Marisa Orth faz filme erótico, relembra Playboy e diz que Brasil está 'careta': 'Caretice traz hipocrisia e mata'
Atriz produziu vídeo para plataforma que busca concorrer com OnlyFans e Privacy, mas com nudez menos explícita. Em entrevista, ela comenta ainda os novos rumos e limites do humor e a personagem que fez dela uma estrela, a Magda de 'Sai de Baixo'.
Aos 62 anos, Marisa Orth estrela um vídeo erótico para a plataforma Amasso com o objetivo de desafiar o avanço do moralismo no Brasil e combater o etarismo. Relembrando seu histórico ensaio na Playboy em 1997, a atriz criticou a crescente caretice do país, que considera hipócrita. Ela também celebrou a versatilidade de sua carreira atual, que inclui projetos no teatro, cinema e na série dramática Habeas Corpus, além de defender a liberdade do humor em conjunto com o respeito às minorias.
Marisa Orth, que encarnou uma das personagens mais memoráveis da televisão brasileira — a Magda, de Sai de Baixo —, diz acreditar que o Brasil "está encaretando". E promete fazer tudo o que puder para ser "um vento", ou ao menos "uma brisinha", contra isso. Até tirar a roupa.
Foi o que a atriz acabou de fazer em um vídeo a ser lançado em outubro pela plataforma Amasso, um serviço de conteúdo adulto sob demanda. O serviço lembra os concorrentes OnlyFans, americano, ou Privacy, brasileiro, mas a ideia é promover uma nudez menos explícita — mais uma pegação do que sexo efetivamente.
"Tem um moralismo cada vez mais caminhante. A gente está encaretando, e eu não vejo isso com bons olhos, porque a caretice traz hipocrisia, e a hipocrisia mata", diz a artista, de 62 anos, lembrando que até os anos 2000 era comum ver atrizes da maior emissora do país, a Globo, despindo-se para a revista Playboy, como ela mesma fez, em 1997.
"O Brasil é muito dividido em classes, e isso tem a ver. Mais elitista, menos elitista. Quem tira a roupa é mais pros pobres do que pros ricos, entende? Eu gosto de dar uma sambada nisso."
O vídeo, dirigido por Gringo Cardia e codirigido por Bárbara Paz, terá o custo de R$ 33 na plataforma, que não funcionará por assinatura, como os concorrentes.
Veja trecho da entrevista em vídeo e leia a conversa na íntegra abaixo.
Mas nem só com nudez Orth tenta combater o caretismo. Ela está em cartaz em Lisboa com a peça Quando Tudo Menos se Espera, uma comédia escrita por seu eterno parceiro de trabalho, Miguel Falabella, para o público português; lança em outubro o filme O Pecado Mora em Cima, outra comédia em parceria com Falabella; e acaba de lançar na Netflix uma série que não tem nada de engraçado, Habeas Corpus, sobre casos de prisões injustas no Brasil, na qual interpreta uma delegada.
Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, a atriz comentou seus novos projetos, revisitou o sucesso de sua edição da Playboy, uma das mais vendidas da história no Brasil, relembrou a Magda de Sai de Baixo e analisou os novos rumos — e limites — do humor.
"A piada com o preto e a preta piorava a vida do preto e da preta, a piada com o gordo e a gorda piorava a vida do gordo e da gorda, a piada com o gay e o viado piorava a vida do viado. Eles reclamaram, se organizaram e disseram que dói, que estava machucando. Vamos acolher", diz.
BBC News Brasil — Você tem dois trabalhos de comédia — no teatro e no cinema —, mas também participa da série Habeas Corpus, mais séria, e de um filme erótico. O que tem buscado ao transitar por trabalhos tão diferentes?
Marisa Orth — Continuar. O que já passa a ser uma busca depois de 40 anos de carreira. Estou feliz de fazer papéis muito diversos.
