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O momento da descoberta da tumba de Tutancâmon, lacrada há mais de 3 mil anos: 'Um suspiro escapou dos nossos lábios de tão bela que era a visão'

Dos arquivos da BBC, uma gravação de 1936 mostra o arqueólogo britânico Howard Carter descrevendo sua emoção ao descobrir a tumba do faraó egípcio Tutancâmon, ocorrida 14 anos antes.

1 mar 2026 - 16h16
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O arqueólogo Howard Carter e um auxiliar examinam o caixão do faraó Tutancâmon
O arqueólogo Howard Carter e um auxiliar examinam o caixão do faraó Tutancâmon
Foto: Instituto Griffith / BBC News Brasil

"Trinta e três séculos se passaram desde que pés humanos pisaram pela última vez no solo onde estamos e, ainda assim, há sinais de vida recente à nossa volta."

Noventa anos se passaram e a gravação da voz do arqueólogo britânico Howard Carter (1874-1939) transmitida pelo rádio já parece ser uma relíquia antiga.

Ele falou para a BBC em 1936, 14 anos depois de ter descoberto a tumba do faraó Tutancâmon e seus imensos tesouros.

A descoberta quase milagrosa da tumba intacta do faraó menino, por Carter e sua equipe de especialistas, fez com que ele se tornasse famoso no mundo inteiro, despertando uma moda relativa a tudo o que fosse do Egito antigo.

Falando em um programa que analisava os eventos ocorridos em 1924, Carter relembrou sua misteriosa sensação no dia 12 de fevereiro daquele ano, quando ele finalmente atingiu o sarcófago de Tutancâmon. Foi ali que o corpo do faraó passou milênios repousando sem ser perturbado.

Ele relembra detalhes como "uma tigela com reboco até a metade, uma lâmpada escurecida, pedaços de madeira deixados no chão por um marceneiro descuidado". É nesses momentos que sua admiração transparece mais viva do que nunca.

"Nós havíamos entrado em duas câmaras", relembra ele.

"Mas, quando chegamos a um santuário dourado com portas fechadas e lacradas, percebemos que estávamos por presenciar um espetáculo que nenhuma outra pessoa da nossa era havia tido o privilégio de observar."

Ele retirou o lacre precioso e abriu a porta para revelar um segundo santuário, "com acabamento ainda mais brilhante que o primeiro".

A porta se abriu lentamente e ele ficou frente a frente com um "imenso sarcófago de quartzito amarelo". E não havia forma de seguir adiante sem levantar a sua tampa de pedra, que pesava cerca de 1.130 kg.

Um público composto por personalidades e dignatários assistiu à retirada da tampa por um elaborado sistema de polias. E, quando Carter retirou a pedra, a luz iluminou o caixão.

"Um suspiro de deslumbramento escapou dos nossos lábios, de tão bela que era a visão que atingia nossos olhos", relembra ele.

"A efígie dourada do jovem rei, em um trabalho magnífico, preencheu toda a câmara. Aquela era apenas a tampa de uma série de três caixões, encaixados um dentro do outro, guardando os restos mortais do jovem rei Tutancâmon."

No dia 12 de fevereiro de 1924, Howard Carter chegou ao caixão de pedra de Tutancâmon, onde o corpo do faraó passou milênios sem ser perturbado
No dia 12 de fevereiro de 1924, Howard Carter chegou ao caixão de pedra de Tutancâmon, onde o corpo do faraó passou milênios sem ser perturbado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Antes de fazer uma das maiores descobertas arqueológicas de todos os tempos, Carter havia saído da escola aos 15 anos de idade e não tinha graduação formal.

Seu talento para desenhar fez com que uma família da aristocracia local, perto da sua casa na zona rural de Norfolk, no leste da Inglaterra, tomasse pela mão o adolescente solitário.

O Salão Didlington dos Amhersts abrigava a maior coleção particular de objetos egípcios no Reino Unido. O jovem Carter ficou fascinado pelas suas histórias.

Aos 17 anos, seus dons artísticos garantiram a ele um emprego no Egito como desenhista e investigador. Ele chegou ao norte da África durante um boom da arqueologia, financiado, em grande parte, por amadores ricos e aristocratas britânicos.

Carter acumulou experiência ao se manter no emprego por mais de duas décadas.

A surpreendente descoberta da tumba de Tutancâmon deve muito à sua sorte.

Ele passou anos batalhando com pouco sucesso no Vale dos Reis, uma área a oeste do rio Nilo, usada pelos antigos egípcios como o principal campo de sepultamento dos faraós.

