Cristovão Tezza: 'Se escrever é o maior prazer da minha vida, por que iria terceirizá-lo à IA?'
O escritor catarinense de 73 anos recebe, nesta quinta-feira, 23, o prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra; ao 'Estadão', autor reflete sobre a honraria, sua trajetória como professor e o que configura um best-seller
Há sete anos, o escritor catarinense Cristovão Tezza, de 73 anos, declarou que gosta de escrever pela manhã, ler à tarde e ver filmes à noite. Depois do almoço, ainda se dá ao luxo de tirar uma "sonequinha" de 30 a 40 minutos.
Fã de cineastas como Fellini, Bergman e Hitchcock, curte o cinema dos anos 1930 e 1940. "Gosto de esvaziar a cabeça com séries policiais de estrutura clássica: um cadáver, um legista, um detetive e, de preferência, um rolo de família".
Nesta semana, no entanto, Tezza abriu uma exceção em sua agenda e pegou um avião para o Rio de Janeiro (ele mora em Curitiba), onde comparecerá à Academia Brasileira de Letras (ABL). Nesta quinta-feira, 23, vai receber o Prêmio Machado de Assis e se juntar a nomes como Érico Veríssimo, Cecília Meireles e Fernando Sabino, premiados em 1953, 1965 e 1999, respectivamente.
A exemplo desses e de outros gigantes da literatura brasileira, Tezza nunca concorreu a nenhuma das 40 vagas da ABL. Mesmo assim, não descarta a hipótese de, um dia, se tornar um "imortal". "Não sonho com ela, mas quem sabe?".
Na volta para casa, ele pretende retomar, entre outros afazeres, a escrita de seu próximo livro, ainda sem título definido. Sabe-se apenas que será uma sequência de Beatriz e o Poeta, publicado em 2022.
"Beatriz e Gabriel agora vivem juntos, e a história inteira se passa em duas horas. Mas, para escrever, é claro, leva mais de um ano. Imagino que estará pronto no ano que vem", adianta.
Em entrevista ao Estadão, Tezza fala, além do Prêmio Machado de Assis, do tempo em que trabalhou como professor universitário, da importância de eventos literários para a difusão da cultura e do uso de IA em sua escrita.
"Para mim é uma questão engraçada: se escrever é o maior prazer da minha vida, por que diabos eu iria terceirizar minha escrita a uma máquina?", indaga o escritor com 47 anos de serviços prestados à literatura e 33 livros publicados.
Estadão - Ao longo de sua carreira, você ganhou, entre outros prêmios literários, o Jabuti, o APCA e o Brasil Telecom. Qual é a importância de ganhar o Machado de Assis? É um prêmio como outro qualquer ou é diferente dos demais? Por quê?
Cristovão Tezza - Certamente, é diferente, até por ser um prêmio pelo conjunto da obra e não por um livro específico... E a Academia Brasileira de Letras tem um peso diferenciado pelo que representa e sintetiza simbolicamente no imaginário da cultura e da literatura brasileiras. Com todas as suas contradições ao longo da história, o Brasil ama e respeita a Academia fundada por Machado de Assis. Foi uma grande alegria, e uma surpresa absoluta, ser contemplado.
Em algum momento, cogitou a hipótese de se candidatar a uma das 40 vagas da Academia Brasileira de Letras? Por quê? Ser imortal não chega a ser um sonho ou não se vê pleiteando votos dos acadêmicos?
É um projeto que não estaria na minha cabeça de jovem rebelde dos anos 1960 e 1970, a era da utopia da contracultura e do horror a tudo que fosse oficial.
Mas os anos e as décadas passam — o Brasil e o mundo se transformaram, e, se temos sorte de acompanhar o tempo, também mudamos ao longo da vida; a própria evolução da produção literária pessoal atesta isso. E a Academia, uma instituição centenária, tem um peso cultural e político especialmente importante. Não sonho com ela, mas quem sabe?
'O Filho Eterno', de 2007, é um de seus livros de maior sucesso. Ganhou versões (tanto para o teatro quanto para o cinema) e traduções (para países como França, China e Inglaterra, entre outros). O que um livro precisa ter para se tornar um best-seller?
Ninguém sabe exatamente; é um mistério. Best-sellers não são fenômenos previsíveis. Circulam teorias conspiratórias de todo tipo sobre a fabricação de sucessos, mas não há campanha publicitária capaz de inventar um best-seller se os leitores não gostam do livro.
Todo best-seller responde a uma demanda cultural, afetiva e social de seu tempo; ele sempre toca em algum nervo que, naquele momento, está em busca de uma resposta. É sempre um documento de uma época. Obviamente, não há uma relação necessária entre qualidade literária e sucesso de vendas (além disso, o mundo dos gêneros literários é amplo e generoso — a literatura jamais se resume a uma forma só), mas é importante entendê-los.
Para a literatura, best-sellers são fenômenos positivos, que valorizam espontaneamente a circulação do livro, do debate e da leitura — até para falar mal deles.
Entre ficção e não ficção, você tem 33 livros publicados. Se, em um incêndio de grandes proporções, você tivesse que salvar apenas um deles, qual salvaria? Qual deles melhor traduz a sua literatura? E por quê?
Eu não fui (e acho que ninguém é) o mesmo escritor ao longo do tempo. É como se cada época da vida encontrasse a sua linguagem.
Da juventude, eu gosto do romance Trapo, meu primeiro livro que ficou em pé e que me lançou nacionalmente. Dos meus tempos metódicos de professor no Brasil pré-internet, A Suavidade do Vento e O Professor.
