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Em 'Industry', assim como no mundo real, todos os caminhos levam a Epstein

A recém-encerrada quarta temporada da série revelou os desejos latentes que alimentam o capital global

5 mar 2026 - 17h09
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Não demora para que a quarta temporada de Industry revele as preocupações mais sombrias de seus personagens, que já vimos subir e descer no mundo das finanças globais com a volatilidade de uma penny stock. No primeiro episódio da temporada, as preferências sexuais dos usuários de um aplicativo semelhante ao OnlyFans chamado Tender ocupam o centro da narrativa. Seu cofundador, interpretado por um viscoso Kal Penn, declara sua predileção por certos fetiches e pornografia racializada. De fato, os desejos e ansiedades psicosexuais que muitos apontam como motores do comportamento humano desempenham um papel crucial na forma como esta temporada desnuda as forças mais sinistras do capitalismo. Apesar de todo o jargão financeiro e do drama de pregão, Industry sempre foi uma série sobre desejo — quem pode tê-lo, quem pode satisfazê-lo e quem acaba sacrificado no processo. Nesta temporada, essa discussão se desenrola paralelamente às revelações contínuas sobre a rede de exploração sexual associada a Jeffrey Epstein, extremamente bem conectada e financiada — um lembrete de que os instintos mais sombrios da série sobre riqueza e poder raramente são exagerados.

Industry
Industry
Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

A quarta temporada começa com o jornalista investigativo Jim Dycker, interpretado por Charlie Heaton, se envolvendo com Hayley Clay, vivida por Kiernan Shipka, a recém-nomeada assistente do cofundador da Tender, Whitney Halberstram (Max Minghella). Na manhã seguinte, quando Dycker tenta bisbilhotar o celular de Hayley para avançar em sua investigação sobre os negócios suspeitos da empresa, ela o expulsa do apartamento, ameaçando chamar o namorado — e faz questão de enfatizar que ele é negro. "E você sabe o que isso significa", diz ela, para a confusão de Dycker. Raça e sexualidade se entrelaçam ao longo da temporada em ritmo crescente. Mais tarde, vemos Eric Tao (Ken Leung) cercado por um grupo de jovens mulheres negras enquanto fala ao telefone com Harper (Myha'la), que aparentemente percebe o fetiche implícito na situação.

Em todos os níveis da hierarquia social retratada na série, o sexo é usado como instrumento de controle. Em uma festa de aniversário de 40 anos de Sir Henry Muck, personagem de Kit Harington, realizada na propriedade rural de sua família, uma política conservadora em ascensão — preparada para disputar o cargo de Chanceler do Tesouro — é flagrada em uma situação íntima com o padrinho de Henry, o financista Otto Mostyn (Roger Barclay). Mais tarde, Mostyn faz uma piada insinuando que ela e o irmão compartilham um "talento" semelhante, sugerindo que o arranjo não é recente. Há também o breve caso entre Harper e Whitney, no qual ele pede que ela utilize um acessório sexual, revelando o apetite do aspirante a titã da tecnologia por tabus. Em episódios posteriores, descobrimos que Whitney usa chantagem sexual como forma de pressão sobre diversos associados importantes — especialmente Eric, filmado com uma profissional do sexo cuja idade posteriormente se torna motivo de suspeita. A esposa de Henry, Yasmin (Marisa Abela), acaba convencendo Hayley a acusar Dycker de agressão, desacreditando sua reportagem sobre a Tender e instrumentalizando a política da era #MeToo. Enquanto isso, o relacionamento a três entre Yasmin, Hayley e Henry surge como mais um possível material de comprometimento, reforçando como a intimidade em Industry é constantemente convertida em moeda de poder.

O fato de Hayley — que revela ter sido uma ex-acompanhante contratada por Whitney — desempenhar um papel tão central, tanto como vítima conveniente quanto como alguém que recruta jovens mulheres para os esquemas de chantagem do empresário, é outro ponto em que realidade e ficção começam a se cruzar. Na visão da série sobre o desejo de homens poderosos por mulheres muito jovens, Hayley e, posteriormente, Yasmin funcionam como intermediárias entre a elite e seus desejos transgressivos, não muito diferente do papel que Ghislaine Maxwell desempenhou no esquema mais amplo de Epstein. Os criadores da série chegaram a sugerir que o destino de Yasmin era quase inevitável. Como disse o co-showrunner Konrad Kay em entrevista recente à GQ, o final representa "a conclusão lógica de alguém que sempre teve essas características", referindo-se à atração duradoura da personagem pelo poder e à disposição de manipular pessoas vulneráveis.

Quando Yasmin assume o controle do império de chantagem de Whitney, o núcleo apodrecido de todo o sistema capitalista fica exposto. Após se divorciar de Henry, ela e o ex-sogro, o magnata da mídia Lord Norton (Andrew Havill), decidem se aventurar na política, oferecendo apoio financeiro ao político conservador Sebastian Stefanowicz (Edward Holcroft). Yasmin organiza um jantar de arrecadação para um grupo de extremistas de direita que presumivelmente apoiaria Stefanowicz. Literalmente neonazistas — mãe e filho que venderam o banco austríaco da família para a Tender — são colocados à mesa ao lado de Harper. Eles parecem ao mesmo tempo repelidos e fascinados por ela ser negra. Cercada por financistas, políticos e fundadores de empresas de tecnologia, a conversa deriva casualmente para temas como reprodução, herança e preservação de linhagens da elite, revelando a visão de mundo que silenciosamente sustenta toda a estrutura de poder.

Na raiz do grande conjunto de e-mails e depoimentos ligados a Jeffrey Epstein que vieram a público há uma obsessão pouco discutida com raça e eugenia. Epstein chegou a falar abertamente sobre planos de engravidar diversas mulheres em seu rancho no Novo México para disseminar seu próprio DNA. Em depoimentos tornados públicos em um processo judicial relacionado ao caso, uma acusadora afirmou que ele orientava recrutadores sobre suas preferências raciais — algo que se encaixa de forma inquietante em sua fixação por ideias de "aperfeiçoamento" genético.

A visão de mundo que anima esses escândalos não se limita a financistas desacreditados. Na plataforma X de Elon Musk e entre pensadores influentes da direita como Curtis Yarvin, essa fixação aparece de forma ainda mais explícita. Yarvin já argumentou repetidamente que a democracia deveria ser substituída por uma espécie de monarquia administrada como uma empresa, governada por uma elite intelectual. Musk, por sua vez, alertou que a queda nas taxas de natalidade entre pessoas altamente educadas representaria uma ameaça civilizacional e frequentemente incentiva maior natalidade entre os que considera "inteligentes" e "competentes".

Os arquivos de Epstein expuseram o sistema de crenças dos ultrarricos: a ideia de que, de alguma forma essencial, eles pertencem a uma espécie diferente. É uma visão de mundo incorporada ao próprio capitalismo moderno — nascida nas hierarquias do comércio transatlântico de escravos — em que algumas pessoas existem para extrair dos outros, enquanto outras existem para serem exploradas. É assim que as elites de Industry, assim como muitas do mundo real, conseguem tratar pessoas como se fossem brinquedos. Para elas, somos.

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