é Futuro Futuro, ficção científica de baixíssimo orçamento que estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 23, e que já chega precedida por um Troféu Candango de Melhor Longa-Metragem no Festival de Brasília.
A história é simples de contar e complexa de assistir: um homem sem memória chamado K é acolhido por um homem solitário na parte pobre de uma cidade brasileira tomada pela chuva. Intrigado pelo lado rico da metrópole, que enxerga apenas no horizonte, K passa a sonhar todas as noites com um casal que vive cercado de luxo e boemia. É nesses sonhos que a inteligência artificial entra. Não exatamente como recurso estético gratuito, mas como ferramenta que Pretto precisou aprender a usar contra a própria vontade, depois que a enchente de maio de 2024 destruiu locações, interrompeu as filmagens por três meses e inviabilizou o plano original de registrar os condomínios de luxo de Porto Alegre.
Para mim foi uma investigação crítica, que tentei fazer da forma mais amadora possível, usando o máximo de uso gratuito que eu podia. O que mais me moveu foi pensar como olhar para essas imagens esteticamente e criticamente. É algo que o espectador do filme pode fazer também: comparar as imagens que a gente filmou com essas outras, entender o que elas significam, a quem servem esteticamente. Toda tecnologia não é neutra, ela é ideológica. Esconde a ideologia de quem a criou. Por isso era importante ter feito essa investigação. Acho que mais realizadores deveriam investigar o que está acontecendo com a IA, porque, senão, vamos ser patrulhados por ela.
Esse processo mudou a forma como você entende a IA?
Acho que é uma coisa extremamente danosa, inclusive neurologicamente. Durante todo o processo de pesquisa que fiz para entender essas plataformas, não só mexendo com elas, mas lendo sobre o assunto, fiquei muito doente. Ela tem uma essência muito próxima do "jogo do tigrinho": destrói a cabeça da gente, tem algo viciante. Tanto que já existe um termo, AI Slop, para essa ideia de putrefazer a cabeça de tanto lixo de IA que consumimos. E isso vale também para quem mexe com IA para criar, porque você está ali reagindo a essas imagens o tempo todo.
É uma coisa muito perigosa, mas acho que o gesto de ter mexido com isso foi de levantar debate, de trazer isso à tona para conversar. Estamos falando de um País que ainda não regulou o VOD [video on demand, o streaming], que não regula as redes sociais há 20, 30 anos, que também não regulou as bets a tempo. Uma tecnologia que vai revolucionar o mercado de trabalho, e ainda não conseguimos regulamentar nem as redes sociais. Esse debate precisa ser melhor qualificado, precisamos trazer quem entenda do assunto, debater olho no olho. Não é só dizer "sou contra" ou "sou a favor". Isso é muito barato. A gente está vivendo uma tirania das certezas imediatas, e precisa da dúvida, da discussão. É isso que o filme propõe. Muita gente reclama que não dá para entender nada — mas o filme está propondo questões, ambiguidade, e acho que a gente precisa urgentemente disso. Temos a ilusão de que temos poder de agência sobre nossa vida, e essa ilusão nos levou à nossa tragédia. Precisamos olhar de frente para nossa passividade: que passividade é essa que aceita uma tecnologia que promete fazer tudo por nós? É um desejo humano muito estranho, esse de criar algo que sabe o que a gente gosta, que inventa imagem e música que supostamente queremos ver e ouvir. A gente já aceitou o mundo do algoritmo. Aceitar o mundo da IA não está muito longe disso.
O filme também aborda as enchentes no Rio Grande do Sul. Como isso entrou no processo criativo?
Foi uma coincidência trágica muito violenta. Já tinha acontecido uma enchente em setembro de 2023, quando estávamos terminando o processo de locações e montagem do elenco, antes de filmar. Aquilo já mexeu muito com a gente e acabou entrando no roteiro. Em 2024, quando estávamos filmando, aconteceu outra enchente, aquela de proporções apocalípticas que todo mundo viu. Tivemos a filmagem interrompida no penúltimo dia e ficamos três meses parados enquanto a cidade estava debaixo d'água.
Além de termos perdido locações que ainda íamos filmar, o que mais mexeu com a gente foi conviver com esse grande trauma coletivo. Assim como a Covid, se você não tinha sido afetado diretamente, conhecia alguém que tinha perdido tudo. Foi um nível muito brutal, que abalou coletivamente o Rio Grande do Sul e Porto Alegre, onde estávamos. Em algum momento achamos que não íamos voltar a filmar, porque o cinema se torna muito pequeno diante de uma catástrofe, e talvez não tivéssemos dinheiro nem recursos para continuar. Mas, graças à equipe, que quis e ajudou o filme a acontecer apesar dos poucos recursos pós-tragédia, conseguimos colocá-lo de pé. Era pensar como expressar esse sentimento de trauma coletivo, um trauma que a gente nem consegue nomear direito, ligado de novo a essa sensação de irrelevância diante de algo muito grande. E é também o abandono de novo: as comportas da prefeitura de Porto Alegre não tinham manutenção adequada havia anos, e falharam durante a enchente. Partes da cidade muito distantes do rio ficaram com dois metros d'água. Tem muita coisa aí para debater, inclusive sobre como decidimos o futuro das nossas cidades.
O filme fala de várias crises ao mesmo tempo — tecnológica, social, ambiental. Alguma te preocupa mais hoje?
Acho que elas estão todas interligadas. Tem duas maneiras de ver isso: uma é que estão sobrepostas — crise climática, urbana, social, política, tecnológica, de imagem, identitária — mas na verdade estão todas conectadas, e uma afeta a outra. O avanço tecnológico custa o planeta, causa crise climática, que causa crise neurológica, que causa crise de saúde. A crise climática causa crise urbana. Acho que enxergar essas conexões é a melhor forma de pensar em como lidar com tudo isso e tentar encontrar algum tipo de saída, porque por muito tempo se discutiu cada coisa separadamente. E, por muito tempo também, se acreditou que a tecnologia era imaterial — que os dados estavam "nas nuvens", como se aquilo não fosse nada concreto. Mas são data centers gigantescos, construídos para armazenar os filmes da Netflix, as fotos do Google, todas as informações da internet. Isso existe em algum lugar, consome energia, destrói comunidades que moram ao lado, consome toda a água. São relações importantes de evidenciar, e infelizmente isso não tem espaço no debate cotidiano — de novo, essa tirania das certezas, em que só importa a certeza imediata. Como trazer algo que gera dúvida, se a dúvida precisa ser negada?
O que você espera agora, com o filme chegando aos cinemas?
As pessoas têm reagido muito à estranheza do objeto fílmico que o filme é. Muitas vezes saio das sessões e vejo pessoas saindo sem palavras, sem entender bem o que viram, desconcertadas, sem saber se gostaram ou não. Não me importa se gostam ou não gostam do filme. Não é isso que me interessa. O que interessa é que ele gere ruído e discussão. Se as pessoas conseguirem sair com dúvidas, pensando em coisas, nem que essa dúvida faça alguém ir para o bar com um amigo em vez de voltar para casa e ligar uma série da Netflix, já está ótimo. A gente precisa da dúvida, como falei antes, e espero que o filme seja um gerador disso, de ambiguidade, de discussão, de ruído. Precisamos de ruído no nosso cotidiano para romper um pouco com essa tirania das certezas. Espero que essa estranheza seja notada, identificada, e que as pessoas reajam a ela.
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