'Arco' é a prova de que a animação independente merece mais visibilidade
Animação francesa que concorre ao Oscar 2026 já está em cartaz nos cinemas brasileiros
As animações independentes costumam largar vários passos atrás na corrida pelo público. Enquanto superproduções de estúdios consolidados dominam a publicidade, concentram a maioria das salas e multiplicam sessões ao longo do dia, filmes menores precisam disputar cada horário e cada tela. Nesse contexto, simplesmente estrear em circuito já representa um feito considerável — e é justamente aí que Arco, animação indicada ao Oscar 2026, entra.
Curiosamente, em uma temporada pouco memorável para os gigantes da indústria, foram os títulos fora do eixo Disney/DreamWorks Animation que mais chamaram atenção. Além de Guerreiras do K-Pop, animação da Netflix consagrada no Annie Awards 2026, o "Oscar" da animação, com dez troféus, a produção francesa Arco também se destacou na premiação ao ser eleita a Melhor Animação Independente. Pequeno em escala, mas grande em ambição estética e temática, o filme reforça que a energia criativa da animação contemporânea nem sempre está onde há mais dinheiro — e sim onde há mais identidade.
A história parte de um conceito simples: um garoto de dez anos, vindo de um futuro distante, perde o controle em seu primeiro voo com um traje multicolorido e cai no passado. Ele é resgatado por Iris, uma menina de 2075, que tenta ajudá-lo a retornar ao seu tempo. A premissa poderia render apenas mais uma aventura sci-fi juvenil, mas Arco surpreende ao transformar a viagem temporal em ponto de partida para uma narrativa sobre afeto, responsabilidade e legado. Não há pressa nem excesso de explicações técnicas; o que move a trama são as conexões que se formam e as marcas que cada escolha deixa no mundo.
A influência de Hayao Miyazaki (A Viagem de Chihiro) é perceptível, seja no fascínio pelo céu, seja na maneira como a fantasia convive com dilemas muito concretos. O traço delicado e o ritmo contemplativo evocam o espírito do Studio Ghibli, mas o filme encontra identidade própria ao inverter expectativas: aqui, o passado carrega as cicatrizes ambientais e sociais, enquanto o futuro surge como um espaço onde tecnologia e natureza aprenderam a coexistir. A distopia não está adiante, e essa é uma escolha narrativa que desloca a culpa para o presente e transforma o amanhã em possibilidade de reparação.
Outro acerto é a ausência de um vilão tradicional. A grande ameaça é estrutural: a degradação climática provocada pela humanidade. Nesse cenário, um robô de postura protetora reforça o tema de que até as criações tecnológicas podem ser instrumentos de cuidado, não de destruição. Há ainda coadjuvantes bastante divertidos, como o trio de irmãos identificados por óculos com as cores do arco-íris, que surgem com aura de antagonistas, mas que vão se revelando de formas inesperadas.
No fim, Arco é menos sobre paradoxos temporais e viagens no tempo e mais sobre amor — não apenas aquele romântico, mas também o fraterno e coletivo. A relação entre os protagonistas funciona como motor de transformação, uma força que ultrapassa as fronteiras do tempo sem precisar de discursos grandiosos. É uma obra que fala de esperança diante de um planeta ferido, sem a ingenuidade de outras animações, mas com a ternura do olhar infantil de seus personagens. Uma experiência que a sala do cinema sempre deixa mais emocionante.