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'A Maravilhosa Árvore Encantada' tenta tirar crianças das telas, mas falta ousadia

Estrelado por Andrew Garfield e Claire Foy, longa adaptado dos livros de Enid Blyton aposta em mensagens nobres e pouca imaginação

12 set 2026 - 10h12
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Resumo
Adaptação dos livros de Enid Blyton com Andrew Garfield e Claire Foy, "A Maravilhosa Árvore Encantada" usa a fantasia para afastar crianças das telas e reconectá-las à família. Embora funcione bem para os pequenos graças ao visual colorido e criaturas excêntricas, o longa peca pela falta de ousadia. Ao apostar em fórmulas previsíveis e sem riscos, a obra ironicamente limita a imaginação que pretendia estimular, entregando uma aventura domesticada e superficial sobre o vício tecnológico.

Tirar as crianças da tela e colocá-las de volta no mundo real virou, de repente, tema recorrente do cinema deste ano. Depois de Toy Story 5 falar sobre isso através de um tablet e a crise existencial dos brinquedos, chega aos cinemas A Maravilhosa Árvore Encantada, adaptação dos clássicos livros infantis de Enid Blyton, que tenta a mesma receita: usar a fantasia para reconectar uma família moderna, viciada em telas, ao próprio entorno.

Dirigido por Ben Gregor, cineasta britânico muito conhecido no meio da publicidade, o filme acompanha uma família que deixa a cidade e se muda para o campo em busca de um recomeço — e, principalmente, de uma maneira de voltar a estar junta. Longe da internet e dos dispositivos eletrônicos, as crianças começam a explorar os arredores da nova casa até descobrirem uma árvore mágica que funciona como passagem para um mundo fantástico, povoado por criaturas excêntricas e aventuras.

É uma premissa que parece feita sob medida para o momento atual. E o filme tem uma boa compreensão de seu público: há cores, criaturas estranhas, situações absurdas e um senso de aventura suficientemente acessível para crianças pequenas. Andrew Garfield e Claire Foy, como os pais, também encontram uma leveza simpática para sustentar o núcleo familiar. O problema é que um filme sobre recuperar a imaginação poderia, ele próprio, ser muito mais imaginativo.

'A Maravilhosa Árvore Encantada' usa um mundo de fantasia para falar sobre desconexão
'A Maravilhosa Árvore Encantada' usa um mundo de fantasia para falar sobre desconexão
Foto: Diamond Films/Divulgação / Estadão

Uma fantasia domesticada

A intenção de A Maravilhosa Árvore Encantada é genuinamente boa. Em vez de simplesmente demonizar celulares e tablets, o longa tenta mostrar o que pode ser redescoberto quando as crianças deixam as telas de lado: o contato com a natureza, a convivência familiar, a brincadeira e, sobretudo, a capacidade de imaginar.

Só que a execução contradiz parte dessa proposta. Mesmo tendo à disposição uma árvore mágica capaz de transportar seus personagens para outros mundos, o filme raramente parece disposto a sair do lugar conhecido.

Os cenários são coloridos, os personagens mágicos são suficientemente excêntricos para divertir e as aventuras têm energia. Falta, porém, uma sensação de descoberta. Quase tudo chega à tela já domesticado, organizado para não oferecer grandes riscos, como se a fantasia tivesse sido cuidadosamente aparada antes de chegar ao espectador.

'A Maravilhosa Árvore Encantada' é simpático, mas falta abraçar mais o imprevisível
'A Maravilhosa Árvore Encantada' é simpático, mas falta abraçar mais o imprevisível
Foto: Diamond Films/Divulgação / Estadão

É justamente aí que A Maravilhosa Árvore Encantada poderia ser mais interessante. Um universo fantástico não precisa apenas ser bonito ou engraçado; ele pode ser estranho, imprevisível, até um pouco assustador. Aqui, porém, a imaginação parece funcionar dentro de limites bastante seguros.

Uma história que já conhecemos

Essa falta de ousadia também aparece na estrutura. A família chega a um novo lugar, as crianças encontram um mundo mágico, conhecem criaturas diferentes, vivem aventuras e, no processo, aprendem algo sobre si mesmas e sobre a importância de estarem juntas.

É uma fórmula que o cinema infantil conhece muito bem. E a própria tradição de Enid Blyton já nasce desse imaginário. Os livros que inspiram o filme dialogam com obras como Peter Pan, de J.M. Barrie, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e O Mágico de Oz, de L. Frank Baum — histórias em que a passagem para outro mundo serve para romper com as regras do cotidiano e permitir que a imaginação tome conta.

O problema não está, portanto, em usar elementos já conhecidos. Toda fantasia nasce de alguma tradição. A questão é o que se faz com eles.

Em A Maravilhosa Árvore Encantada, pouco é reinventado. O mundo mágico funciona mais como cenário para uma história familiar do que como um lugar capaz de transformar radicalmente a narrativa. As criaturas são simpáticas, as situações são divertidas e a mensagem é clara, mas dificilmente existe aquela sensação de "o que será que vem agora?" que deveria ser fundamental em uma aventura desse tipo.

Até a crítica às telas permanece na superfície. O filme fala sobre crianças excessivamente conectadas, perguntando sobre Wi-Fi o tempo todo, mas prefere uma oposição bastante confortável: tecnologia de um lado, natureza e família do outro. Não há muita ambiguidade, contradição ou humor para complicar essa ideia.

'A Maravilhosa Árvore Encantada' mostra uma família tentando viver em um novo ambiente
'A Maravilhosa Árvore Encantada' mostra uma família tentando viver em um novo ambiente
Foto: Diamond Films/Divulgação / Estadão

Para os pequenos

Isso não significa que A Maravilhosa Árvore Encantada seja um filme desagradável. Pelo contrário. Há um cuidado visual evidente, o elenco funciona bem e o universo criado a partir dos livros de Blyton tem elementos suficientes para prender a atenção dos espectadores mais jovens.

Para crianças pequenas, especialmente aquelas que ainda estão descobrindo esse tipo de fantasia, a aventura pode cumprir muito bem sua função. O filme apresenta criaturas curiosas, mundos diferentes e uma defesa bastante direta da imaginação e do convívio familiar.

Para quem já percorreu esse caminho algumas vezes, porém, a viagem é menos estimulante. A ironia é que um filme criado para lembrar às crianças que existe um mundo muito maior do que aquele que cabe em uma tela acaba preso a uma narrativa pequena demais para o tamanho de sua própria fantasia.

No fim, A Maravilhosa Árvore Encantada encontra seu maior problema justamente naquilo que deveria ser sua maior força. A árvore leva os personagens para um mundo mágico, mas o filme raramente parece disposto a seguir por caminhos realmente desconhecidos. A aventura existe. A imaginação também. Só faltou deixar que elas fossem um pouco mais longe.

Estadão
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