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Clássico do Dia: Baseado em história real, 'A Um Passo da Liberdade' mostra uma fuga incrível

Todo dia um filme será destacado pelo crítico do 'Estadão'; como esse, que foi último filme de Jacques Becker, diretor apadrinhado por François Truffaut

2 jul 2020
08h56
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Robert Bresson, que Jean Mitry chamava de jansenista da mise-en-scène, realizou em 1956 um de seus filmes de maior prestígio - Um Condenado à Morte Escapou. Baseado no relato do comandante André Devigny, preso numa cadeia nazista, reconstituiu minuciosamente seu plano de fuga. Se o ideal de cinema de Bresson era uma parede branca e um não ator recitando sem emoção o texto, Um Condenado pode ser considerado um de seus trabalhos mais rigorosos e acabados. François Leterrier, que faz o papel, virou diretor, e não dos mais expressivos. Três anos mais tarde, Jacques Becker contou outra história de fuga da cadeia - Le Trou, literalmente O Buraco, no Brasil A Um Passo da Liberdade.

Houve muitas histórias de fugas no cinema, mas como essas, não há. Na sequência, Hollywood criou até um gênero específico, o filme de guerra sobre fuga de campo de prisioneiros, do qual Fugindo do Inferno, de John Sturges, de 1964, virou o emblema. Dez anos antes, num de seus textos mais conhecidos - Les Truands Sont Fatigués, na Cahiers de abril de 1954 -, François Truffaut fez sua apresentação de Jacques Becker. O filme da vez era Touchez Pas au Grisbi/Grisbi, Ouro Maldito e, segundo o crítico, não havia teorias sobre o autor, nenhum estudo acadêmico, nenhuma análise mais aprofundada. Nem seu trabalho, nem ele suscitavam comentários especiais, e assim era melhor, refletia Truffaut. Um filme de Jacques Becker era um filme de Jacques Becker, e isso devia ser tudo. Bastava essa identificação. Até certo ponto ele era um desafio para a crítica, porque não era um estilista como Bresson. Becker contava histórias muito diversas - sobre o mundo da moda (Falbalas), o bas-fond de Paris na Belle Époque (Amores de Apache), os policiais e os gângsteres (Grisbi), a pintura de Modigliani (Os Amantes de Montparnasse). Fez até um Fernandel, Ali Babá e os 40 Ladrões, que só Truffaut, em sua radical defesa da politique des auteurs, defendeu.

O que ninguém poderia imaginar é que A Um Passo da Liberdade seria o último filme de Becker, devendo estrear após sua morte prematura, aos 54 anos. A história é real e passou-se em 1947. Gaspard, um vendedor de carros, vai preso, acusado de tentar matar a mulher endinheirada, durante uma briga doméstica. Na Santé, divide a cela com outros quatro homens - Roland, Manu, Monsenhor e Geo. Gaspard ganha a confiança do grupo e eles acabam por revelar que estão cavando um buraco, como parte de um plano para fugir. Na história real, o plano frustrou-se porque um dos cinco delatou os colegas. Essa história foi amplamente divulgada na imprensa da época e Becker, inclusive, guardou os recortes como possível material para um filme.

Dez anos mais tarde, um ex-detento, José Giovanni, publicou um livro, que Becker leu. Identificou a história. Disposto a comprar os direitos, encontrou-se com o escritor e descobriu que havia sido herói da resistência antinazista, mas depois participou de um assalto que reultou em morte. Foi condenado à pena capital, mas pelo seu passado, e por ficar confirmado que não teve participação direta na morte, teve a pena comutada. Virou autor, colaborou no roteiro, mais tarde tornou-se ele próprio diretor. Giovanni contou a Becker detalhes que não estavam no livro. Terminou por admitir que era um dos cinco. Estava convencido de que ia morrer na guilhotina, e não lhe restava alternativa senão a fuga. Essa visão de 'dentro' perturbou o diretor.

Seu último filme anterior havia sido o Modigliani, que nem era um projeto dele, mas que aceitou fazer após a morte prematura do autor original, Max Ophuls. Tudo o que Becker queria, após sua experiência com a pintura, era mudar de registro. A partir do envolvimento de Giovanni, decidiu que iria eliminar tudo o que poderia ser espetacular no plano de fuga e concentrou-se nos detalhes. Elegeu a minúcia, num formato quase documental - uma ficção nas bordas. Filmou na Santé, que estava sendo desativada - o último presídio no período urbano de Paris. Trouxe um ex-presidiário, Jean Keraudy, para o papel de Roland, o autor intelectual da fuga. Buscou atores pouco conhecidos e até desconhecidos para o elenco predominantemente masculino - Michel Constantin, Phillipe Leroy, que faz Manu/Giovanni, Marc Michel, como Gaspard. A única participação feminina importante é da jovem Catherine Spaak, mesmo assim, sem crédito.

