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O que faz de Terence Tao 'o melhor matemático vivo do mundo'

Ele entrou no Ensino Médio com sete anos; aos 21, já tinha doutorado e, em seguida, se tornou professor titular da Universidade da Califórnia.

18 abr 2026 - 15h13
(atualizado às 15h19)
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Terence Tao é professor na Universidade da Califórnia, em Los Angeles
Terence Tao é professor na Universidade da Califórnia, em Los Angeles
Foto: Steve Jennings/Getty Images for Breakthrough Prize / BBC News Brasil

Quando Terence Tao tinha sete anos, começou a frequentar o ensino médio para estudar matemática e outras disciplinas.

"Lembro que colocaram uma almofada especial na cadeira porque eu não alcançava a mesa", contou à BBC Mundo, de Los Angeles, onde leciona e pesquisa há mais de 25 anos.

Tao nasceu na Austrália em 1975. Seus pais, Billy e Grace, haviam chegado ao país vindos de Hong Kong.

Quando começou a ter aulas no ensino médio em seu país natal, ele era tão pequeno que os professores designaram um estudante para acompanhá-lo até as salas de aula, caso pudesse "se perder".

"Eu parecia diferente dos outros porque era cinco anos mais novo, mas depois de algumas semanas isso já não importava tanto, porque todos tínhamos dificuldades com as mesmas tarefas — estávamos praticamente no mesmo nível."

Esse prodígio se tornou um dos matemáticos mais destacados da história da disciplina.

"Tao, apelidado de 'Mozart da matemática' e amplamente considerado o melhor matemático vivo do mundo, transformou vastas áreas da matemática", afirma a Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), onde ele trabalha.

Em 2006, quando ganhou a Medalha Fields, considerada o Nobel da matemática, sua habilidade para resolver problemas foi descrita como "suprema", e o impacto de seu trabalho em várias áreas como "espetacular".

"Ele combina um poder técnico puro, uma engenhosidade quase de outro mundo para encontrar novas ideias e um ponto de vista surpreendentemente natural, que faz outros matemáticos se perguntarem: 'Por que ninguém viu isso antes?'".

Números para limpar

Terence Tao conta que, desde que se lembra, sempre gostou de números e jogos relacionados a eles.

"Uma das primeiras lembranças que tenho é de quando eu tinha três ou quatro anos: minha avó ia até nossa casa limpar as janelas, e eu pedia para que ela fizesse números com o sabão no vidro. Eu dizia: 'coloque o 3 ali e o 7 lá'."

Ele se lembra de quando ficava muito agitado durante a noite e seus pais lhe davam livros com exercícios de matemática para ele fazer contas e operações.

"Eu adorava fazer a lição de aritmética. Acho que era uma das poucas crianças que realmente gostava disso."

Mas o interesse pelos números começou ainda antes.

Pelos relatos dos pais, quando tinha dois anos, ele ensinava outras crianças mais velhas a contar, somar e soletrar.

Depois, percebeu que a matemática era muito mais do que uma espécie de jogo ou fazer cálculos rapidamente; descobriu que "podia ser usada para entender o mundo e que tinha aplicações práticas".

Aos 5 anos, com sua mãe, Grace, que nasceu em Hong Kong. Ela se formou em Matemática com honras e trabalhou como professora de matemática e ciências
Aos 5 anos, com sua mãe, Grace, que nasceu em Hong Kong. Ela se formou em Matemática com honras e trabalhou como professora de matemática e ciências
Foto: Arquivo pessoal/Terence Tao / BBC News Brasil

Seu talento excepcional fez com que, aos sete anos, sua família e seus professores decidissem adiantá-lo para cursar matemática e outras matérias ligadas às ciências no ensino médio.

"Ainda frequentava o ensino fundamental para estudar disciplinas como inglês e educação física", lembra. "Minha mãe me buscava, me levava para o ensino médio e depois me trazia de volta para a escola."

"Por muitos anos, ela passou a vida dirigindo", diz ele, com um sorriso. Isso porque, além dele, seus pais tiveram outros dois filhos que também estudavam em escolas diferentes.

Ele conta que, quando voltava da escola, batia na porta do vizinho, que tinha a mesma idade, para saírem para brincar. "A gente ia andar de bicicleta."

Dessa época, Tao guarda boas lembranças — com uma exceção: o baile de fim de ano no ensino médio.

"Eu ainda era muito novo para ir, e fiquei triste porque todo mundo ia participar, menos eu."

Uma visita a Princeton

Quando era criança, Terence Tao gostava muito de física, porque percebeu que essa disciplina pega aspectos do mundo e os transforma em equações que podem ser resolvidas.

"Outras disciplinas foram mais difíceis para mim, como biologia e química, porque eu sentia que não conseguia resolver as questões a partir de princípios básicos — muitas vezes precisava memorizar muitos dados."

