'A Maravilhosa Árvore Encantada' tenta tirar crianças das telas, mas falta ousadia
Estrelado por Andrew Garfield e Claire Foy, longa adaptado dos livros de Enid Blyton aposta em mensagens nobres e pouca imaginação
Adaptação dos livros de Enid Blyton com Andrew Garfield e Claire Foy, "A Maravilhosa Árvore Encantada" usa a fantasia para afastar crianças das telas e reconectá-las à família. Embora funcione bem para os pequenos graças ao visual colorido e criaturas excêntricas, o longa peca pela falta de ousadia. Ao apostar em fórmulas previsíveis e sem riscos, a obra ironicamente limita a imaginação que pretendia estimular, entregando uma aventura domesticada e superficial sobre o vício tecnológico.
Tirar as crianças da tela e colocá-las de volta no mundo real virou, de repente, tema recorrente do cinema deste ano. Depois de Toy Story 5 falar sobre isso através de um tablet e a crise existencial dos brinquedos, chega aos cinemas A Maravilhosa Árvore Encantada, adaptação dos clássicos livros infantis de Enid Blyton, que tenta a mesma receita: usar a fantasia para reconectar uma família moderna, viciada em telas, ao próprio entorno.
Dirigido por Ben Gregor, cineasta britânico muito conhecido no meio da publicidade, o filme acompanha uma família que deixa a cidade e se muda para o campo em busca de um recomeço — e, principalmente, de uma maneira de voltar a estar junta. Longe da internet e dos dispositivos eletrônicos, as crianças começam a explorar os arredores da nova casa até descobrirem uma árvore mágica que funciona como passagem para um mundo fantástico, povoado por criaturas excêntricas e aventuras.
É uma premissa que parece feita sob medida para o momento atual. E o filme tem uma boa compreensão de seu público: há cores, criaturas estranhas, situações absurdas e um senso de aventura suficientemente acessível para crianças pequenas. Andrew Garfield e Claire Foy, como os pais, também encontram uma leveza simpática para sustentar o núcleo familiar. O problema é que um filme sobre recuperar a imaginação poderia, ele próprio, ser muito mais imaginativo.
Uma fantasia domesticada
A intenção de A Maravilhosa Árvore Encantada é genuinamente boa. Em vez de simplesmente demonizar celulares e tablets, o longa tenta mostrar o que pode ser redescoberto quando as crianças deixam as telas de lado: o contato com a natureza, a convivência familiar, a brincadeira e, sobretudo, a capacidade de imaginar.
Só que a execução contradiz parte dessa proposta. Mesmo tendo à disposição uma árvore mágica capaz de transportar seus personagens para outros mundos, o filme raramente parece disposto a sair do lugar conhecido.
Os cenários são coloridos, os personagens mágicos são suficientemente excêntricos para divertir e as aventuras têm energia. Falta, porém, uma sensação de descoberta. Quase tudo chega à tela já domesticado, organizado para não oferecer grandes riscos, como se a fantasia tivesse sido cuidadosamente aparada antes de chegar ao espectador.
É justamente aí que A Maravilhosa Árvore Encantada poderia ser mais interessante. Um universo fantástico não precisa apenas ser bonito ou engraçado; ele pode ser estranho, imprevisível, até um pouco assustador. Aqui, porém, a imaginação parece funcionar dentro de limites bastante seguros.
Uma história que já conhecemos
Essa falta de ousadia também aparece na estrutura. A família chega a um novo lugar, as crianças encontram um mundo mágico, conhecem criaturas diferentes, vivem aventuras e, no processo, aprendem algo sobre si mesmas e sobre a importância de estarem juntas.
É uma fórmula que o cinema infantil conhece muito bem. E a própria tradição de Enid Blyton já nasce desse imaginário. Os livros que inspiram o filme dialogam com obras como Peter Pan, de J.M. Barrie, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e O Mágico de Oz, de L. Frank Baum — histórias em que a passagem para outro mundo serve para romper com as regras do cotidiano e permitir que a imaginação tome conta.
O problema não está, portanto, em usar elementos já conhecidos. Toda fantasia nasce de alguma tradição. A questão é o que se faz com eles.
Em A Maravilhosa Árvore Encantada, pouco é reinventado. O mundo mágico funciona mais como cenário para uma história familiar do que como um lugar capaz de transformar radicalmente a narrativa. As criaturas são simpáticas, as situações são divertidas e a mensagem é clara, mas dificilmente existe aquela sensação de "o que será que vem agora?" que deveria ser fundamental em uma aventura desse tipo.
Até a crítica às telas permanece na superfície. O filme fala sobre crianças excessivamente conectadas, perguntando sobre Wi-Fi o tempo todo, mas prefere uma oposição bastante confortável: tecnologia de um lado, natureza e família do outro. Não há muita ambiguidade, contradição ou humor para complicar essa ideia.
Para os pequenos
Isso não significa que A Maravilhosa Árvore Encantada seja um filme desagradável. Pelo contrário. Há um cuidado visual evidente, o elenco funciona bem e o universo criado a partir dos livros de Blyton tem elementos suficientes para prender a atenção dos espectadores mais jovens.
Para crianças pequenas, especialmente aquelas que ainda estão descobrindo esse tipo de fantasia, a aventura pode cumprir muito bem sua função. O filme apresenta criaturas curiosas, mundos diferentes e uma defesa bastante direta da imaginação e do convívio familiar.
Para quem já percorreu esse caminho algumas vezes, porém, a viagem é menos estimulante. A ironia é que um filme criado para lembrar às crianças que existe um mundo muito maior do que aquele que cabe em uma tela acaba preso a uma narrativa pequena demais para o tamanho de sua própria fantasia.
No fim, A Maravilhosa Árvore Encantada encontra seu maior problema justamente naquilo que deveria ser sua maior força. A árvore leva os personagens para um mundo mágico, mas o filme raramente parece disposto a seguir por caminhos realmente desconhecidos. A aventura existe. A imaginação também. Só faltou deixar que elas fossem um pouco mais longe.
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