Habeas Corpus é uma série forte, que trata de um tema dificílimo, as prisões injustas em nosso país, baseada em fatos reais. Eu sou uma delegada inspirada na realidade, malvada, horrorosa, terrível. A peça, Quando Menos se Espera, é uma versão de O Convite. Já deve ter mais de 20 versões no mundo, e Miguel Falabella brincou que chegou nossa hora. Somos o casal que não transa, desta vez.
Desde quando a gente saiu da Globo, o campo se abriu para streaming, cinema, teatro e até para um novo produto que é o Amasso. Tem a ver com o fim dos contratos da Globo e, modéstia à parte, por eu ser muito versátil.
BBC News Brasil — O que fez você dizer 'sim' ao convite para gravar um vídeo erótico?
Orth — Eu fiquei lisonjeada. Pensei 'eu, a esta altura?'. Idade, né, etarismo. Fiquei com medo, mas me senti honrada e ajudei a formatar o projeto, o que me tranquilizou. Eles me convenceram de que falta um produto para isso. Não é OnlyFans, não é pornô. Nada contra, mas não é explícito. É clima, atitude, romance. Com o fim da Playboy, essa coisa mais elegante, fantasiada, estava faltando.
BBC News Brasil — O vídeo é mais para o público masculino ou feminino?
Orth — Foi muito inspirado no sucesso que foi a minha Playboy, que faz 30 anos no ano que vem. Ela foi imensamente consumida pelo público homossexual masculino também. Imensamente, porque era lindo. Vários gays já me disseram 'olha, foi minha última tentativa', 'eu ainda tentei', o que me deixa muito lisonjeada.
Mas muitas mulheres podem se animar, porque tem sempre uma contribuição para o anti-etarismo e porque as mulheres também são visuais. [Dizem que] 'o homem é visual, a mulher não é', mas isso não é bem verdade. Tem um monte de tabus aí que estão caindo, então espero homens, mulheres, gays, gays homens, gays mulheres, velhos, jovens, haters.
BBC News Brasil — Você teve insegurança de se despir novamente após quase 30 anos?
Orth — Teve insegurança, teve nervoso. A Playboy era nudez total, mas tinha pouco erotismo, porque uma coisa são fotos minhas nuas, outra são atitudes de eu transando. Isso tem muito pouco na minha Playboy. Agora, tem muita pouca nudez. Tem beleza, tem corpão, mas pouca nudez. Mas tem atitude. Então foram vergonhas diferentes.
BBC News Brasil — E o que é mais difícil fazer, foto ou vídeo?
Orth — Foto é mais difícil. Foi um trabalho extenuante fazer a Playboy. Eu sou mais do movimento, sou atriz. Preferia fazer um filme e depois ficar no fotograma escolhendo onde estou linda. Mas não é assim. A Playboy foram quase dez dias, um trabalho absurdo.
BBC News Brasil — O que mudou no olhar que se tem sobre seu corpo hoje?
Orth — Eu sou outra pessoa. Tenho uma atitude bem mais, vamos dizer, ativa, em relação a ele, que é mais jovem. Tenho naturalmente uma atitude mais experiente. Nem precisava combinar isso aí. Tenho mais coragem sexualmente, e faz parte mostrar isso.
E, é claro, sempre tem um personagem. Na hora o personagem que pintou foi esse. Tem uma pequena dramaturgia. Mas foram experiências o mais confortáveis possíveis, uma vez que se tratam de trabalhos que geram desconforto e nervosismo. E a intenção é erotizar. Ninguém aqui é criança. É falar sobre sexo, é que a pessoa que assista fique animada sexualmente, assim como a pessoa que lia a Playboy também.
BBC News Brasil — A Playboy era muito pensada para os homens. Hoje, essa plataforma é pensada para as mulheres também. Elas estão mais confortáveis com o sexo?