"Inglês foi minha pior disciplina", confessa. "Quando criança, eu tinha dificuldade em entender a intenção por trás de uma pergunta; levava as coisas de forma muito literal."

"Por exemplo, em uma prova pediram que eu escrevesse sobre minha casa, e eu não entendi o que queriam dizer — então apenas fiz uma lista de todos os cômodos da casa e de todos os móveis em cada um deles."

Tao diz que sempre gostou de números, jogos e coisas com regras muito precisas. Esta foto é de 1979.
Tao diz que sempre gostou de números, jogos e coisas com regras muito precisas. Esta foto é de 1979.
Foto: Arquivo pessoal/Terence Tao / BBC News Brasil

A matemática sempre foi sua matéria favorita. Aos 9 anos, Terence Tao já estava mergulhado em problemas complexos.

Nessa idade, seu pai o levou ao Institute for Advanced Study, em Princeton, onde se encontraram com dois matemáticos de destaque, Enrico Bombieri e Charles Fefferman — ambos vencedores da Medalha Fields.

O pai fez uma pergunta direta: "Esse menino tem talento de verdade?". Para avaliar sua criatividade, os matemáticos propuseram alguns problemas a Tao.

O desempenho dele levou Fefferman a dizer: "Se eu tivesse dito que não, isso entraria para uma lista muito curta dos erros mais tolos que cometi na vida".

Essa história foi relembrada em fevereiro por Rodney D. Priestley, decano da pós-graduação da Universidade de Princeton, ao conceder a Tao a Medalha James Madison da instituição.

"Seu brilho técnico, sua criatividade excepcional, sua curiosidade ampla e seu espírito colaborativo levaram a múltiplas descobertas revolucionárias", afirmou o professor.

"O trabalho dele também melhorou vidas de forma tangível", acrescentou, referindo-se ao desenvolvimento de algoritmos que contribuíram para avanços em exames de ressonância magnética.

Na universidade

Aos 14 anos, Terence Tao começou a estudar em tempo integral na Universidade de Flinders, em Adelaide.

A instituição afirma que ele ainda é um dos estudantes mais jovens a se matricular em Flinders, tendo se formado com um mestrado aos 16 anos.

Um ano depois, viajou novamente aos Estados Unidos para iniciar o doutorado na Universidade de Princeton.

"Era a primeira vez que eu morava longe de casa", conta.

Embora Tao — que aos 13 anos venceu as Olimpíadas de Matemática — já tivesse viajado algumas vezes para participar de competições, nunca havia ficado longe da família por mais de uma semana.

Seu pai viajou junto para ajudá-lo a se instalar em Princeton e ficou com ele por uma semana.

"Ele me ensinou o básico: lavar roupa — algo que minha mãe sempre fazia —, abrir uma conta bancária, fazer compras."

"Eu adorava fazer minha lição de casa de aritmética", diz Tao. Esta foto é de 1984
"Eu adorava fazer minha lição de casa de aritmética", diz Tao. Esta foto é de 1984
Foto: Arquivo pessoal/Terence Tao / BBC News Brasil

Como ele, havia outros estudantes de matemática e física enfrentando a primeira experiência de viver longe de casa.

Desse período, Terence Tao guarda muitas lembranças agradáveis com os novos amigos, indo ao cinema e jogando videogame.

Concluiu o doutorado aos 21 anos e seguiu para a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), onde começou como professor assistente.

Três anos depois, foi promovido a professor titular.

"Eu tinha praticamente a mesma idade que meus alunos. Acho que eles ficaram um pouco surpresos quando me viram caminhar até o quadro."

De fato, Tao se tornou o professor catedrático mais jovem da UCLA.

'Um Leonardo da Vinci'

Daniel Peralta, pesquisador do Instituto de Ciências Matemáticas (ICMAT), vinculado ao Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), considera Tao "uma pessoa de enorme humildade, nada parecido com uma estrela do rock".

"A gente pode pensar que alguém que tem tanto conhecimento, que contribuiu tanto, que é tão importante, que ganhou todos os prêmios, não vai ouvir ninguém — mas é exatamente o contrário: ele escuta muito."

Tao, em 1985, com ninguém menos que Paul Erdős, um gênio da matemática que fez importantes contribuições para a teoria dos números e outras áreas
Tao, em 1985, com ninguém menos que Paul Erdős, um gênio da matemática que fez importantes contribuições para a teoria dos números e outras áreas
Foto: Arquivo pessoal/Terence Tao / BBC News Brasil

Terence Tao trabalhou em áreas da matemática que, à primeira vista, podem parecer muito diferentes — da teoria dos números às equações diferenciais, da análise harmônica a, mais recentemente, problemas ligados à computação.

"Eu diria que ele é um Mozart da matemática no sentido da precocidade, mas também é um Leonardo da Vinci", afirma Daniel Peralta.