Da minha maturidade emocional (digamos assim, esperançosamente), O Filho Eterno. Se pensar na percepção da meia idade no mundo que se abriu no século 21, O Fotógrafo, A Tirania do Amor e A Tensão Superficial do Tempo.
Finalmente, o acerto de contas com a vida, as coisas que só se escrevem depois dos 70, Visita ao Pai.
E há também o que eu chamo de "divertimentos narrativos", os livros com a personagem Beatriz — A Tradutora e Beatriz e o Poeta, por exemplo.
Enfim, não saberia escolher um único livro. Certamente há algum ponto em comum em todos eles, mas eu não sei qual é.
Durante muito tempo, você trabalhou como professor de Língua Portuguesa. Chegou a dar aula em universidades públicas como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Sente saudade? Qual foi a lição mais importante que aprendeu como professor?
Quando eu deixei de fumar, 40 anos atrás, passei meses sonhando com cigarro todos os dias. Quando deixei a universidade, jamais sonhei que estava dando aulas.
Brincadeira à parte, eu saí por duas razões, a primeira bastante prática: o sucesso de O Filho Eterno me encorajou a largar a boia de segurança de um salário fixo (eu teria de esperar ainda dez anos para me aposentar pela universidade; "bicho grilo" dos anos 70, comecei a trabalhar com carteira assinada só depois dos 30). E também porque o meu projeto acadêmico, depois de mestrado e doutorado, já estava encerrado e a ficção passou a ocupar integralmente a minha cabeça. Até me demitir, foram 20 anos metódicos, de aprendizado, disciplina intelectual e contato com os estudantes — um período ótimo da minha vida que centrou minha cabeça.
Você é um dos convidados da próxima edição da 2ª Bienal Internacional do Livro de Jaraguá do Sul, que acontece em agosto. Qual é a importância desses eventos para a literatura brasileira? Ajuda a formar novos leitores? Por quê?
O surgimento e a multiplicação dos eventos literários (graças à lei Rouanet, é bom lembrar) foram o grande acontecimento na vida do escritor brasileiro nos últimos vinte ou trinta anos. Eles praticamente não existiam no século passado. A ideia de um escritor viver do livro era uma utopia inalcançável, milagres raríssimos entre nós.
Hoje, as feiras literárias, encontros e bienais acontecem em toda parte, abrindo um espaço importante de estímulo e circulação do livro e da leitura. Com certeza, ajudam a formar leitores; os eventos fazem da leitura um valor social importante. E são um contraponto presencial à fragmentação frenética do mundo digital.
Dois de seus autores favoritos são Arthur Conan Doyle e George Simenon. Nunca pensou em escrever um romance policial? Ou esse é um daqueles projetos que está guardado na gaveta esperando o momento certo para publicar?
É verdade; criança, fui leitor fiel das histórias de Sherlock Holmes, e Simenon é um autor que leio com prazer até hoje. O policial, de certa forma, é um gênero iluminista: é o triunfo da razão sobre o caos da realidade. O detetive é aquele que junta os pedaços do caos, dando-lhes um sentido.
Eu flertei com o gênero em alguns livros, como em Juliano Pavollini e, principalmente, O Fantasma da Infância, mas as narrativas sempre transbordam em outra direção. Do gênero policial eu valorizo o suspense, uma categoria moderna, que trabalha com a ideia de um futuro incerto. No mundo antigo e nas culturas circulares, já se sabe tudo por princípio, um fenômeno que talvez esteja ressurgindo hoje.
Mas, num aspecto, a minha inveja dos autores policiais se realizou: o personagem que passa de um livro a outro. O escritor já tem o personagem, o clássico detetive; só inventa uma nova história. A minha personagem Beatriz, que surgiu com 20 anos em alguns contos e passou aos romances, realizou esse meu desejo. Agora mesmo, estou escrevendo um livro com ela, já beirando os 50 anos.
Seu primeiro livro, o romance 'Gran Circo das Américas', foi publicado em 1979. Quarenta e sete anos depois, a IA impacta sua escrita literária? No futuro, robôs substituirão escritores?
Para mim é uma questão engraçada: se escrever é o maior prazer da minha vida, por que diabos eu iria terceirizar minha escrita a uma máquina? Entendo a literatura como uma viagem ética de percepção e reconhecimento do mundo, pessoal e intransferível: é a minha linguagem — sou eu que estou em jogo quando escrevo. É só nesse terreno que, para mim, faz sentido partilhar minha ficção com o leitor. Como diz o Sérgio Rodrigues no ótimo título de seu livro sobre o tema, "escrever é humano". Ponto.
Isso posto, é inegável o impacto da inteligência artificial na produção contemporânea de textos. É impressionante, por exemplo, a rapidez com que as traduções instantâneas evoluíram, em pouquíssimos anos, de estruturas capengas a um padrão de correção, nuances e detalhes próximos da perfeição. Tudo que é instrumental na linguagem se beneficia da IA, sem dúvida. Bem, tenho clareza de que essa é uma discussão que está apenas começando, com consequências monumentais no mundo inteiro e em todas as áreas. Enquanto isso, escrevo.
Se você, aos 73 anos de idade e 47 de literatura, tivesse que dar um conselho para quem está pensando em ganhar a vida como escritor, que conselho daria: "Desista enquanto há tempo" ou "Acredite nos seus sonhos"?
Os dois conselhos são bons, porque escrever é tanto uma alegria quanto uma viagem sem volta. O ato de escrever nos transforma — há uma inocência que se perde. Mas acho que estou falando de um outro plano literário. Se a ideia é só "ganhar a vida", desconfio de que há profissões infinitamente mais seguras e lucrativas do que escrever ficção.
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