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Elenco de ‘Bacurau’ fala de Bolsonaro, censura e Marielle

Atores e diretores discutiram o filme premiado pelo Festival de Cannes e o Brasil que o recebe

22 ago 2019
10h00
atualizado às 21h51
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Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux em Pernambuco
Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux em Pernambuco
Foto: Victor Jucá / Divulgação

Foram quase 10 anos para a realização desse projeto. E conforme os projetores se acendem e os áudios se ajustam ao volume perfeito —“é 7”, brinca Sônia Braga, com o perfeccionismo de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, o que fica é uma mistura de orgulho, de embrulho de estômago e, mais importante, de reconhecimento. 

Bacurau levou o Prêmio do Júri na competição principal do Festival de Cannes, em maio deste ano, honraria que dividiu com o Les Miserábles, e, mais recentemente, a conquista foi dupla: ganhou o 23º Festival de Cinema de Lima e o prêmio de melhor direção. Por onde passa, comove. E não seria diferente em São Paulo.

Durante o encontro com a imprensa, que ocorreu na terça-feira, 20, na capital paulista, o elenco e diretores do filme comentaram detalhes sobre a repercussão do filme pela imprensa nacional e internacional, assim como bastidores da produção. Não deixaram de falar também sobre alguns assuntos polêmicos, como as atuais políticas do governo Bolsonaro para a Cultura, a censura e prestaram novamente homenagem a Marielle Franco.

Bolsonaro e a censura

Kleber Mendonça Filho contou que, após a premiação de Cannes, uma repórter na França o questionou se havia planos de mostrar Bacurau para Bolsonaro, após contar que Emmanuel Macron, presidente da França, havia pedido para ver Les Miserables (filme que disputou e dividiu o prêmio do júri com a obra brasileira). 

“A gente não tem jurisdição para saber o que o presidente vai achar do filme”, comentou o diretor. “O  filme foi feito com dinheiro público e, ele, como cidadão brasileiro, tem todo direito de ver, mas eu não sei o que ele acharia. Quem sabe ele pode até gostar?”

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles durante o Festival de Cinema de Cannes, na França
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles durante o Festival de Cinema de Cannes, na França
Foto: Stephane Mahe / Reuters

Também durante a entrevista, o elenco comentou sobre as acusações de censura que o governo tem sofrido. De acordo com o AdoroCinema, no dia 16 de agosto, durante um pronunciamento, o presidente Jair Bolsonaro, barrou a possibilidade de captação de recursos para projetos relacionados à pluralidade sexual e de gênero, mencionado nominalmente as obras que seriam vetadas. Entre elas estão Afronte e a série Transversais.

Segundo Juliano Dornelles, o clima tem afetado as coletivas e a divulgação do filme. “Desde Cannes e por causa da situação política no Brasil, que eu posso descrever como instável, há muitas perguntas teóricas. E a gente não tem como responder”. Sobre a censura, no entanto, o diretor foi enfático: “Na Constituição de 1988 diz que não há censura.Não há censura.”. “Censura nunca mais”, completou Sônia Braga.

‘Bacurau’: a mensagem por trás do filme

“Eu nunca fiz nenhum filme, e também, quando eu era crítico de cinema, eu nunca escrevi nada com a intenção de passar uma mensagem”, conta Kleber Mendonça Filho. Depois de assistir a Bacurau, no entanto, é muito difícil não traçar analogias e fazer associações ao cenário político atual brasileiro. 

Cena de 'Bacurau'
Cena de 'Bacurau'
Foto: IMDB / Reprodução

Para Karine Teles, que interpreta a forasteira no filme, Bacurau é um milagre da arte. Já que começou a ser pensado há algum tempo (e chega em “um momento em que ele faz muito sentido, e que”, segundo a atriz, “cria muitos outros em quem está assistindo”. “A gente não tinha como prever o que iria acontecer. 

Na opinião de Sônia Braga, que dá vida a Domingas no longa, Bacurau é, na verdade, sobre ter esperança. “É um filme que está no futuro. E a minha esperança é que traga uma revisão, que as pessoas assistam a esse filme e se coloquem na posição de rever o Brasil, porque no fundo todo mundo quer a mesma coisa. Ter esperança e ter debate é o mais importante nesse momento.”  “Eu acho muito importante que a gente tenha a consciência de não responsabilizar a arte por uma transformação. Nós, artistas, temos muito a função de, exatamente isso, questionar, provocar”, completou Silvero Pereira, o Lunga

Sônia Braga como Domingas em 'Bacurau'
Sônia Braga como Domingas em 'Bacurau'
Foto: Cinemascópio / Divulgação

Foi também durante a coletiva que Sônia Braga reforçou a sua homenagem à vereadora Marielle Franco, morta em 2018. “O que eu disse em Gramado, é que eu dediquei a minha personagem à Marielle, e eu quero saber, sim, quem mandou matar Marielle?”. A artista contou que estava em Barra, em Pernambuco, lugarejo que serviu de cenário para a cidade de Bacurau, no filme, quando a vereadora foi morta. “Nós vivemos muita coisa, e nós vivemos também este momento.”  

Motivações, estreia e a volta para casa

Mesmo afirmando que Bacurau não contém nenhuma mensagem, tanto Kleber como Juliano discorreram sobre as motivações por trás do filme. “A gente vive num país que é muito rico em absurdos. Rico em contradições, rico em violência, rico em deseducação, isso é alimento para mais de dois mil filmes.Bacurau é só mais um”, disse Juliano. (Mais que filme, amigos!)

Além disso, o filme traz “observações”, como explica Kleber, sobre a vida no mundo, no Nordeste, no Brasil, sobre ser latino-americano, ser brasileiro em relação ao mundo. Mas “não são observações absolutas, elas são localizadas, e vêm de uma bagagem pessoal que é minha, que é de Juliano, que é, na verdade, de toda uma equipe”, diz. 

Bacurau estreia dia 29 de agosto nos cinemas do Brasil inteiro e também em casa, em Barra, cidade que serviu de cenário para a Bacurau de Klebber Mendonça, Juliano Dornelles e elenco. Confira a crítica

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Fonte: Equipe portal
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