"Ele traz uma visão enorme, uma amplitude de conhecimento e uma genialidade para todas as áreas da matemática que tocou — e são muitas."

"É uma exceção ter uma figura como ele na matemática moderna. É praticamente impossível, muito raro, que alguém consiga abarcar tantas áreas."

"Não consigo pensar em outro matemático nos últimos 50 anos que tenha chegado tão alto quanto ele", conclui Peralta.

Ele também destaca os livros didáticos publicados por Tao, que classifica como "extraordinários": "É impressionante o que se aprende — eles sintetizam de forma brilhante o tema que abordam."

'Como se estivesse com Newton'

A ideia do gênio da matemática que trabalha sozinho e resolve problemas extremamente complexos por conta própria parece ter ficado no passado.

Terence Tao não apenas demonstra isso na forma como trabalha, como também faz questão de destacar esse ponto.

"Talvez há uns 100 anos fosse uma atividade mais individual, mas o campo amadureceu muito", afirma. "Hoje, por exemplo, há muitas publicações em matemática."

"O campo é tão vasto que não existe uma única pessoa, por mais inteligente que seja, que domine todas as técnicas, tudo o que já foi feito."

Em 1988, ele estava novamente ao lado de um gigante da matemática, Paul Erdős
Em 1988, ele estava novamente ao lado de um gigante da matemática, Paul Erdős
Foto: Cortesía: Terence Tao / BBC News Brasil

"Quando eu era jovem, participava de competições de matemática em que te davam alguns problemas, te colocavam em uma sala por três horas, sem poder consultar livros ou anotações, nada — e você tinha que resolvê-los sozinho. Achei que era disso que se tratava a matemática."

Mas hoje, ele diz, quando quer resolver um problema matemático, muitas vezes trata-se de entender o que outras pessoas já fizeram e usar essas técnicas.

Terence Tao destaca que, em muitos casos, é necessário trabalhar com alguém que domine essas técnicas.

A colaboração é fundamental em qualquer área da matemática — e não apenas com "pessoas do presente", afirma.

"Quando você colabora, quando usa um resultado da literatura matemática, é como se estivesse trabalhando com, por exemplo, Isaac Newton, Carl Friedrich Gauss ou com alguém que viveu décadas atrás."

'As melhores ideias vêm de todo o mundo'

E a colaboração não acontece apenas entre matemáticos, mas também entre pesquisadores de outras áreas.

"Os problemas em que trabalhamos hoje são tão complexos e interdisciplinares que basicamente ninguém consegue fazer tudo sozinho."

Em suas palestras públicas, Terence Tao tenta mostrar como a matemática está escondida em muitos dos dispositivos e serviços que usamos no dia a dia.

Por exemplo, explica, quando surgiram os primeiros celulares, havia um problema de interferência quando muitas pessoas, em um mesmo lugar, faziam chamadas ao mesmo tempo. Isso foi resolvido graças a métodos matemáticos.

Em 2015, Tao ganhou o Breakthrough Prize "por suas numerosas e inovadoras contribuições para a análise harmônica, combinatória, equações diferenciais parciais e teoria analítica dos números"
Em 2015, Tao ganhou o Breakthrough Prize "por suas numerosas e inovadoras contribuições para a análise harmônica, combinatória, equações diferenciais parciais e teoria analítica dos números"
Foto: Jesse Grant/Getty Images / BBC News Brasil

Ele destaca que muitos dos grandes avanços científicos e tecnológicos começaram com pesquisa básica financiada com recursos públicos. Depois, esse conhecimento foi compartilhado em publicações para que qualquer pessoa pudesse utilizá-lo livremente, criando um amplo sistema de cooperação.

"Não se trata apenas de pessoas na sua empresa ou no seu país — as melhores ideias vêm de todo o mundo."

Em um ensaio publicado em 2025 no site *Home of the Brave*, Terence Tao falou dos Estados Unidos, país que escolheu como seu "lar adotivo": um lugar onde "a ciência é valorizada como um bem público, e onde pesquisadores de todo o mundo vêm contribuir com suas ideias e energia".

Ele disse à BBC Mundo que "com frequência, as universidades alcançam grandes resultados porque reúnem muitas pessoas com interesses diferentes, no mesmo lugar, que conversam entre si e estabelecem conexões que talvez não surgissem de outra forma".

Por isso, Tao alerta para os riscos desse ecossistema — o mesmo que moldou sua trajetória profissional — se enfraquecer com cortes no financiamento de projetos de pesquisa e instituições acadêmicas, além de obstáculos migratórios para estudantes internacionais.

"Isso vai prejudicar e reduzir oportunidades no futuro. Muitas descobertas podem deixar de acontecer porque as pessoas que precisamos que se encontrem e troquem ideias talvez nunca cheguem a se conhecer — ou até aconteçam, mas fora dos Estados Unidos."

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