Edgar Morin viveu a busca da totalidade e a imprimiu em sua obra-prima
Intelectual de vocação autodidata e libertária, tanto em política como no pensamento abstrato, morreu nesta sexta-feira, 29
A busca pela totalidade alimentou a vida de Edgar Morin por 104 anos. O múltiplo pensador francês, nascido Edgar Nahoum em 1921, morreu sexta-feira, cercado de glória e respeito. O cognome Morin foi adotado enquanto membro da resistência ao ocupante nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. Conservou-o para sempre.
O intelectual Morin, de vocação autodidata, pensou e escreveu sobre tudo - filosofia, sociologia, política, televisão, esporte, canções populares, cultura de massa, etc. Deixa uma obra extensa e multidisciplinar, de mais de 80 volumes. Obra diversificada e independente, expressão de quem se definia como libertário e próximo do anarquismo.
No entanto, em 1941 Morin filiou-se ao Partido Comunista. Porém, em 1951 foi expulso do Partidão francês, acusado de "militância anti-Stálin". Mais tarde dizia-se próximo a um "pós-marxismo democrático".
Essa vocação libertária, tanto em política como no pensamento abstrato, tentou alinhar em sua obra-prima, a imensa La Méthode, O Método, composta de seis volumes, com títulos intrigantes como A Natureza da natureza, A Vida da vida, O Conhecimento do conhecimento, As Ideias, A Humanidade da humanidade - a Identidade humana, a Ética. Escreveu-a ao longo dos anos, de 1977 a 2004. Tem, como ideia geral, ligar as esferas física, biológica e antropossocial. O homem, a experiência humana, não pode ser dividida em gavetas, setores e prateleiras sem comunicação entre si. O projeto é generoso, amplo, gigantesco mesmo, pretensioso, talvez irrealizável. Mas o próprio desejo de que exista alimentou esse pensamento inquieto no decurso de sua longa existência.
Em certo sentido, essa adesão à complexidade do todo tornava Morin uma espécie de anti-Descartes, filósofo-padrão, aquele que costuma ser associado ao racionalismo francês. Em entrevista ao Estadão, em 1998, Morin diz que o conhecimento atual "criou compartimentos estanques, que não se comunicam entre si, não dialogam, não se fertilizam e esse é o problema epistemológico atual". O repórter o provoca, perguntando se não é a herança de René Descartes (1596-1650), para quem as dificuldades deveriam ser divididas em seus elementos simples e estes estudados separadamente por uma questão de clareza. Morin rebate: "Na tradição filosófica francesa há também Blaise Pascal (1623-1662) dizendo que é preciso religar as partes ao todo e o todo às partes, ou seja, indo no sentido contrário aos preceitos cartesianos que levaram a essa compartimentalização." Daí, outra de suas admirações, Michel de Montaigne (1533-1592), que escrevia sobre tudo e todos, baseando-se, em especial, no estudo de si mesmo.
Esse ecletismo, essa voracidade não fizeram bem à reputação de Morin num país de regras acadêmicas bastante rígidas. Durante mais de 30 anos, ele trilhou seu próprio caminho, fora do panteão intelectual onde habitavam nomes como Sartre, Lévi-Strauss, Althusser, Barthes, Derrida, Deleuze e outros. Para sua sorte, não fez parte da famosa "French Theory", como Foucault, Derrida e Deleuze, cujas ideias, exportadas aos campi norte-americanos, e lá devidamente diluídas, se expandiram e proliferaram como vírus acadêmicos mundo afora.
No entanto, sua presença constante, longa e marcante terminou por quebrar barreiras e tornou-o uma voz a ser ouvida, mesmo porque sempre esteve presente no debate do mundo contemporâneo. Como viveu muito, foi contemporâneo de várias épocas, e sempre teve algo importante a dizer sobre todas elas. A idade avançada lhe conferiu a aura de um sábio e alguém a ser escutado com atenção, e reverenciado. Ao lado de Herbert Marcuse, Guy Debord, Henri Lefebvre e Sartre, foi um dos inspiradores intelectuais do maio de 1968, a revolta estudantil que abalou os alicerces da República Francesa. Tem uma frase certeira sobre o movimento:"Maio de 68 foi sentido como férias, e uso essa palavra em seus dois sentidos: um vazio na teia dos dias que se transformou em festa e em liberdade". Encerrado o movimento, escreveu, com Claude Lefort e Cornelius Castoriadis, o livro Mai 68: La Brèche (Maio de 68: a Brecha). Talvez tenha sido o último dos grandes intelectuais franceses, com influência no mundo das ideias e na esfera política.
Como jogava em todas as posições, Morin também envolveu-se com o cinema - e sua participação não foi pequena. Em 1960, escreve um artigo no France Observateur com o título de "Pour un nouveau cinéma-vérité (Por um Novo Cinema-Verdade), manifesto em defesa de um cinema que pede uma aproximação inédita com o real filmado. Esse texto ganharia corpo no ano seguinte, com a parceria de Morin com Jean Rouch no notável documentário Crônica de um Verão. Nele, os realizadores saem às ruas de Paris munidos de uma câmera de 16mm e de um gravador. Entrevistam as pessoas, homens e mulheres de várias classes sociais e profissões, fazendo-lhes uma pergunta tão simples como complexa: "Você é feliz?".
Curiosamente ausente da maior parte dos obituários, essa relação de Morin com o cinema foi primordial para o estabelecimento de seu pensamento. Pensou, escreveu e realizou cinema, de 1945 a 1965. Vinte anos durante os quais publicou reflexões teóricas, lançou dois livros (Le Cinéma en L'Homme Imaginaire, 1956, e Les Stars, 1957), além da codireção de Crônica de um Verão. Dois decênios podem parecer pouco tempo para quem viveu mais de cem anos. Mas, durante esse período de contato próximo com o cinema, Edgar Morin começou a estabelecer as bases para a reflexão que o ocuparia pelo resto da vida. Não é pouca coisa.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.