'Eu & Você na Toscana' resgata tradição das comédias românticas de médio orçamento
Protagonizado por Halle Bailey e Regé-Jean Page, filme chega aos cinemas brasileiros na véspera do Dia dos Namorados
Existe uma espécie de filme que Hollywood parece ter esquecido como fazer para os cinemas. São as produções de orçamento médio, sem super-heróis, sem universos compartilhados e sem a necessidade de arrecadar um bilhão de dólares para justificar sua existência. Filmes feitos simplesmente para entreter e emocionar o espectador por algumas horas. Durante os anos 90, as comédias românticas foram especialistas nessa missão — e algumas até foram sucesso de público. Mas, conforme os estúdios passaram a apostar cada vez mais em franquias e propriedades intelectuais, o gênero encontrou refúgio no streaming, onde hoje sobrevive com mais frequência do que nas salas de exibição.
É justamente por isso que Eu & Você na Toscana, que chega aos cinemas a partir desta quinta-feira (11), surge como uma pequena raridade. Se tivesse sido lançado diretamente em uma plataforma digital, provavelmente passaria o fim de semana do Dia dos Namorados figurando entre os filmes mais assistidos. Mas há algo de especialmente apropriado em vê-lo na tela grande. Afinal, poucas coisas combinam mais com uma sessão a dois do que uma história de amor ambientada entre vinhedos, vilarejos históricos e algumas das paisagens mais bonitas da Itália.
A trama não esconde sua natureza desde os primeiros minutos. Anna (Halle Bailey, A Pequena Sereia) é uma jovem que abandonou o sonho de se tornar chef de cozinha e vive tentando se reencontrar em Nova York. Quando perde o emprego e o lugar onde mora, toma uma decisão impulsiva: viajar para uma vila na Toscana pertencente a Matteo (Lorenzo De Moor, Doce Entardecer na Toscana), um homem que mal conhece. A situação já é absurda o suficiente até a chegada inesperada da mãe dele, obrigando Anna a fingir que é sua noiva. Como manda a tradição do gênero, a mentira fica ainda mais complicada quando Michael (Regé-Jean Page, Bridgerton), o primo charmoso e reservado, entra em cena.
Nada é particularmente original — e tudo bem. A diretora Kat Coiro, conhecida por seu trabalho em She-Hulk, praticamente desaparece atrás do projeto. Sua direção é funcional e pouco autoral, enquanto o roteiro de Ryan Engle segue cada etapa da cartilha da comédia romântica clássica sem demonstrar grande interesse em reinventá-la. Existem momentos em que a produção parece até excessivamente segura, evitando qualquer risco narrativo ou visual. Mas o curioso é que isso raramente se transforma em um problema.
Porque Eu & Você na Toscana entende perfeitamente aquilo que tantas produções recentes esqueceram: o público desse gênero não procura necessariamente inovação. Procura personagens agradáveis — gostosos e bonitos —, romance inspirador, situações divertidas e, acima de tudo, química entre os protagonistas.
Ok, a química entre Halle Bailey e Regé-Jean Page poderia ser maior, mas a atriz funciona muito bem quando está sozinha, principalmente graças ao seu carisma natural. Já o astro, outrora cotado para viver James Bond na próxima fase dos filmes de 007, está aquém dela — mas algumas pessoas irão suspirar ao vê-lo sem camisa, afinal, essa é a intenção. De qualquer forma, a dupla sustenta o filme.
Existe uma leveza genuína na interação dos dois que faz o espectador comprar a relação e o affair sem esforço. Mais interessante ainda é como essa relação existe sem precisar ser constantemente explicada ou justificada. O longa coloca um casal negro no centro de uma grande fantasia romântica de estúdio e simplesmente permite que eles sejam apaixonantes. Pode parecer pouco, mas não é.
Durante décadas, o gênero foi dominado por protagonistas brancas vivendo histórias que se tornaram referência cultural. Quantas jovens negras tiveram a oportunidade de se enxergar ocupando esse mesmo espaço de fantasia romântica? Quantas puderam se imaginar protagonistas de um romance ambientado em cenários paradisíacos, cercadas por beleza, desejo e possibilidades?
Eu & Você na Toscana não pretende revolucionar a representatividade no cinema, tampouco deseja transformar sua história em manifesto. Mas sua existência possui valor justamente por tratar essa representação como algo natural. O amor negro não aparece como exceção; aparece como protagonista.
Outro acerto está na forma como o filme transforma a Toscana em mais do que simples cartão-postal. As locações reais dão autenticidade à narrativa e ajudam a vender a ideia de que Anna está vivendo uma experiência transformadora. O filme flerta discretamente com obras como Sob o Sol da Toscana e Comer, Rezar, Amar, entendendo que a viagem não é apenas geográfica, mas emocional. Ao reencontrar sua paixão pela culinária e confrontar o luto que carrega pela perda da mãe, Anna descobre algo que vai além de um novo amor: ela redescobre a si mesma.
A comida, inclusive, ganha importância inesperada na narrativa. Não como mero elemento decorativo, mas como linguagem afetiva. Da mesma forma, a música surge em momentos pontuais para reforçar a vulnerabilidade dos personagens, contribuindo para a atmosfera calorosa que o filme busca construir.
Claro, ninguém deveria cometer o erro de comparar Eu & Você na Toscana a clássicos como O Casamento do Meu Melhor Amigo ou Quatro Casamentos e um Funeral. O filme está longe desse patamar e parece plenamente consciente disso. Sua ambição é menor, mais modesta e até mais honesta. Ele não quer reinventar a comédia romântica, quer apenas lembrar por que tantas pessoas se apaixonaram por ela. E consegue.
Por fim, a decisão de lançá-lo no Brasil às vésperas do Dia dos Namorados pode ser certeira. Em um mercado dominado por franquias, sequências e animações, ainda continua existindo espaço para histórias que não pedem nada além de uma cadeira confortável, um balde de pipoca e alguém para segurar sua mão durante a sessão. Tudo bem, talvez você prefira assistir a um filme assim no conforto de sua casa, mas ter a opção de um bom e leve romance nos cinemas também é necessário de vez em quando.
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