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Elomar traz 'O Auto da Catingueira' para o Cultura Artística: 'O sertão acabou', diz

Aos 88 anos, o recluso violeiro fala sobre o projeto, inspirações e seu universo quase mítico de cavaleiros e tropeiros

24 jul 2026 - 11h57
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Elomar Figueira Mello não é deste tempo. Nem a sua música tem o mesmo sentido de tempo das criações atuais. Violonista, compositor, cantor e escritor, o baiano de Vitória da Conquista, na Bahia, aos 88 anos, assistirá, nesta quarta e quinta-feira, 22 e 23, à sua ópera Auto da Catingueira no palco do Cultura Artística, adaptada e apresentada pelo grupo de câmara barroco holandês Apollo Ensemble. João Omar, um dos filhos de Elomar, estará ao violão.

Composta no final da década de 1960 e gravada em LP duplo em 1983, a ópera 'sertânica', como Elomar a classifica, mescla a cultura popular do Nordeste com a linguagem lírica. Narrada pelo Cego Cantador, tem como protagonista a bela Dassanta — ou a própria caatinga —, disputada por dois violeiros, Chico das Chagas e o Cantador do Norte. "São os valores do sertão, a realidade sertaneja, sem abordagem da pólis, das cidades", explica Elomar ao Estadão.

Nessas apresentações no Cultura Artística, Auto da Catingueira terá direção e cenografia de André Heller-Lopes, direção musical do maestro ucraniano David Rabinovich, líder do Apollo Ensemble, e arranjo de Henrique Gomide.

Com fama de recluso, Elomar conversou com a reportagem por telefone, com o pedido de que a conversa focasse no Auto e em sua criação artística. Morador de Vitória da Conquista, ele se divide entre a cidade e a região rural, na sua conhecida Casa dos Carneiros, onde cria carneiros, cabras e gado miúdo, em uma propriedade que está há gerações em sua família. Diz evitar entrevistas, sobretudo para "gente jovem". "Minha música é mais para a 'veiança'", diz.

"Moro e demoro no sertão", ele costuma dizer, expandindo o sentido para além da geografia. Um mundo de vaqueiros encourados, tropeiros e rapazes que sabem "arrear e montar em um cavalo", como ele diz na entrevista, lamentando o fato de, segundo ele, não existirem mais. "O sertão esbagaçou", afirma.

Ainda no palco, Elomar apresenta, desde o ano passado, o show Uma cantoria para Vital, homenagem a Vital Farias (1943-2025), seu parceiro no projeto mais popular que já fez, o Cantoria — série de três álbuns lançados pela gravadora Kuarup. Os dois primeiros, além de Elomar e Farias, também traziam Xangai e Geraldo Azevedo. Na época, Elomar e Farias foram apelidados de Beatles pela produção, em contraste com Xangai e Azevedo, os Rolling Stones. "Só conheço uma canção dos Beatles, Eleanor Rigby, que é bonita demais", diz.

Elomar quer trazer para São Paulo o espetáculo que já passou por Belo Horizonte, onde foi visto por 1.600 pessoas no Minascentro, Recife e João Pessoa. Busca patrocinadores. "Joga o laço aí [na reportagem], vai que cai no pescoço de alguém", brinca.

O 'Auto da Catingueira' estará em um dos principais palcos de São Paulo, o Cultura Artística. O senhor já a definiu como uma ópera 'sertânica', com estrutura de auto da Idade Média. Gostaria que o senhor explicasse esse conceito para quem, por exemplo, irá assisti-la pela primeira vez.

Geralmente, as óperas, europeias e brasileiras, tratam de temáticas urbanas. O Auto da Catingueira é bem 'sertânico' mesmo. São os valores do sertão, a realidade sertaneja, sem abordagem da pólis, das cidades. Por isso, dei a ela essa definição. Minha música é mais bucólica.

'Auto da Catingueira' foi montado por um grupo holandês. A música 'sertânica' pode ser universal também?

Não sei se isso o classifica como música universal. A temática é brasiliana, nordestina propriamente. A parte fulcral dele é um desafio de violas. Não sei se alguma ópera europeia aborda essa questão.

