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'Don Carlo', ambiciosa ópera de Verdi, volta ao Municipal após duas décadas, com drama político

Nova montagem, a quarta a ser encenada na capital paulista, tem direção cênica de Caetano Vilela e regência de Roberto Minczuk

17 set 2026 - 18h27
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Resumo
Após vinte anos, o Theatro Municipal de São Paulo volta a encenar Don Carlo, grandiosa ópera de Verdi, com direção de Caetano Vilela e regência de Roberto Minczuk. Rara nos palcos paulistanos por sua alta complexidade vocal e cênica, a obra ganha versão completa em cinco atos e figurinos de época. A trama resgata o drama histórico de Schiller sobre disputas amorosas e tensões políticas entre a monarquia e a Inquisição espanhola, contando com dois elencos de destaque em sete récitas de 18 a 25 de setembro.

Duas décadas depois, o Theatro Municipal de São Paulo volta a encenar uma das óperas mais ambiciosas de Verdi. Com dois elencos atraentes e equilibrados, direção cênica de Caetano Vilela e regência de Roberto Minczuk, e misturando intrigas amorosas e as fogueiras da Inquisição, Don Carlo tem sete récitas na casa, de 18 a 25 de setembro.

Embora a cidade tenha tradição italiana, e Verdi seja um dos compositores mais amados e encenados por aqui, não parece exagero dizer que Don Carlo é um cometa operístico, que passa em São Paulo uma vez a cada geração (se tanto). Afinal, esta é apenas a quarta montagem paulistana do título. A primeira, em 1892, ocorreu no Teatro São José, que ficava na atual Praça Doutor João Mendes (e foi destruído por um incêndio em 1898). A segunda, já no Municipal, ocorreu há exatos cem anos, em 1926. Quase oito décadas tiveram que se passar até que viesse a terceira, em 2004, com regência de Ira Levin e direção cênica de Gabriel Villela.

'Don Carlo', de Verdi, ganha nova montagem no Theatro Municipal após duas décadas
'Don Carlo', de Verdi, ganha nova montagem no Theatro Municipal após duas décadas
Foto: Larissa Paz/Theatro Municipal/Divulgação / Estadão

O motivo para tamanha escassez reside essencialmente na dificuldade de se colocar uma obra desta magnitude de pé. Com duração prevista de 270 minutos (com intervalos), Don Carlo estreou em 1867 na Ópera de Paris, que era então palco de espetáculos grandiosos conhecidos pelo sugestivo nome de grand opéra - uma espécie de equivalente do século 19 dos grandes blockbusters cinematográficos de hoje, com a marca da monumentalidade e confiando em efeitos cênicos e visuais impactantes.

Na capital francesa, a ópera foi cantada na língua local. O libreto foi posteriormente traduzido para o italiano, e Verdi fez várias revisões na partitura, incluindo uma versão reduzida, em quatro anos - a que foi encenada aqui em 2004. Agora São Paulo verá uma versão cantada em italiano, em cinco atos.

Naquela oportunidade, a concepção de Gabriel Villela incluía sete cães pastores alemães em cena, cantores calçando tênis e alusões a Che Guevara. Com sobrenome similar, porém sem parentesco com seu colega, Caetano Vilela optou por outro caminho: cenários abstratos e pintados a mão de toques expressionistas combinados com um uso expressivo da luz - marca do diretor - e figurinos "de época".

"Resolvi não contextualizar a ação em outro período. Afinal, a Inquisição pertence a uma fase histórica muito definida. E o público merecia ver a trama com o conceito da época em que é ambientada", diz o diretor. "Segui o libreto muito de perto, baseando-me muito no texto cantado. A história está toda lá".

Depois de Giovanna d'Arco (1845), I Masnadieri (1847) e Luisa Miller (1849), Don Carlo é a quarta e última ópera em que Verdi se baseia em peças de Friedrich Schiller (1759-1805), figura-chave do movimento estético conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto). Ambientada na Espanha do século 16, e tomando grande liberdade com relação aos fatos históricos, sua peça Don Carlos (1787) gira em torno do conflito entre o personagem-título, herdeiro do trono espanhol, e seu pai, o rei Felipe II, em que a luta pelo coração da princesa francesa Elisabete de Valois (prometida ao filho e dada em casamento ao pai) mescla-se ao embate político entre o liberalismo e o absolutismo.

Nova montagem da ópera 'Don Carlo', de Verdi, será fiel ao libreto original
Nova montagem da ópera 'Don Carlo', de Verdi, será fiel ao libreto original
Foto: Larissa Paz/Divulgação / Estadão

Ao transformarem o texto de Schiller em ópera, os libretistas Joseph Méry e Camille Du Locle também se permitiram liberdades com relação ao texto do dramaturgo alemão, especialmente no final: enquanto, na peça, Felipe II entrega seu filho à Inquisição, na ópera o personagem-título é salvo por um frade - a reencarnação ou espectro de seu avô, o imperador Carlos V. Vilela vê na aparição deste fantasma de um antepassado morto uma conexão com o Hamlet, de Shakespeare - autor da predileção tanto de Verdi, quanto de Schiller.

O diretor recorreu ao texto alemão original para resgatar os pontos que desejava reforçar na criação operística. "Schiller é super político, e Verdi mantém a tensão de poder entre igreja e monarquia, por exemplo, no começo do quarto ato, um dueto/duelo de dois baixos, Felipe II e o Grande Inquisidor. Esse momento é puro teatro", diz.

Além das questões cênicas, uma outra razão para as montagens de Don Carlo serem escassas entre nós são as exigências vocais. "São muitos protagonistas em papéis icônicos, numa das óperas mais ricas musicalmente que já regi", afirma o maestro Roberto Minczuk. Um dos elencos, que poderia ser definido como mais experiente, traz as vozes de Atalla Ayan (Don Carlo), Ailyn Pérez (Elisabete), Luiz-Ottavio Faria (Felipe II), Ana Lucia Benedetti (Eboli), Paulo Szot (Marquês de Posa) e Salomon Howard (Grande Inquisidor). O outro, mais jovem, reúne nos mesmos papéis, respectivamente, Matheus Pompeu, Ludmilla Bauerfeldt, Savio Sperandio, Juliana Taino, Michel de Souza e Valeriano Lanchas. "Tivemos, literalmente, um alinhamento das estrelas", festeja Minczuk.

"É um Verdi diferente e inovador, com grande escrita para o coro e passagem sinfônicas interessantes, como um quarteto de trompas e um grande solo para violoncelo", descreve o maestro. "Vejo aí a origem da Carmen, de Bizet. Bizet esteve na estreia de Don Carlo, em Paris. Na ópera de Verdi, a música de colorido espanhol é cantada por Eboli, uma mezzo-soprano. Pois bem: em Carmen, escrita oito anos depois, a protagonista também é uma mezzo, e a música também é espanhola", compara. "Não é plágio, é inspiração."

Regente e corpos estáveis do Municipal encaram a monumental obra verdiana logo após terem feito outra partitura longa, e ainda mais ambiciosa: Tristão e Isolda, de Wagner. "É bom fazer uma perto da outra, porque a gente desenvolve a musculatura e a concentração nessas óperas que cansam não apenas no aspecto físico e mental, mas também emocionalmente", diz.

E ele afirma ter identificado, durante as récitas da ópera de Wagner, o que ele chama de "efeito Netflix". "Tínhamos medo de que o público fosse embora nos intervalos, mas ele ficou no teatro. Acho que o hábito de maratonar séries em casa entrou na nossa cultura. As pessoas viram que podem tirar um sábado para maratonar um Wagner ou um Verdi."

Estadão
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