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'Cartas para Julieta': em busca de um velho amor

14 mai 2010 - 15h42
(atualizado às 15h46)
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Cartas para Julieta representa um paradoxo: é um filme quase perfeito, sem que seja especialmente bom. Dirigido por Gary Winick com base em roteiro de Jose Rivera e Tim Sullivan, o trabalho realiza cada uma de suas ambições com a mesma brusca eficiência que a protagonista emprega em seu trabalho como revisora e editora de revista. Mas os objetivos do filme são tão modestos, minúsculos, tímidos, que realização é exatamente a sensação que ele não desperta. Nenhum sentimento áspero é arriscado, a sensibilidade da audiência não é agredida e, como resultado, não há diálogos memoráveis, cenas surpreendentes e não surge um personagem sobre o qual sintamos mais que uma boa vontade tépida.

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De acordo com Aristóteles, os personagens de tragédias são melhores que nós, e os de comédias piores. Em certa espécie de romance cômico moderno, porém, as duas estipulações básicas são a de que os personagens principais sejam tanto mais bonitos quanto mais tediosos que o público, e isso produz emoções contraditórias que cancelam uma à outra. Nossa, como a Itália é linda! Nossa, como Amanda Seyfried é linda! O vinho parece bom. Olha que cara bonitão. Aquela velha está triste? Que bacana, um casamento.

Na verdade, a velha em questão -Claire, interpretada maravilhosamente e sem esforço aparente por Vanessa Redgrave- parece intrigada, atônita, ocasionalmente chocada mas, no geral, basicamente indulgente com relação à história artificial que ocorre em torno dela. Claire chega a Verona em busca de um antigo amor e pouco tem a dizer, mas Redgrave suspira e troca olhares significativos com Seyfried de uma maneira que confere graça, autenticidade e certa gravidade emocional a um filme que precisa desesperadamente de tudo isso e não sabe bem como fazê-lo.

O personagem de Seyfried, Sophie, revisora editorial para uma revista parecida com a New Yorker, editada por Oliver Platt de uma redação com vista para a ponte de Brooklyn, chega a Verona para uma espécie de lua de mel pré-nupcial com seu noivo Victor (Gael Garcia Bernal).

Os dois são jovens e apaixonados, mas não um pelo outro. Ela quer ser escritora, ele vai abrir um restaurante, e a breve estadia na Itália se torna uma amostra do desgastante casamento metropolitano que teriam. (Não que haja risco de casamento.) Eles conversam por mensagens de texto, mas se divertem separadamente -ele com restaurantes, ela tentando deslindar uma história que é a da vida de Claire.

Mas primeiro Sophie encontra por acaso um grupo de mulheres italianas conhecidas como "as secretárias de Julieta", que recolhem as cartas que mulheres românticas de todo o mundo depositam entre as pedras do muro que fica sob a mais famosa sacada de Verona, contando suas histórias à maior das mártires do amor. Todas as cartas são respondidas, e Sophie decide responder a um melancólico bilhete colocado na muralha meio século atrás. A autora era Claire, então uma estudante britânica de intercâmbio que deveria ter encontrado um paquera local chamado Lorenzo mas teve medo e retornou à Inglaterra.

Agora, Claire volta a Verona por conta da resposta de Sophie, acompanhada por um neto loiro e charmoso chamado Charlie (Christopher Egan, que mistura a figura de Ryan Phillippe a alguns dos maneirismos de Hugh Grant). O desagrado instantâneo que ele sente ao ver Sophie sinaliza o amor iminente. Claire está determinada a encontrar Lorenzo, e sai em viagem na qual se encontra com diversos velhinhos chamados Lorenzo, todos os quais adorariam ter sido seu grande amor.

Boa parte do filme aproveita a viagem de Claire, Charlie e Sophie para oferecer provas turísticas de que a Itália existe: colinas banhadas pelo sol, cidadezinhas com casas de pedra nas encostas de montanhas, vinhedos, telhados de ardósia. O cenário humano sugere que o tempo parou depois de Shakespeare mas muito antes de Berlusconi, e que o autêntico papel cultural da Itália é o de cenário para romances anglófonos.

Isso funcionou bem para Henry James e E. M. Forster, cuja influência ocasionalmente se faz sentir nesse filme brando. Seyfried exibe ao menos um traço do charme e disposição das heroínas expatriadas dos dois escritores, e é difícil não torcer por sua felicidade, mesmo que o filme cuide para poupá-la do risco de decepção amorosa.

Cartas para Julieta é o quarto filme com Seyfried lançado este ano e, com o choroso Querido John, deve consolidá-la como estrela de cinema. Embora seu trabalho no cinema por enquanto não seja tão bom quanto na série Big Love, da HBO, a combinação de teimosia, vulnerabilidade e bom senso prático que exibe a torna atraente para quase todas as audiências. Seyfried está para o quase choro como Kristen Stewart está para morder o lábio preocupadamente: uma mestra na arte de exibir emoções mal contidas e deliciosamente ambíguas.

E isso torna Seyfried (e Redgrave) mais interessantes que o filme. Não é que Cartas para Julieta seja ruim; se você está em busca de uma má comédia romântica, posso oferecer uma longa lista. Mas gostar de um filme como esse já é uma forma de decepção, porque aquilo que o espectador queria, e que lhe foi prometido, é amor.

Cena do filme 'Cartas para Julieta'
Cena do filme 'Cartas para Julieta'
Foto: Divulgação
The New York Times
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