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'Eu & Você na Toscana' resgata tradição das comédias românticas de médio orçamento

Protagonizado por Halle Bailey e Regé-Jean Page, filme chega aos cinemas brasileiros na véspera do Dia dos Namorados

11 jun 2026 - 09h27
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Existe uma espécie de filme que Hollywood parece ter esquecido como fazer para os cinemas. São as produções de orçamento médio, sem super-heróis, sem universos compartilhados e sem a necessidade de arrecadar um bilhão de dólares para justificar sua existência. Filmes feitos simplesmente para entreter e emocionar o espectador por algumas horas. Durante os anos 90, as comédias românticas foram especialistas nessa missão — e algumas até foram sucesso de público. Mas, conforme os estúdios passaram a apostar cada vez mais em franquias e propriedades intelectuais, o gênero encontrou refúgio no streaming, onde hoje sobrevive com mais frequência do que nas salas de exibição.

'Eu & Você na Toscana' resgata tradição das comédias românticas de médio orçamento (Divulgação)
'Eu & Você na Toscana' resgata tradição das comédias românticas de médio orçamento (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

É justamente por isso que Eu & Você na Toscana, que chega aos cinemas a partir desta quinta-feira (11), surge como uma pequena raridade. Se tivesse sido lançado diretamente em uma plataforma digital, provavelmente passaria o fim de semana do Dia dos Namorados figurando entre os filmes mais assistidos. Mas há algo de especialmente apropriado em vê-lo na tela grande. Afinal, poucas coisas combinam mais com uma sessão a dois do que uma história de amor ambientada entre vinhedos, vilarejos históricos e algumas das paisagens mais bonitas da Itália.

A trama não esconde sua natureza desde os primeiros minutos. Anna (Halle Bailey, A Pequena Sereia) é uma jovem que abandonou o sonho de se tornar chef de cozinha e vive tentando se reencontrar em Nova York. Quando perde o emprego e o lugar onde mora, toma uma decisão impulsiva: viajar para uma vila na Toscana pertencente a Matteo (Lorenzo De Moor, Doce Entardecer na Toscana), um homem que mal conhece. A situação já é absurda o suficiente até a chegada inesperada da mãe dele, obrigando Anna a fingir que é sua noiva. Como manda a tradição do gênero, a mentira fica ainda mais complicada quando Michael (Regé-Jean Page, Bridgerton), o primo charmoso e reservado, entra em cena.

Nada é particularmente original — e tudo bem. A diretora Kat Coiro, conhecida por seu trabalho em She-Hulk, praticamente desaparece atrás do projeto. Sua direção é funcional e pouco autoral, enquanto o roteiro de Ryan Engle segue cada etapa da cartilha da comédia romântica clássica sem demonstrar grande interesse em reinventá-la. Existem momentos em que a produção parece até excessivamente segura, evitando qualquer risco narrativo ou visual. Mas o curioso é que isso raramente se transforma em um problema.

Porque Eu & Você na Toscana entende perfeitamente aquilo que tantas produções recentes esqueceram: o público desse gênero não procura necessariamente inovação. Procura personagens agradáveis — gostosos e bonitos —, romance inspirador, situações divertidas e, acima de tudo, química entre os protagonistas.

Ok, a química entre Halle Bailey e Regé-Jean Page poderia ser maior, mas a atriz funciona muito bem quando está sozinha, principalmente graças ao seu carisma natural. Já o astro, outrora cotado para viver James Bond na próxima fase dos filmes de 007, está aquém dela — mas algumas pessoas irão suspirar ao vê-lo sem camisa, afinal, essa é a intenção. De qualquer forma, a dupla sustenta o filme.

Existe uma leveza genuína na interação dos dois que faz o espectador comprar a relação e o affair sem esforço. Mais interessante ainda é como essa relação existe sem precisar ser constantemente explicada ou justificada. O longa coloca um casal negro no centro de uma grande fantasia romântica de estúdio e simplesmente permite que eles sejam apaixonantes. Pode parecer pouco, mas não é.

Durante décadas, o gênero foi dominado por protagonistas brancas vivendo histórias que se tornaram referência cultural. Quantas jovens negras tiveram a oportunidade de se enxergar ocupando esse mesmo espaço de fantasia romântica? Quantas puderam se imaginar protagonistas de um romance ambientado em cenários paradisíacos, cercadas por beleza, desejo e possibilidades?

Eu & Você na Toscana não pretende revolucionar a representatividade no cinema, tampouco deseja transformar sua história em manifesto. Mas sua existência possui valor justamente por tratar essa representação como algo natural. O amor negro não aparece como exceção; aparece como protagonista.

Outro acerto está na forma como o filme transforma a Toscana em mais do que simples cartão-postal. As locações reais dão autenticidade à narrativa e ajudam a vender a ideia de que Anna está vivendo uma experiência transformadora. O filme flerta discretamente com obras como Sob o Sol da Toscana e Comer, Rezar, Amar, entendendo que a viagem não é apenas geográfica, mas emocional. Ao reencontrar sua paixão pela culinária e confrontar o luto que carrega pela perda da mãe, Anna descobre algo que vai além de um novo amor: ela redescobre a si mesma.

A comida, inclusive, ganha importância inesperada na narrativa. Não como mero elemento decorativo, mas como linguagem afetiva. Da mesma forma, a música surge em momentos pontuais para reforçar a vulnerabilidade dos personagens, contribuindo para a atmosfera calorosa que o filme busca construir.

Claro, ninguém deveria cometer o erro de comparar Eu & Você na Toscana a clássicos como O Casamento do Meu Melhor Amigo ou Quatro Casamentos e um Funeral. O filme está longe desse patamar e parece plenamente consciente disso. Sua ambição é menor, mais modesta e até mais honesta. Ele não quer reinventar a comédia romântica, quer apenas lembrar por que tantas pessoas se apaixonaram por ela. E consegue.

Por fim, a decisão de lançá-lo no Brasil às vésperas do Dia dos Namorados pode ser certeira. Em um mercado dominado por franquias, sequências e animações, ainda continua existindo espaço para histórias que não pedem nada além de uma cadeira confortável, um balde de pipoca e alguém para segurar sua mão durante a sessão. Tudo bem, talvez você prefira assistir a um filme assim no conforto de sua casa, mas ter a opção de um bom e leve romance nos cinemas também é necessário de vez em quando.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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