Brasil na Bienal de Veneza: Conheça o projeto histórico que une Adriana Varejão e Rosana Paulino
O pavilhão brasileiro apresentará, em maio, 'Comigo Ninguém Pode' na mostra italiana, projeto liderado pela curadora Diane Lima e ancorado pelo diálogo entre as obras das artistas; leia entrevistas
No centro do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, há uma enorme viga no teto que, historicamente, serviu como divisão para quando dois artistas compartilhavam o espaço da exposição. A proposta de Comigo Ninguém Pode, projeto liderado pela curadora Diane Lima e composto pelas artistas Adriana Varejão e Rosana Paulino, é o oposto disso.
Anunciada em outubro do último ano e agora em fase final de preparação, a mostra que o Brasil levará à 61ª Exposição Internacional de Arte - La Biennale di Venezia, de 9 de maio a 22 de novembro, é totalmente enraizada no diálogo entre os trabalhos de Adriana, carioca de 61 anos, e Rosana, paulistana de 59 - ambas figuras renomadas com mais de três décadas de carreira nas artes.
"Desde o início, o projeto já tinha como proposta a ideia de uma exposição instalativa que contemplasse ambas as artistas. Ou seja, nunca se tratou de dois projetos individuais, mas antes disso, um projeto que, de fato, nascesse a partir de um diálogo", explica Diane, curadora e pesquisadora baiana de 40 anos escolhida pela Fundação Bienal de São Paulo para liderar a exposição.
Os trabalhos de Adriana e Rosana já possuem um diálogo temático, já que ambas abordam uma "reescrita da história colonial", como descreve Diane. Mas o Comigo Ninguém Pode também propôs uma pesquisa de composição e material, de maneira que essa aproximação histórica pudesse ser ampliada em novos trabalhos e na forma como as obras seriam apresentadas na exposição.
A partir da curadoria inspirada pela planta popular, refletindo não só sobre proteção, toxicidade e resiliência, mas sobre o sincretismo religioso brasileiro e a nossa relação com a natureza, a exposição foi toda pensada com esse caráter de instalação, de usar o espaço do pavilhão para compor a mostra.
"As obras não estão loteadas dentro do pavilhão em determinados espaços. Elas estão o tempo todo se relacionando, se ecoam, se espelham, evoluem juntas e se complementam", afirma Adriana.
Quem visitar o local - um espaço modernista projetado em 1964 por Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti - vai se deparar ali, no teto daquela viga, com 12 telas inéditas da artista com cerca de 1,5 metro de dimensão cada, criadas especialmente para este projeto. De forma perpendicular à viga, na segunda sala, estará um trabalho histórico de Rosana: a instalação Tecelãs, de 2003, repensada para a arquitetura do Pavilhão.
"Tinha essa importância de também ter as obras anteriores. Somos artistas com mais de 30 anos de carreira. Não dá para simplesmente ocupar um espaço como se não tivesse uma história anterior. Foi proposta a colaboração e aconteceu", comenta Rosana.
As novidades também vieram com desafios. A umidade do pavilhão e da cidade de Veneza poderia causar problemas na conservação de alguns tecidos experimentais utilizados por Rosana. "Produzi duas peças novas da série Atlântico Vermelho, usando um outro material muito mais pesado, uma lona, pensando várias maneiras de impermeabilizar. O pavilhão brasileiro está junto ao canal, é uma condição climática", explica.
"Ao longo desse processo, o trabalho foi evoluindo diante dos diálogos e das sugestões. A própria obra de entrada do pavilhão, que é uma espiral, foi uma sugestão da Diane de incorporar a espiral como esse emblema de um tempo que não é linear", conta Adriana. A artista também cita um trabalho realizado nas paredes do pavilhão, diretamente influenciado pela troca com Rosana.
"Essas ruínas geralmente são construídas com carne, mas, ao longo da proposta do pavilhão, do convívio com as obras da Rosana, essa carne se transubstanciou em outros elementos, inclusive o devir vegetal, que é uma coisa que vem do trabalho dela, esse corpo que se transubstancia em planta. O único sentido de fazer um trabalho em comum é realmente ser afetado pelas outras pessoas, pelo trabalho do outro. Eu acho que isso foi completamente possível nesse caso", diz.
Arte brasileira
O Brasil tem tido participações significativas nas últimas edições da Bienal de Veneza. Em 2024, o curador da exposição principal foi o brasileiro Adriano Pedrosa, atual diretor artístico do Masp e foi o primeiro latino-americano a ser escolhido para o cargo. Naquele ano, o Brasil levou a arte indígena para o pavilhão do País, com Glicéria Tupinambá e convidados, e curadoria de Arissana Pataxó, Denilson Baniwa e Gustavo Caboco Wapichana.
Em 2026, a Bienal tem como tema In Minor Keys, conduzido pelo coletivo de curadores formado por Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Helene Pereira, Rasha Salti, Siddhartha Mittere e Rory Tsapayi, após a morte inesperada da curadora Koyo Kouoh, idealizadora do conceito, em maio de 2025. No pavilhão principal, estarão obras de três brasileiros: Ayrson Heráclito, Dan Lie e Eustaquio Neves.
"Eu não vejo uma continuidade, porque cada proposta é uma proposta. São múltiplos momentos, na realidade", afirma Rosana. "Temos essa expansão da arte brasileira, e que vai se dar, por exemplo, por feira, por exposição, por Bienal. O que eu poderia dizer em relação à exposição que estamos propondo é que ela pode trazer um olhar amplo sobre duas produções que têm influenciado bastante gerações novas."
Para Diane, ter duas artistas com uma longa trajetória e que há ao menos três décadas trabalham com "essa reinscrição da história, principalmente olhando para a história do colonialismo, nos traz um bom reflexo sobre um debate que já temos feito há bastante tempo no Brasil e que encontra no mundo hoje o seu lugar e o seu protagonismo."
"Afinal de contas, se pensarmos no Brasil como esse grande laboratório racial, existe aí uma contribuição do ponto de vista de uma necessidade de justiça e de redistribuição da qual temos responsabilidade. Nesse momento, o pavilhão se posiciona olhando para essa história, mas também ocupando esse espaço de um modo que nunca havia sido ocupado antes", completa a curadora.
Ela se refere ao fato de que é a primeira vez que três mulheres estão à frente do pavilhão brasileiro, além de ser a primeira participação de uma curadora e uma artista negra.
"A arte brasileira hoje tem essa ocupação desse espaço num cenário global muito por conta também do que temos reinventado enquanto noção de Brasil. Um Brasil que deixa de se ver a partir e somente em contraponto com uma arte euro americana, mas um Brasil também olha para as suas próprias origens, olha para um Brasil afro-indígena que nunca foi olhado, olha para um Brasil que tem responsabilidade sobre a sua história. Acho que é esse Brasil que veremos projetado no nosso pavilhão", afirma.
Nos momentos finais de preparação, prestes a embarcarem para Veneza, Diane, Rosana e Adriana estão com altas expectativas para a recepção de Comigo Ninguém Pode. Reforçam que esse processo todo poderia ter levado a brigas de ego, mas a harmonia reinou, com três mulheres ligadas por um mesmo propósito.
"Juntar forças, poder interagir e construir algo em conjunto é uma experiência maravilhosa e um exercício lindo de existência e criação", afirma Adriana. Rosana logo completa: "Estou muito feliz. É histórico, sem dúvida nenhuma". "Na Bahia a gente fala muito assim: 'Me arrepiei toda'. É isso. Eu gostaria que as pessoas se arrepiem quando entrem exposição", finaliza Diane.
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