E Se Você Pudesse Escolher Quando Morrer? "Cartório das Almas" Explora o Peso de Viver Para Sempre
Fantasia nacional acompanha uma mulher de 126 anos que trabalha registrando pedidos de morte, mas não pode decidir o próprio destino; produção estreia em 29 de outubro
Dirigido por Leo Bello, o filme "Cartório das Almas" retrata uma sociedade em que o envelhecimento parou e a morte se tornou uma escolha individual. Filmado em Brasília, o drama de fantasia acompanha Laura, funcionária impedida por contrato de encerrar a própria vida enquanto atende quem deseja partir. Com destaque para a fotografia premiada e o visual modernista, a produção propõe reflexões criativas sobre a imortalidade, embora deixe algumas regras de seu universo sem explicações claras.
O longa "Cartório das Almas" chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro de 2026 com uma proposta bastante curiosa. Dirigido e roteirizado por Leo Bello, o longa apresenta uma sociedade em que as pessoas pararam de envelhecer e podem viver por tempo indeterminado. Nesse mundo, a morte deixou de ser algo inevitável e passou a depender de uma decisão individual.
Com 77 minutos de duração, o filme mistura fantasia e drama para abordar a imortalidade de uma maneira diferente. A possibilidade de viver para sempre, que normalmente seria vista como algo positivo, passa a representar um problema para pessoas que já não encontram motivos para continuar existindo.
A ideia é interessante e abre espaço para diversas reflexões. O filme também chama atenção pela fotografia e pela escolha dos cenários, principalmente por utilizar a arquitetura de Brasília para representar esse universo. Entretanto, algumas informações são apresentadas de maneira pouco clara, o que pode dificultar o entendimento de determinadas situações.
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Um cartório onde as pessoas escolhem quando morrer
A história acompanha Laura, interpretada por Gabriela Correa, uma mulher de 126 anos que começa a trabalhar no Cartório das Almas. A instituição recebe pessoas que decidiram encerrar a própria existência, registrando os motivos que levaram cada uma a tomar essa decisão.
O trabalho de Laura consiste em ouvir os relatos e formalizar os pedidos, sem interferir na escolha dos clientes. Cada pessoa chega ao cartório com suas próprias razões para desistir da imortalidade, apresentando diferentes perspectivas sobre o cansaço de viver durante tanto tempo.
Existe uma particularidade importante envolvendo a protagonista. Embora trabalhe em um lugar onde outras pessoas podem escolher morrer, Laura está impedida por contrato de tomar a mesma decisão.
Essa situação torna a personagem interessante, principalmente porque ela precisa conviver diariamente com pessoas que possuem uma liberdade que lhe foi retirada.
Outro detalhe curioso é o destino daqueles que decidem partir. Após a passagem, eles deixam a forma humana e se transformam em pássaros, que passam a fazer parte da paisagem e da própria identidade visual do filme.
O conceito é criativo e permite abordar a morte sem seguir os caminhos mais comuns do gênero. Ao mesmo tempo, algumas regras desse universo poderiam ser explicadas com mais clareza, especialmente aquelas relacionadas ao funcionamento do cartório e às limitações impostas aos personagens.
A fotografia aproveita muito bem a arquitetura de Brasília
A fotografia de Pedro Maffei é um dos maiores destaques de "Cartório das Almas". Filmado inteiramente em Brasília, o longa aproveita a arquitetura modernista da capital para criar ambientes que parecem pertencer a uma sociedade diferente da nossa.
Locais como o Museu Nacional e a Torre Digital aparecem entre os cenários utilizados, além de paisagens do Cerrado. A escolha funciona muito bem, principalmente porque os espaços possuem características arquitetônicas que combinam com a ideia de um futuro onde a humanidade encontrou uma maneira de interromper o envelhecimento.
Os enquadramentos valorizam bastante essas construções. Os ambientes amplos, as formas geométricas e os espaços mais vazios ajudam a criar uma aparência diferente, mesmo utilizando lugares reais.
A direção de arte de Maíra Carvalho também merece elogios. Existe um cuidado na organização dos ambientes, nos objetos e na maneira como os personagens ocupam esses espaços. O trabalho foi premiado no Festival de Brasília, reconhecimento que combina com a qualidade visual apresentada.
Outro elemento que chama atenção é a presença dos pássaros, especialmente dos corvos. Como essas aves possuem uma relação direta com o destino das pessoas que escolhem morrer, sua utilização acaba sendo importante para a construção daquele mundo.
O filme também apresenta imagens de insetos, plantas e outros elementos da natureza. São planos muito bonitos, que aproveitam pequenos detalhes e ajudam a variar a fotografia entre os ambientes arquitetônicos e as paisagens naturais.