Justamente essa originalidade pode ter atraído a atenção deles.

Sim, pode ser. E a temática do amor, que é universal.

Sua música 'sertânica' se encontrou com a Idade Média.

O Brasil foi descoberto na Renascença, no final da Idade Média [a data exata é 1453]. O Brasil foi colonizado por elementos, por homens recém-saídos da Idade Média, que traziam os valores dela, a música, os costumes. Existe muita 'parecência' entre os valores nordestinos e os da Idade Média. Por exemplo: na Idade Média, era comum você ir andando por uma estrada europeia e topar com um menestrel montado em um corcel com um alaúde nas costas, espada na cintura, pulando de um reino para o outro. Aqui no Nordeste, é comum encontrar esse tipo, mas, em vez de um cavalo, um jegue. Em vez de um alaúde, uma viola. Em vez de uma espada, um facão. A Idade Média tem uma certa continuidade aqui no Brasil, pelo menos nos elementos dela.

A literatura de cordel também foi fonte de inspiração para sua música?

Pouco. Eu li muito cordel. Mas li muito romance de cavalaria. Sempre que chegava em minha mão, eu lia. Por exemplo, a obra de Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo, entre outros.

Essa leitura foi ficando no senhor.

Impregnou a minha mente. E, assim, fui comparando como os valores da Idade Média se repetiam aqui no Brasil, no nosso Nordeste, sobretudo na Bahia.

O Movimento Armorial, de Ariano Suassuna, também fala sobre o Brasil profundo. Ele teve importância na sua obra?

Não. Eu vim a saber da existência do movimento — aliás, do Suassuna — muito tardiamente. Minha obra já estava quase completa. Para você ter uma ideia, só fui conhecer Suassuna pessoalmente dois anos antes da morte dele [em 2014].

Sua obra é vasta e inclui também as antífonas, os cânticos sacros. Vem de sua religião?

Não digo religião, mas sim da espiritualidade.

Como o senhor define sua espiritualidade?

Minha família vem de uma linhagem protestante, do pensamento luterano, calvinista, fundamental. Fui criado na fé cristã protestante. Desde criancinha minha mãe me levava para a igreja. Eu ouvia o hinário — a maioria deles, escritos por compositores clássicos, muitas vezes, medievais.

O senhor ainda pratica essa fé?

Sim, sou cristão protestante.

A religião foi capturada pela política brasileira nos últimos anos. Como o senhor analisa essa relação?

Uma promiscuidade. A política brasileira é uma patifaria. Não entendo dela, mas acho promíscua, muito suja.

Sua música precisa de tempo, de ouvidos atentos às histórias. Atualmente, tempo é artigo raro. Tudo dura 15, 30 segundos. Como se sente em meio a essa pressa toda?

Minha música é mais para a 'veiança'. Hoje, é o mundo da pressa. Mas faço minha música. Quem tiver ouvidos — e tempo — que ouça. Se não tiver, não ouve.

Os álbuns 'Cantoria' foram um momento de grande sucesso popular. Um projeto bem-sucedido, até hoje lembrado, e de mais exposição. Quais memórias guarda desse tempo?

Tenho muita saudade da quadra dos anos 1980. Eu era novo. Tinha outra saúde, outra disposição. Hoje, estou velho. Para mim, não foi tão sucesso. Foi mais para os outros [Vital, Xangai e Geraldo Azevedo]. Quando cheguei no Cantoria, eu era um pouquinho conhecido, mas sem sucesso. Nunca fiz sucesso algum.

Gosta das regravações de suas músicas? Tem uma gravação de Elba Ramalho para 'O Pedido', por exemplo.

Para ser franco, não gosto e nem desgosto. Acho bom porque vai divulgando um pouco mais e rende algum trocado. Só por isso. Nada mais.

Aliás, O Grande Encontro, com Elba, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu parece ter uma boa dose de inspiração no 'Cantoria'...

É um plágio rasgado. Nunca assisti. Só conheço de nome.

Uma pergunta que extrapola um pouco a música, mas também fala sobre harmonia: o senhor é arquiteto. E São Paulo anda com uma acelerada especulação imobiliária, muitos prédios. Como se sente em uma cidade como São Paulo?