Pela precisão dos detalhes da reconstituição, A Um Passo da Liberdade liga-se a outra vertente - os filmes de assalto perfeito, que John Huston (O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle, de 1950) e Stanley Kubrick (O Grande Golpe, de 1956) haviam desenvolvido nos EUA e o exilado, pelo macarthismo, Jules Dassin transplantara para a França (Rififi/Du Rififi chez les Hommes, de 1954). A filmagem foi complicada. Becker já não estava bem. Vinha sofrendo de uma insuficiência hepática, tinha problemas no coração. Estava fragilizado. Para sentir-se seguro, integrou dois filhos à equipe - o futuro diretor Jean Becker, como assistente, e Sophie como scriptgirl. Chegou a um ponto de sofrimento físico que Jean teve de filmar algumas (muitas?) cenas, além de se encarregar da montagem. Discutia cada cena com o pai, a intenção, o ritmo. A mulher de Becker, a atriz Françoise Fabian - admirável intérprete de Minha Noite com Ela/Ma Nuit chez Maud, de Eric Rohmer, de 1969 -, acabara de ter um filho dele. Suplicava a Truffaut, que seguia o projeto, para manter segredo sobre o estado de saúde do marido. Becker esperava recuperar-se. Temia que, se a indústria soubesse como seu estado era precário, encerrasse sua carreira.

Truffaut tinha por ele uma admiração sem limites. Dizia que Jean Renoir já era um gênio desde os anos 1930, mas Becker construíra sua trajetória justamente a partir do momento em que ele próprio, como garoto, descobrira o cinema. Sua geração testemunhara o esforço do diretor para ser autoral. Pois, apesar da diversidade aparente dos filmes, Becker era um autor. Em sua abordagem de A Um Passo da Liberdade, ao abrir mão do espetáculo, renunciou também a todo artifício para chegar à essência da história. Desistiu da música e concentrou-se no som. Olhares, gestos constroem a tensão, o suspense. A fuga fornece a história, o quadro, mas seu tema é o confinamento dos homens. Não sabemos quase nada sobre eles, nenhuma informação sobre os motivos pelos quais estão presos, exceto Gaspard. Para o relato, é importante somente como agem - como reagem. A solidariedade, a traição. Sentimentos viscerais. Numa cena particularmente forte, desmorana uma galeria que está sendo escavada. Os homens podem morrer. Roland e Geo dão-se as mãos. Roland consegue puxá-lo, salva sua vida.

Apesar da precariedade física, Becker tinha confiança na recuperação e já sonhava com o próximo filme. Chegou a contactar Orson Welles para interpretar Vacance à Novembre. O roteiro, nunca filmado, tornou-se conhecido. Um soldado, durante a 1.ª Guerrra, goza de um dia de licença. Pensa nos camaradas que estão no front. Antecipa a volta, mas, naquele dia, é assinado o armistício. A guerra termina. Becker queria mostrar esse momento de desmobilização, em que o soldado desacelera para voltar à vida civil e já não sabe quem é. Tem muito a ver com o sentimento embutido em Le Trou - esse buraco tem camadas, é metafórico. Becker morreu em 21 de fevereiro de 1960. A Um Passo da Liberdade estreou em 18 de março. Apesar do entusiasmo de Truffaut - e da Cahiers -, o filme fracassou na bilheteria e o produtor Serge Silberman cortou 20 minutos para tentar torná-lo mais comercial. Esses 20 minutos perderam-se. Nunca foram recuperados nas tentativas de restauro.

Numa atitude rara na época, Becker dispensa o título e os créditos iniciais, fica tudo para o fim. Ele lança de cara o espectador no universo claustrofóbico. Por sua narrativa sem efeitos, o filme, mesmo com os cortes, segue singularmente moderno. O final, e aqui cabe avisar que tem spoiler, revela um duplo twist. No universo de durões da cela, Gaspard é fraco. Às vésperas da fuga, é chamado ao gabinete do diretor, que lhe informa que sua mulher retirou a queixa e ele será libertado. De volta à cela, os companheiros desconfiam de que ele delatou, mas seguem com o plano. Na hora H, os guardas intervêm. Os quatro são despidos e levados para a solitária. Gaspard, também. Foi traído pelo diretor do presídio. Independentemente do recuo de sua mulher, a lei segue o curso. A última frase é de Roland - o filme fecha-se em sua cara. "Pauvre Gaspard." Há um tanto de compaixão nessa derradeirta afirmação de força (viril?). Pobre Gaspard.

Filme pode ser visto em DVD.

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Estadão
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