Camadas de fragmentos antigos ocultaram a entrada da tumba muito tempo atrás, mantendo-a longe do alcance dos arqueólogos e dos ladrões de túmulos.

Nasceu o culto ao 'rei Tut'

A reviravolta veio em novembro de 1922, quando Carter segurou uma vela e espiou no escuro, através de um pequeno orifício aberto em uma porta.

Seu rico patrono, Lorde Carnarvon (1890-1923), esperava nervoso por perto e perguntou se ele conseguia ver alguma coisa.

Reza a lenda que Carter teria respondido "sim, coisas maravilhosas". E, no seu diário de escavações, ele escreveu:

"À medida que meus olhos se acostumavam à luz, detalhes da sala surgiam levemente na névoa. Animais estranhos, estátuas e ouro. O brilho do ouro em toda parte."

Todos estes tesouros foram colocados ali para acompanhar Tutancâmon na vida após a morte.

Tutancâmon foi o 11° faraó da 18ª dinastia do Egito. Ele morreu com cerca de 17 anos. Acredita-se que ele tenha herdado o trono com oito ou nove anos de idade.

A causa da morte permanece desconhecida. As teorias variam de assassinato até um acidente de caça.

A descoberta de novembro de 1922 foi apenas o começo. Ela revelou o que Carter descreveu como a antecâmara, uma pequena sala externa.

Foram necessários mais 15 meses para que a equipe chegasse ao sarcófago.

Quando o jornal britânico The Times publicou sua reportagem exclusiva sobre "o que promete ser a mais sensacional descoberta egiptológica do século", nasceu o culto ao rei Tut.

A egiptomania varreu os anos 1920, inspirando de tudo — da moda e do design Art Déco, adornado com motivos de pirâmides e flores de lótus, até filmes mudos e canções de jazz.

Com isso, Carter e Carnarvon se transformaram em celebridades internacionais.

Mas, poucos meses após a grande descoberta, Carnarvon morreu envenenado com a picada de um inseto.

Sua morte trouxe um novo impulso à história de Tutancâmon, graças às histórias sobre a maldição da múmia e a vingança do faraó, que se juntaram aos mitos cada vez maiores em torno da descoberta.

Howard Carter (dir.) e seu patrono Lorde Carnarvon passeiam pelo Vale dos Reis, no Egito
Howard Carter (dir.) e seu patrono Lorde Carnarvon passeiam pelo Vale dos Reis, no Egito
Foto: Hulton Archive via Getty Images / BBC News Brasil

Tudo isso acontecia em meio a tumultos políticos no Egito.

Forças britânicas ocupavam o país desde 1882. Mas o Egito ganhou independência parcial no início de 1922.

Carter trabalhava por cortesia do governo egípcio, que esperava que os objetos antigos mais importantes ficassem no Cairo, a capital do país.

Personagem irascível, Carter antagonizava frequentemente com o Serviço Egípcio de Antiguidades, que supervisionava seu trabalho de escavação.

Tutancâmon se tornou um símbolo da luta do país para fugir da influência colonial. Muitos egípcios que compartilharam seu conhecimento local foram eliminados da história.

Além dos trabalhadores que limparam o local da tumba, Carter também teve competentes capatazes, como as Ahmed Gerigar, Gad Hassan, Hussein Abu Awad e Hussein Ahmed Said.

O som de 3 mil anos

O corpo mumificado de Tutancâmon permaneceu no Vale dos Reis, mas muitos dos seus tesouros foram inicialmente levados para o Museu do Cairo.

Entre eles, havia duas trombetas, uma de prata e outra de bronze. Elas viriam a fazer parte de um extraordinário programa de rádio da BBC em 1939.

O pioneiro produtor de rádio Rex Keating (1910-2005) conseguiu convencer o Serviço Egípcio de Antiguidades a permitir que a BBC transmitisse para todo o mundo o som das trombetas, que não era ouvido há três milênios.

Em um documentário da BBC sobre a transmissão em 2011, a arqueóloga Christine Finn declarou que "a ideia de tocar uma trombeta com 3 mil anos de idade não seria aceita hoje. Mas, no auge do entusiasmo pela arqueologia do início do século 20, quase não existiam esses escrúpulos."

O músico escolhido para se apresentar para um público estimado de 150 milhões de ouvintes em todo o mundo foi o trompetista James Tappern.

