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Emmanuel Carrère: 'O problema não é expor a si mesmo; é quando você expõe outras pessoas'

Num sábado quente, abafado e normal, 'Estadão' conversou com escritor francês em uma livraria no Bixiga: 'Eu não acredito na objetividade. Posso lhe contar o que senti, o que entendi e o que vi''

13 out 2026 - 12h07
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Resumo
Em passagem por São Paulo, o escritor francês Emmanuel Carrère refletiu sobre os limites de sua literatura autobiográfica, afirmando que o verdadeiro problema não é se expor, mas expor outras pessoas, erro que cometeu no passado e busca não repetir. Ele defendeu a subjetividade em suas obras, discutiu o livro "Colcoz", centrado em sua mãe e na história coletiva, e comentou sobre projetos futuros, além de expressar receio de que o cenário pós-Vladimir Putin na Rússia possa se tornar ainda pior.

Não vou escrever que ele não transpira. Nem poderia. Ao contrário de Emmanuel Carrère, que passou uma semana com Emmanuel Macron para chegar a conclusão de que a sudorese não era um dos problemas do famoso político em 2017, fiquei não mais do que uma hora na companhia do escritor francês num sábado ensolarado, abafado e comum no bairro do Bixiga em São Paulo.

Mas dá para dizer muitas coisas também a partir dessa rápida convivência: o cabelo dele se mexe pouco ou quase nada, conservando um aspecto bagunçado e ao mesmo tempo arrumado; ele caminha com calma, pelo menos os cerca de 200 metros que separam o local em que gravou um vídeo promocional e a Livraria Simples, na rua Rocha, onde concedeu a entrevista para o Estadão.

O autor Emmanuel Carrère durante passagem pelo Brasil
O autor Emmanuel Carrère durante passagem pelo Brasil
Foto: Lucas de Oliveira/Filmart Media/Divulgação / Estadão

Posso escrever ainda: ele atende a todo mundo com atenção, paciência e com um sorriso no rosto. Assina livros e mais livros e posa para fotos e mais fotos. Fala francês com quem domina o idioma, que eu considero a língua do diabo de tão bela, mas fala inglês com fluidez e desenvoltura se necessário. E em inglês conversamos frente a frente durante vinte e poucos minutos, quase o tempo do cafezinho que dividimos.

Dá também para descobrir algumas coisas durante a conversa. Emmanuel acha fascinante Os Sertões, de Euclides da Cunha, mas faz menção - ele mesmo diz ser um clichê - a Clarice Lispector. Diz que Santos Dumont é um personagem histórico extraordinário e que Jair Bolsonaro é uma figura terrível, mas um personagem incrível. Entre longas pausas, antes e durante suas respostas, afirma: "Eu não acredito na objetividade."

Mas diz que, sim, existe a verdade, é algo tangível. "No entanto, à medida que você tenta compreender o que as pessoas pensavam ou qual era o significado de seus comportamentos, aí já não se trata de uma questão de fato e, portanto, aí eu não acredito em objetividade". É por isso que Carrère aceita a sua própria subjetividade. Foi por meio de uma reflexão parecida que ele começou a escrever, a partir de O Adversário, em primeira pessoa. "Não é apenas por egocentrismo ou narcisismo - embora haja um pouco disso -, mas significa dizer: 'Bem, eu sei que não detenho a verdade. Posso lhe contar o que senti, o que entendi e o que vi'. Assim, adotei essa posição de subjetividade assumida para ser, de certa forma, mais honesto com os leitores."

Colcoz e o mundo

O livro mais recente de Carrère, Colcoz, traz logo nas primeiras páginas uma reflexão que mora em outro embate. O autor se pergunta se vale a pena escrever a história da sua família diante de um mundo em colapso. Pergunto, então, se escrever é um meio que ele encontra de se manter vivo, por assim dizer, em meio a um mundo em debacle. Bem, ele concorda que o mundo está ruindo. Mas diz acreditar no mantra de que "devemos ser pessimistas na reflexão e otimistas na ação".

Mas revela em seguida não otimismo ou pessimismo, mas frustração. "Penso que estamos em um momento histórico tão especial que eu gostaria de ser capaz de escrever algo consistente sobre isso. Mas não sei como. E acho que ninguém sabe", analisa. No fim da resposta, discorda de mim.

"O livro (Colcoz) não é apenas sobre a minha família; há um eco com a história coletiva". É uma análise semelhante à feita pela revista literária Livres Hebdo que relaciona a obra com o século passado: "Tudo visto pelo olhar perdido de amor (mas também de reconhecimento e, às vezes, de irritação) de um menino por sua mãe."

A mãe. Ela está sempre presente, o tempo todo. Não poderia ser diferente, dada a sua importância pública e íntima. Hélène Carriere d'Encausse, nascida Zourabichvili, entre tantos feitos, foi eleita em 1990 para a cadeira 14 da Academia Francesa, que por sua vez é a mais antiga e prestigiosa instituição literária da França. Mas Hélène foi mais, foi a primeira mulher escolhida para o cargo de secretária perpétua, um nome curioso para a função hierárquica mais alta da academia.

