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"Ao Sabor das Cinzas" Tem Tema Forte e Visual Criativo, Mas Deixa Perguntas Sem Respostas

Filme brasileiro que estreia em 22 de outubro mistura tráfico humano, luto e aparições sobrenaturais, mas apresenta dificuldades para desenvolver suas descobertas e personagens

23 out 2026 - 19h43
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Resumo
Dirigido por Taciano Valério, "Ao Sabor das Cinzas" aborda luto, segredos de família e tráfico humano ao mostrar parentes descobrindo crimes após a morte do patriarca. O longa inova visualmente ao usar realismo fantástico com mortos em cena e dividir enquadramentos em ligações telefônicas. Contudo, a obra sofre com atuações rígidas e um roteiro apressado que deixa lacunas investigativas e perguntas sem respostas, enfraquecendo o impacto dramático de um tema socialmente relevante e urgente.

O longa "Ao Sabor das Cinzas" chega aos cinemas brasileiros em 22 de outubro de 2026 com uma história que mistura luto, segredos familiares e crimes envolvendo tráfico humano. Dirigido por Taciano Valério, o longa tem 84 minutos de duração, classificação indicativa de 16 anos e utiliza elementos de realismo fantástico para acompanhar uma família que começa a descobrir verdades perturbadoras após a morte de seu patriarca.

O filme apresenta assuntos importantes, principalmente quando aborda a exploração de mulheres e os crimes escondidos por pessoas aparentemente respeitáveis. Também chama atenção por algumas escolhas de fotografia e pela maneira como coloca personagens mortos interagindo com os vivos.

Apesar dessas qualidades, a história é bastante irregular. Algumas atuações não convencem, os diálogos ficam artificiais em determinados momentos e o roteiro apresenta informações importantes sem desenvolver adequadamente como os personagens chegaram até elas.

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Imagem: Divulgação/Autorias Filmes
Imagem: Divulgação/Autorias Filmes
Foto: Divulgação/Autorias Filmes / Woo! Magazine

A morte de Seu Lauro revela os segredos da família

A história começa com a morte de Seu Lauro, interpretado por Everaldo Pontes. Suas filhas, Bethânia, vivida por Verônica Cavalcanti, e Laura, interpretada por Maria Lima, precisam lidar com o falecimento do pai e resolver questões relacionadas ao corpo e ao sepultamento.

Enquanto a família enfrenta esse momento, Isadora, filha de Bethânia, começa a investigar vídeos e registros que revelam informações sobre o passado de Seu Lauro. Aos poucos, surgem indícios de seu envolvimento com atividades criminosas, incluindo tráfico e exploração de mulheres.

Mário, genro de Seu Lauro, também aparece ligado a esses crimes. As descobertas começam a modificar a maneira como os familiares enxergam pessoas com quem conviveram durante anos.

O tráfico humano é um dos assuntos mais pesados apresentados pelo filme. A história mostra como crimes graves podem estar escondidos dentro de famílias que, para quem observa de fora, parecem levar uma vida comum.

É um tema que merece atenção e poderia render momentos ainda mais fortes. O problema está na maneira como essas informações são apresentadas. Algumas descobertas acontecem rapidamente, sem que o roteiro mostre direito como os personagens conseguiram encontrar determinadas provas ou estabelecer conexões entre os envolvidos.

Em certos momentos, temos a impressão de que partes importantes da investigação ficaram de fora.

A fotografia apresenta algumas escolhas diferentes

A fotografia de Breno César é um dos aspectos mais interessantes de "Ao Sabor das Cinzas". O filme utiliza alguns recursos visuais pouco convencionais, especialmente durante as conversas por telefone.

Em vez de alternar entre os ambientes de cada personagem, como normalmente acontece nesse tipo de cena, a direção coloca os dois no mesmo enquadramento. Mesmo estando em lugares diferentes, eles aparecem lado a lado, conversando como se dividissem o mesmo espaço.

Nas primeiras vezes, essa escolha causa certa confusão. A impressão inicial é de que os personagens realmente estão próximos, até percebermos que se trata de uma ligação telefônica. Conforme o recurso volta a aparecer, fica mais fácil entender a intenção da direção.

É uma solução criativa e que chama atenção pela maneira como modifica uma situação bastante comum no cinema. A ausência dos cortes tradicionais também deixa essas conversas visualmente diferentes.

Outro detalhe interessante está na caracterização dos personagens que já morreram. O filme permite que eles apareçam em cena e conversem com outras pessoas, utilizando uma aparência mais acinzentada para diferenciá-los dos vivos.

Esse efeito é perceptível e ajuda a identificar quando estamos diante de alguém que já morreu. A direção de arte de Carla Sarmento trabalha bem essa diferença, sem precisar recorrer a efeitos exagerados.

Esses momentos sobrenaturais também não são utilizados para provocar humor. Embora algumas situações possam parecer estranhas pela maneira como os mortos aparecem, o filme mantém uma abordagem séria, acompanhando os conflitos e os segredos daquela família.

