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Dos 123 vencedores do Nobel de Literatura, apenas 19 são mulheres; veja quem são elas

Desde Selma Lagerlöf, em 1909, até Anne Carson, anunciada nesta quinta-feira, 8, relembre as escritoras que receberam o principal prêmio da literatura mundial

8 out 2026 - 14h46
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Resumo
A escritora canadense Anne Carson foi anunciada como a vencedora do Nobel de Literatura, tornando-se apenas a 19ª mulher laureada entre 123 premiados desde 1901. A baixa representatividade feminina histórica destaca-se pelo fato de que apenas seis autoras foram reconhecidas antes da década de 1990, a começar pela pioneira sueca Selma Lagerlöf, em 1909. Carson junta-se a nomes contemporâneos como Annie Ernaux e Han Kang, consagrada por sua prosa ousada em diálogo com a tradição clássica.

A Academia Sueca anunciou na manhã desta quinta-feira, 8, que a escritora canadense Anne Carson é a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.

O prêmio foi concedido 119 vezes desde 1901, mas teve 123 laureados porque, em quatro ocasiões, a Academia Sueca dividiu o Nobel entre dois autores. Entre todos esses ganhadores, a autora de Autobiografia do vermelho é a 19ª mulher a vencer o galardão.

Chama a atenção ainda que, das 19 mulheres laureadas, apenas seis tiveram seu trabalho reconhecido antes da década de 1990.

A primeira delas foi Selma Lagerlöf (1858-1940), que recebeu o prêmio em 1909. Nascida em Mårbacka, na Suécia, Lagerlöf foi uma das escritoras suecas mais conhecidas de seu tempo e publicou livros como A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson e A Saga de Gösta Berling. Em domínio público, a sua obra é publicada por diversas casas editoriais no Brasil.

O Nobel de Literatura só voltou para as mãos de uma mulher 17 anos depois, em 1926, quando foi entregue à italiana Grazia Deledda (1871-1936). Autodidata, ela começou a publicar ainda jovem e construiu uma obra marcada pela vida e pelas tradições da Sardenha, sua terra natal. Entre seus livros estão A Cidade do Vento, Contos Sardos e Caniços ao Vento. Sua obra também está em domínio público no Brasil.

Dois anos depois, em 1928, foi a vez da dinamarquesa radicada na Noruega Sigrid Undset (1882-1949). A escritora foi premiada principalmente pelas descrições da vida no Norte da Europa durante a Idade Média. Sua obra mais conhecida é a trilogia Kristin Lavransdatter, ambientada na Noruega medieval.

Dez anos depois, em 1938, o prêmio foi para a norte-americana Pearl S. Buck (1892-1973). Filha de missionários, ela passou boa parte da infância e da juventude na China, experiência que influenciou sua produção literária. O Nobel veio seis anos depois de Buck ganhar o Prêmio Pulitzer de Ficção, em 1932. Para justificar o Nobel, a Academia Sueca destacou suas descrições da vida de camponeses chineses e suas obras biográficas. Entre seus livros mais conhecidos estão A Boa Terra (Alfaguara) e A Grande Travessia (Best-Seller).

Em 1945, o Nobel foi concedido à chilena Gabriela Mistral (1889-1957), primeira escritora latino-americana a receber o prêmio. Poeta, professora e diplomata, Mistral foi reconhecida por uma poesia lírica inspirada por emoções poderosas e associada às aspirações idealistas da América Latina. No Brasil, sua obra está publicada em diversas antologias.

Passaram-se 21 anos até que outra mulher recebesse o Nobel de Literatura. Em 1966, a premiada foi a alemã Nelly Sachs (1891-1970), que dividiu o prêmio com o israelense Shmuel Yosef Agnon. De origem judaica, Sachs fugiu da Alemanha nazista para a Suécia em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Sua poesia e seu teatro foram marcados pela experiência da perseguição e do Holocausto. Não há atualmente edição comercial de sua obra no Brasil.

A lista voltou a crescer apenas em 1991, quando a sul-africana Nadine Gordimer (1923-2014) recebeu o Nobel. Ativista contra o apartheid, a escritora construiu uma obra profundamente ligada aos conflitos sociais e políticos de seu país. Entre seus livros publicados no Brasil estão os romances O Melhor Tempo é o Presente e O Engate e a coletânea de contos Beethoven era 1/16 Negro, todos publicados pela Companhia das Letras.

Dois anos depois, em 1993, o prêmio foi para a norte-americana Toni Morrison (1931-2019). Primeira (e até hoje única) mulher negra a receber o Nobel de Literatura, ela foi reconhecida por seus "romances caracterizados por força visionária e importância poética". Entre suas obras mais conhecidas estão Amada, O Olho Mais Azul e Jazz, também publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

Toni Morrison, a primeira (e até agora única) mulher a receber o Nobel de Literatura na Flip de 2006.
Toni Morrison, a primeira (e até agora única) mulher a receber o Nobel de Literatura na Flip de 2006.
Foto: Wilton Júnior/Estadão / Estadão

Em 1996, a vencedora foi a polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), uma das principais poetas do século 20. A Academia Sueca destacou sua poesia de "precisão irônica", capaz de revelar contextos históricos e biológicos em fragmentos da realidade humana. No Brasil, a Companhia das Letras publicou Para o Meu Coração Num Domingo e Um Amor Feliz.