Mas ali, em Colcoz, ela aparece menos como uma pessoa pública. E mais como a mulher que, eis um trecho delicioso do livro, mesmo não gostando de música, não tendo qualquer relação com essa arte, aceita um convite para falar sobre o tema na clássica estação Radio Classique.

Segundo Emmanuel escreve em Colcoz "para passar uma hora dissertando sobre seu gosto musical (não apenas ficcional, mas também de uma banalidade que era de chorar) e dizer, em determinado momento, num tom reflexivo, cheio de mistério, que era mesmo surpreendente o amor tão profundo e inato que ela sentia pela música, sendo que não tinha nenhum músico na família - seu irmão, sua cunhada e seus dois sogros eram todos músicos profissionais, só para lembrar."

Ele não pode se queixar

Esse jogo de mostra-mostra, de se expor diante do leitor, não é novidade na obra de Carrère. Pelo contrário: não parece haver nele qualquer freio nessa exposição, o que pode soar estranho para os mais reservados, mas que dialoga perfeitamente com o momento atual em que expomos nossa vida sem pudores ou freios, diariamente, nas redes sociais. O problema é quando a exposição atinge pessoas próximas, diz Carrère. O autor indica que não pode reclamar, porque reconhece ser ele próprio o culpado por isso. "Penso que o verdadeiro problema não é expor a si mesmo; é quando você expõe outras pessoas. E foi isso o que eu fiz em Um romance russo. É algo que eu não gostaria de fazer novamente."

O autor Emmanuel Carrère hoje avalia que não foi correta forma como expôs pessoas próximas a ele em uma de suas obras
O autor Emmanuel Carrère hoje avalia que não foi correta forma como expôs pessoas próximas a ele em uma de suas obras
Foto: Caio Franco/Divulgação / Estadão

Refletindo, o autor diz que não deveria ter agido como agiu. "Não houve uma tragédia, mas expus minha mãe e minha namorada da época de uma forma que acho que não foi correta. Ultrapassei uma linha que não pretendo ultrapassar de novo". A mea-culpa, tão necessária nos dias de hoje e ao mesmo tempo tão ausente nas nossas relações humanas, não impede Carrère de extrair o que há de bom no modo como escreve. "Acho que expor suas próprias fraquezas pode ser benéfico para outras pessoas, especialmente ao abordar temas como crises de doença mental, que são motivos de muita vergonha para muitos. Ao ler sobre isso, as pessoas percebem que não estão sós, e isso pode ajudar", conta.

É curiosa essa resposta. Em 2023 estimava-se que 4% da população mundial sofria de depressão. Na ponta do lápis, isso significa mais de 300 milhões de pessoas. Não conheço ninguém - incluindo-se o autor deste texto - que tenha se sentido melhor ao saber que tanta gente sofre do mesmo mal. Mas é inegável o poder de nos identificarmos com quem conta sua história a respeito da doença porque é isso, afinal, que nos distingue como seres humanos.

Duas semanas na delegacia

A conversa segue para o fim e as perguntas mundanas se fazem necessárias, afinal, não vamos perder de vista que se trata - supostamente - de um texto jornalístico. Pergunto sobre o futuro, no que está trabalhando. A expectativa é arrancar de Carrère o tema de seu novo livro. Falho miseravelmente. "Não estou sem fazer nada, não sou sábio o suficiente para não fazer nada, mas não tenho nenhum projeto de livro no momento", responde. Atualmente, diz trabalhar em um roteiro. Quando retornar à França vai direto para uma delegacia.

"Farei um trabalho para um semanário francês, para quem cobri os julgamentos do [atentado no] Bataclan (ele escreveu um livro sobre o tema, V13). Eles me pediram para passar duas semanas em uma delegacia de polícia na França para ver como os policiais trabalham e qual é a rotina deles, que não deve ser exatamente uma rotina", explica. Quem sabe não podemos esperar algo novo a partir dessa experiência?

E chegamos na Rússia, sobre a qual Emmanuel falou tanto e continua a escrever. É no livro dele mais recente que nos deparamos com a ideia de que naquele país o menos se torna mais e que todo clichê, por lá, parece real. Se isso é verdade, pergunto, o que NÃO (quase grito tentando me fazer entender) podemos esperar de Vladmir Putin? "Eu não posso profetizar nada", começa.

"O custo da guerra, o custo humano da guerra está se tornando muito pesado", continua. O que acontecerá a seguir eu não sei", segue. E num tom de voz baixinho, como se quisesse que ninguém o escutasse, vejam vocês, ele diz: "Tenho receio de que, se Vladimir Putin deixar o poder, o que venha a seguir possa ser ainda pior".

Como ele diz, é realmente impossível profetizar a respeito, mas eis aí um exercício de imaginação que poderia resultar num novo livro. Termina a entrevista, descemos as escadas, ele na frente, ele sempre na frente. Vou à cozinha, que integra a livraria, pegar um último cafezinho. Na volta, me deparo com o jornalista Matinas Suzuki. Não acho estranho ele por lá, mas resolvo não perguntar nada a respeito. Volto para a rua: abafada, quente e absolutamente comum e indecifrável.

Estadão
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