Rapaz, eu gosto de São Paulo. São Paulo é cidade mesmo, arretada. O resto é imitação. Tem tudo o que uma megalópole precisa ter. Se você sair à noite e procurar um teatro para ver uma ópera, você acha.

De todas as definições sobre o senhor, qual mais gosta ou prefere: 'sertanês', cantador, violeiro, menestrel, príncipe da caatinga, um beatle?

Beatle? Não lembrava disso. Só conheço uma canção dos Beatles, Eleanor Rigby, que é bonita demais. Conheço mais nada deles. Pode ser menestrel. Compositor.

'Príncipe da Caatinga' foi dado por Vinicius de Moraes, em texto escrito para seu disco 'Das Barrancas do Rio Gavião'. Nesse texto, Vinicius também escreveu que queria passar um tempo em sua casa, para saborear um pouco do violão que o senhor toca. Isso ocorreu em algum momento?

Não deu tempo. Antes de acontecer, ele voou para o céu. Ia ser um encontro bonito.

Vinicius também disse que o senhor jamais se encontraria com a umidade do mar, que sempre iria em busca de novas terras na caatinga. Há um local onde a caatinga encontra o mar, no Rio Grande do Norte. O senhor o encontrou pelo menos uma vez quando gravou 'A Jangada Voltou Só', do Caymmi. O trágico do mar com o trágico do sertão. Como foi?

Foi ideia do [produtor] Almir Chediak, que fazia os songbooks dos compositores. Eu falei: "Desde que eu faça o arranjo". Ele disse: "Faça como você quiser". Fiz um arranjo para violão, voz e um quarteto de cordas, o Bessler-Reis. Dei a tragicidade 'sertânica' para a canção. É um dos arranjos mais bonitos que eu conheço.

O sertão está muito diferente ou ainda se encontram nele os personagens de sua música?

O sertão acabou. Olha, na década de 1980, chegou na Casa dos Carneiros uma jornalista alemã. Ela comprou um Auto da Catingueira. Eu perguntei a ela: "Para que você quer?". Ela me disse que ia traduzir para o alemão que era para, dali a 100 anos, quando não houvesse mais sertão, o povo saber como ele era, ouvindo o Auto. Não chegou a 100 anos. O sertão já acabou tudo. Esbagaçou. Chegou a luz elétrica, acabou. Os personagens de minhas canções já morreram e a descendência deles seguiu outros caminhos. A grande maioria está em São Paulo aprendendo... o que não presta. E levando para lá nas férias.

Qual sentimento te dá?

De saudade dos vaqueiros encourados, dos campos de gado. Me dá uma dor no coração quando lembro dos vaqueiros valorosos que conheci. Mudou, ficou ruim. Hoje, você manda um rapazinho arrear um cavalo, ele não sabe. Muito menos montar.

A música do sertão atualmente também é representada pelo forró eletrônico, mais precisamente, o piseiro, que surgiu no interior da Bahia. O senhor acompanha, aprecia?

Deus me livre. Eu não. Nem tenho tempo de ouvir isso.

Glauber Rocha é seu conterrâneo. Ele trabalhou muito com o Sérgio Ricardo, que fez a trilha dos principais filmes dele. Por que não Elomar?

Certa vez um jornalista me perguntou isso. Me lembro da resposta que dei, em um rasgo de inspiração: "Dois ciclopes não habitam a mesma caverna".

É raro o senhor conceder entrevistas. Com isso, ficou com a fama de um artista mais recluso. Isso o prejudicou de alguma forma?

Ainda mais para gente nova [dar entrevista]. Eu primeiro pergunto a idade, aí dou a entrevista. Conheci grandes jornalistas de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Brasília. Dei muitas entrevistas. Não sinto falta. Meu público já está completo.

O que ainda tem vontade de fazer em relação à música?

Minha maior vontade é ver meus 36 mil compassos sinfônicos de óperas e antífonas gravados. São 17 horas de música. Quero ouvir e quero que meu público também ouça. Meu público conhece mais minha obra popular; a mais culta, ele desconhece.

Auto da Catingueira

  • Dias 22 e 23/7, 20h30
  • Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, Consolação
Estadão
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