A austríaca Elfriede Jelinek, nascida em 1946, recebeu o Nobel em 2004. A autora, que escreve romances, peças teatrais e poemas, foi reconhecida pelo uso particular da linguagem para expor os clichês e as relações de poder da sociedade. No Brasil, tem publicado Desejo (Tordesilhas), O que Aconteceu Após Nora Deixar a Casa de Bonecas ou Pilares da Sociedade (Temporal) e Elfriede Jelinek: Do Texto Impotente ao Teatro Impossível (Perspectiva), uma seleção de peças da autora organizada por Artur Sartori Kon.

Três anos depois, em 2007, foi a vez da britânica Doris Lessing (1919-2013). Nascida no Irã, então Pérsia, e criada na Rodésia do Sul, atual Zimbábue, Lessing construiu uma obra que atravessa questões políticas, sociais e relacionadas à experiência feminina. A Academia Sueca a chamou de "épica da experiência feminina". Entre seus livros publicados no Brasil estão As Avós (Companhia das Letras), Sobre Gatos (Autêntica) e Andando na Sombra (Companhia das Letras).

Em 2009, o Nobel foi concedido à romeno-alemã Herta Müller, nascida em 1953. Filha de uma família da minoria alemã na Romênia, a escritora abordou em sua obra a repressão do regime comunista, o exílio e a condição dos perseguidos políticos. A Academia Sueca destacou a concentração poética e a franqueza de sua prosa. Entre seus livros estão O Homem é um Grande Faisão no Mundo (Companhia das Letras), Sempre a Mesma Neve e Sempre o Mesmo Tio (Biblioteca Azul) e Tudo o que Tenho Levo Comigo (Companhia das Letras).

Quatro anos depois, em 2013, a canadense Alice Munro (1931-2024) recebeu o Nobel. Considerada uma das grandes mestras do conto contemporâneo, ela dedicou grande parte de sua obra a histórias ambientadas em pequenas comunidades e às complexidades das relações humanas. Entre seus livros estão Felicidade Demais (Companhia das Letras), Fugitiva (Biblioteca Azul) e Vida Querida (Companhia das Letras).

Svetlana Aleksiévitch participou da Festa Literária de Paraty (Flip), em 2016
Svetlana Aleksiévitch participou da Festa Literária de Paraty (Flip), em 2016
Foto: Laura Capelhuchnik/ Divulgação / Estadão

Em 2015, o prêmio foi para a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, nascida em 1948. Jornalista e escritora, ela desenvolveu uma forma de literatura documental baseada em depoimentos de pessoas comuns, dando voz a experiências coletivas como guerras, desastres e a dissolução da União Soviética. Entre seus livros estão Vozes de Tchernóbil, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, As Últimas Testemunhas e O Fim do Homem Soviético, todos publicados pela Companhia das Letras.

A polonesa Olga Tokarczuk, nascida em 1962, recebeu o Nobel de Literatura de 2018. Ao conceder o prêmio, a Academia Sueca destacou sua imaginação narrativa e sua capacidade de representar a passagem de fronteiras como uma forma de vida. Entre seus livros publicados no Brasil estão Sobre os Ossos dos Mortos, Terras de Empusas, A Alma Perdida e Correntes, todos publicados pela Todavia.

Em 2020, a vencedora foi a norte-americana Louise Glück (1943-2023). Ao dar o prêmio a Glück, a Academia destacou: "sua voz poética inconfundível que, com austera beleza, transforma a existência individual em universal". No Brasil, a Companhia das Letras publicou Receitas de Inverno da Comunidade, a antologia Poemas 2006-2014 e o seu discurso ao receber o Nobel.

Dois anos depois, em 2022, a francesa Annie Ernaux, nascida em 1940, recebeu o Nobel. A escritora transformou experiências pessoais, como a infância, as relações familiares, o aborto, o casamento e o envelhecimento, em uma obra que também investiga a memória coletiva e as estruturas sociais. Entre seus livros publicados no Brasil estão Paixão Simples, Armários Vazios, O Lugar e Os Anos, todos publicados pela Todavia.

Annie Ernaux também esteve na Flip, em 2022
Annie Ernaux também esteve na Flip, em 2022
Foto: Walter Craveiro/Flip 2022/ Divulgação / Estadão

Em 2024, o prêmio foi concedido à sul-coreana Han Kang, autora de A Vegetariana (Todavia). Nascida em 1970, Han Kang foi a primeira escritora de seu país a receber o Nobel de Literatura. O reconhecimento veio pela prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana.

Agora, em 2026, Anne Carson se tornou a 19ª mulher a receber o Nobel de Literatura. Nascida em Toronto, no Canadá, em 1950, a escritora, poeta, ensaísta e tradutora foi premiada "por sua obra ousada e criativa que, em um diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea". Sua obra inclui Autobiografia do Vermelho, romance em versos que recria o mito grego de Gerião, e Nox, além de trabalhos dedicados a autores da Antiguidade.

Estadão
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