Antes que ele começasse, Keating alertou os ouvintes que não era fácil tocar nenhuma das trombetas. Mas ele não precisava ter se preocupado, pois os dois instrumentos antigos puderam ser ouvidos em alto e bom som.

Aliviado, Keating concluiu o programa com um toque dramático.

"Após um silêncio de mais de 3 mil anos, estas duas vozes do glorioso passado do Egito ecoaram por todo o mundo", declarou ele.

Carter não viveu para ouvir a transmissão. Ele morreu de câncer semanas antes, aos 64 anos de idade.

Em 1939, a BBC transmitiu pelo rádio, para todo o mundo, o som das trombetas encontradas na tumba de Tutancâmon
Em 1939, a BBC transmitiu pelo rádio, para todo o mundo, o som das trombetas encontradas na tumba de Tutancâmon
Foto: Keystone-France via Getty Images / BBC News Brasil

A Tutmania renasceu nos anos 1970, com o sucesso internacional da exposição Tesouros de Tutancâmon.

Sua atração principal, a máscara dourada, atraiu mais de 1,6 milhão de visitantes ao Museu Britânico em 1972. Até hoje, esta é a exposição mais popular da história da instituição.

Tesouros de Tutancâmon passou dois anos na União Soviética. Em seguida, visitou seis cidades americanas entre 1976 e 1979. A exposição foi uma sensação tão grande que inspirou a canção moderna King Tut, do superastro da comédia Steve Martin.

Em tom irônico, Martin declarou ao programa de TV Saturday Night Live: "Acho que é uma desgraça nacional a forma como comercializamos Tutancâmon com brinquedos, bugigangas, camisetas e pôsters", e apresentou uma cômica paródia dançante em seguida.

Cerca de 1,6 milhão de pessoas fizeram fila em frente ao Museu Britânico em 1972, para visitar a exposição 'Tesouros de Tutancâmon', até hoje a mais popular da história da instituição
Cerca de 1,6 milhão de pessoas fizeram fila em frente ao Museu Britânico em 1972, para visitar a exposição 'Tesouros de Tutancâmon', até hoje a mais popular da história da instituição
Foto: Evening Standard via Getty Images / BBC News Brasil

Da cultura popular à pesquisa acadêmica séria, a história de Tutancâmon continua a fascinar as pessoas.

Mais de um século depois da primeira descoberta, os objetos encontrados na tumba ainda trazem mistérios a serem descobertos.

Em 2019, a egiptóloga Elizabeth Frood, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, declarou ao programa da BBC Rádio 4 In Our Time que menos de um terço dos objetos encontrados na tumba foram completamente analisados.

"Estamos falando em bem mais de 5 mil objetos individuais e acho que isso meio que dominou a questão", segundo ela. "É muito difícil saber como lidar com certas classes de objetos no grupo porque não existe nada similar."

A máscara dourada de Tutancâmon está em exibição no Grande Museu Egípcio, inaugurado em 2025
A máscara dourada de Tutancâmon está em exibição no Grande Museu Egípcio, inaugurado em 2025
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Em 2025, todo o conteúdo da tumba foi finalmente colocado em exposição em um novo museu, perto da Grande Pirâmide de Khufu em Gizé, no Egito — uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

O ex-diretor do Grande Museu Egípcio, Tarek Tawfik, declarou à BBC:

"Tive que pensar em como poderíamos mostrá-lo de uma maneira diferente, pois, desde a descoberta da tumba em 1922, cerca de 1,8 mil peças de um total de mais de 5,5 mil que estavam dentro da tumba estavam em exibição."

"Tive a ideia de exibir o túmulo completo, o que significa que nada fica guardado, nada fica em outros museus, e você pode ter a experiência completa, da mesma forma que Howard Carter teve há mais de 100 anos."

A máscara dourada de Tutancâmon está no museu, mas sua múmia permanece descansando no Vale dos Reis, onde o boquiaberto Carter e sua equipe encontraram tantos "sinais de vida recente".

No programa da BBC, Carter destacou como uma minúscula coroa de flores depositada sobre a tampa dourada externa do sarcófago possivelmente terá sido "a última oferenda de despedida da rainha viúva ao seu marido".

"Em meio a todo aquele esplendor real, não havia nada mais belo do que aquelas poucas flores ressequidas. Elas nos contaram como 3,3 mil anos são um período de tempo muito curto."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês), com a gravação das impressões de Howard Carter sobre a descoberta da tumba de Tutancâmon e do som das trombetas do faraó, no site BBC Culture.

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