Imagem: Divulgação/Autorias Filmes
Imagem: Divulgação/Autorias Filmes
Foto: Divulgação/Autorias Filmes / Woo! Magazine

O som acompanha bem a proposta, mas as atuações deixam a desejar

O trabalho sonoro de Giancarlo Galdino combina com a atmosfera do filme. Não existe uma trilha musical constante tentando conduzir as emoções do público. Boa parte das cenas utiliza sons ambientes, ruídos e os próprios diálogos para construir o clima.

Essa escolha funciona especialmente nos momentos mais silenciosos, quando as conversas familiares e as informações reveladas recebem maior atenção.

Já as atuações apresentam resultados bastante diferentes. Alguns integrantes do elenco conseguem transmitir bem os conflitos entre os personagens, principalmente nas situações envolvendo a morte de Seu Lauro e as descobertas sobre seu passado.

Outras interpretações, entretanto, ficam rígidas demais. Existem falas que parecem decoradas e reações pouco naturais, deixando algumas cenas com uma aparência robotizada.

Isso prejudica principalmente os momentos em que o filme precisa transmitir emoções mais fortes. Certas revelações deveriam provocar um impacto maior, mas a maneira como os diálogos são interpretados acaba diminuindo a intensidade.

A direção de Taciano Valério apresenta boas ideias visuais, porém nem sempre consegue extrair a mesma naturalidade de todo o elenco.

O roteiro deixa informações importantes pelo caminho

O maior problema de "Ao Sabor das Cinzas" está no roteiro, assinado por Taciano Valério, Vanderson Santos e Carla Francine.

A história reúne muitos elementos: a morte do patriarca, os conflitos entre as irmãs, os registros encontrados pela família, os crimes envolvendo tráfico humano e a presença sobrenatural de personagens que já morreram.

Existe material suficiente para desenvolver um drama familiar bastante pesado, principalmente pelas revelações envolvendo Seu Lauro e Mário. Entretanto, algumas dessas situações aparecem sem a preparação necessária.

Em determinados momentos, os personagens parecem saber informações que o público ainda não teve oportunidade de compreender. Descobertas importantes são apresentadas praticamente prontas, sem mostrar como determinadas provas foram encontradas ou de que maneira uma informação levou à outra.

Isso acaba tornando a história confusa. Não pela presença dos mortos ou pelos recursos visuais, mas pela falta de explicações sobre acontecimentos que são fundamentais para entender os crimes e as relações entre os personagens.

A montagem de João Maria também não consegue resolver completamente essas dificuldades. Algumas passagens entre acontecimentos deixam a impressão de que faltou desenvolver melhor determinadas situações.

O resultado é uma história que exige atenção, mas nem sempre oferece informações suficientes para acompanhar tudo com clareza.

Imagem: Divulgação/Autorias Filmes
Imagem: Divulgação/Autorias Filmes
Foto: Divulgação/Autorias Filmes / Woo! Magazine

Um assunto importante que merecia um desenvolvimento melhor

O tráfico humano é um tema extremamente sério, e "Ao Sabor das Cinzas" merece reconhecimento por abordar esse tipo de crime dentro de uma história sobre segredos familiares. A relação entre os envolvidos e a maneira como determinadas pessoas conseguem esconder suas atividades criminosas são pontos que poderiam ter recebido ainda mais atenção.

O filme também possui qualidades visuais. As conversas telefônicas com personagens no mesmo enquadramento são criativas, a caracterização dos mortos funciona e a fotografia apresenta boas soluções para diferenciar os ambientes e as situações.

O problema é que essas ideias não compensam completamente as dificuldades do roteiro. As atuações irregulares prejudicam algumas cenas, enquanto a falta de desenvolvimento de determinadas descobertas deixa dúvidas sobre acontecimentos importantes.

O encerramento também não resolve todas essas questões. A história apresenta um desfecho para a situação envolvendo o corpo de Seu Lauro, mas outros conflitos ficam sem respostas satisfatórias.

Com apenas 84 minutos, "Ao Sabor das Cinzas" poderia ter dedicado mais tempo a esclarecer certas informações, mesmo que isso significasse ampliar um pouco sua duração. A quantidade de assuntos apresentados acaba sendo grande demais para o desenvolvimento oferecido.

É um filme que possui boas ideias e aborda um problema social que precisa ser discutido. A fotografia e algumas decisões de direção merecem elogios, mas a narrativa confusa e as interpretações pouco naturais acabam comprometendo o resultado.

A sensação ao terminar a sessão é de que havia uma história mais interessante para ser contada, especialmente pelos crimes envolvendo Seu Lauro e Mário. Faltou organizar melhor as revelações e dar mais espaço aos conflitos para que o peso desses acontecimentos fosse realmente sentido.

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

Woo! Magazine
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