Em alguns momentos, essas imagens são tão interessantes quanto as próprias cenas envolvendo os personagens.
Atuações e som combinam com o ritmo escolhido pela direção
Gabriela Correa apresenta uma boa interpretação como Laura. A personagem possui uma postura mais reservada e parece carregar o desgaste de alguém que já viveu tempo demais.
A atriz trabalha bem essa característica, principalmente nas situações em que precisa ouvir os relatos das pessoas que procuram o cartório. Existe uma certa distância emocional em seu comportamento, algo que combina com a rotina da personagem e com o ambiente onde trabalha.
O elenco também conta com Wellington Abreu, Chico Sant'Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes. As atuações acompanham o estilo mais contido da produção, sem grandes exageros nas interpretações.
A parte sonora também é muito boa. O trabalho de Olivia Hernandez, responsável pelo desenho de som, foi premiado no Festival de Brasília e ajuda bastante na construção dos ambientes.
A trilha de Negro Leo e Piqueras Santangelo aparece em momentos bem escolhidos, acompanhando as imagens sem ocupar espaço demais. As músicas combinam com o ritmo mais tranquilo e com a estranheza de algumas situações.
O filme também utiliza bem os sons ambientes, principalmente nas cenas externas e nos momentos em que a câmera acompanha animais e elementos da natureza.
Algumas explicações fazem falta durante a história
Apesar da boa ideia e da qualidade técnica, "Cartório das Almas" apresenta dificuldades na maneira como desenvolve algumas informações.
O roteiro não explica detalhadamente o funcionamento daquela sociedade. Sabemos que as pessoas deixaram de envelhecer, que existe uma instituição responsável por registrar a decisão de morrer e que determinadas regras impedem alguns personagens de fazer essa escolha.
Entretanto, nem todas essas questões recebem explicações suficientes. Algumas situações surgem sem muita preparação, exigindo que o público tente compreender sozinho o que está acontecendo.
Em determinados momentos, essa escolha funciona. O universo apresentado possui características próprias, e descobrir seus detalhes aos poucos pode despertar curiosidade. O problema aparece quando faltam informações importantes para entender melhor as decisões dos personagens.
A situação contratual de Laura, por exemplo, é uma das questões que poderiam receber maior desenvolvimento. A impossibilidade de escolher o próprio destino é um conflito interessante, mas seria bom conhecer melhor as condições que levaram a personagem até aquela situação.
O mesmo acontece com algumas regras do cartório e com o funcionamento da sociedade. O filme apresenta conceitos diferentes, mas deixa parte deles pouco esclarecida.
Isso não chega a tornar a experiência cansativa. Os 77 minutos passam relativamente bem, principalmente pela qualidade das imagens e pela curiosidade em conhecer aquele mundo. Ainda assim, algumas explicações adicionais ajudariam bastante.
Uma fantasia diferente, com qualidades visuais e algumas questões em aberto
"Cartório das Almas" é um filme agradável e possui uma das propostas mais curiosas entre as produções nacionais de fantasia. A ideia de uma sociedade onde ninguém envelhece e as pessoas precisam decidir quando querem morrer permite abordar assuntos interessantes, principalmente o desgaste provocado por uma existência sem fim.
A fotografia de Pedro Maffei é excelente e aproveita muito bem os cenários de Brasília. A direção de arte também se destaca, assim como a utilização dos pássaros, dos insetos e das paisagens naturais. O som e a trilha musical acompanham bem essas imagens e contribuem para a identidade da produção.
Gabriela Correa conduz a história com uma atuação que combina com a personalidade de Laura, enquanto o restante do elenco mantém o tom escolhido pela direção.
O principal problema está na falta de clareza de algumas informações. O roteiro apresenta um universo interessante, mas poderia explicar melhor suas regras e desenvolver determinadas situações com mais cuidado. Existem momentos em que precisamos preencher lacunas importantes para compreender o que está acontecendo.
Mesmo com essas dificuldades, gostei da proposta e principalmente da maneira como o filme foi construído visualmente. É uma produção que apresenta boas ideias e consegue aproveitar a arquitetura brasileira para criar cenários bastante diferentes.
Quem gosta de fantasia, histórias sobre imortalidade e filmes mais contemplativos provavelmente encontrará bastante coisa interessante. Já quem prefere narrativas mais diretas, com explicações claras e conflitos bem definidos, pode sentir dificuldade para acompanhar algumas passagens.
"Cartório das Almas" tem seus problemas, mas a criatividade da premissa, a fotografia e a direção de arte fazem a experiência valer a pena. Com um roteiro um pouco mais claro, especialmente em relação às regras daquele universo, poderia ter aproveitado ainda melhor uma ideia tão interessante.
Vídeo: Reprodução/Youtube(@pandorafilmestrailers)
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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