Orth — Espero que sim. Agora é mais secreto, você não precisa ir até a banca comprar. Mas a gente não pensou muito. Não tivemos uma teoria feminista embasando, embora eu me identifique com tudo isso. Mas a gente não pensou. Acho que saiu com a minha cara, com a cara da minha turma, então talvez tenha esse viés porque eu penso dessa maneira. Não estou casada hoje, já tive dois longos casamentos, tenho meu filho que está criado. Eu sou dona do meu nariz já faz um tempo.
BBC News Brasil — Naquela época você também já era dona do seu nariz e muito bem-sucedida. Ainda assim a insegurança era maior?
Orth — Muito maior, até porque tinha pentelho, tinha nu frontal. Nossa, muito nervoso. E era muito baseado na Magda, que era uma personagem submissa. A gente não fez a Magda, mas era a fantasia sexual que as pessoas mais tinham. Era a Magda. Vamos ver agora. A verdade é que ainda não sei.
BBC News Brasil — Quais cuidados você tem tido com o corpo?
Orth — Dei uma super engordada depois da menopausa, mas consegui emagrecer. Agora estou treinando pra caramba. Nunca deixei de me movimentar, mas voltei a fazer balé clássico desde a pandemia, então as pernas estão ótimas. Ioga. Treino. Atriz não pode deixar de mexer com o corpo. Agora consegui emagrecer, estou até feliz, porque quando você tem músculo embaixo fica bom. É sempre uma dieta, uma creatina, uma musculação, um balé, sempre levantando um pesinho, whey protein, comendo menos.
BBC News Brasil — Você se sente melhor aos 60 do que aos 50, quando passou pela menopausa?
Orth — Nem melhor nem pior. Mas o tesão segue lindo. Em todas as mulheres, não só em mim. Em outras não, mas não é uma regra que com 50 acabou. Absolutamente não é verdade. A mulher muda em um mês, imagina se não vai mudar em décadas. Muda os tipos de tesão, as fantasias. A fantasia que você tinha quando aos 12 é muito diferente da que tem hoje. A gente vai mudando, né? Melhor é um pouco de eufemismo, mas eu estou feliz. Estou gostando do meu corpo hoje. Adoraria estar com a segurança de hoje e o corpo dos 30, óbvio, mas eu tenho menos trava hoje em dia, menos vergonha, acho.
BBC News Brasil — Planeja voltar a fazer conteúdo adulto?
Orth — Minha primeira resposta é não, porque já foi uma enorme surpresa ter sido convidada para isso. Mas não sei. Se for um sucesso louco, a gente faz outro. Se eu ajudar a mulherada a perder a vergonha, ajudar com essa discussão dentro das famílias, se os filhos perdoarem mais as mães, os irmãos perdoarem mais as irmãs com 50+, já vai ser tão bacana, entende? É, sim, uma contribuição anti-etarismo. Só que em vez de falar eu resolvi desenhar.
BBC News Brasil — Antes não se pensava muito em ajudar as mulheres, né? Ou se pensava?
Orth — Tinha sempre uma questão. Perguntavam 'ah, mas você não quer ser uma atriz séria?'. Até pra família, pra minha mãe. Eu sou uma atriz séria, sei disso, mas gosto de brincar com essas caretices e com esses preconceitos. Eu fui criada pra ser uma intelectual paulistana. Ninguém esperava que eu fosse um sucesso popular. Isso já foi um choque. Num papel de extrema comédia, que o povão adorou. O Brasil é muito dividido em classes, e isso tem a ver. Mais elitista, menos elitista, quem tira a roupa é mais pros pobres do que pros ricos, entende? Eu gosto de dar uma sambada nisso.
BBC News Brasil — Depois da Playboy, as atrizes da Globo pararam de tirar a roupa, né?
Orth — Você entende? E tem um moralismo cada vez mais caminhante. Se eu puder ser um vento contra isso. Se puder ser uma brisinha contra isso. Teve uma encaretização do Brasil. A gente está encaretando, e eu não vejo isso com bons olhos, porque a caretice traz hipocrisia, e a hipocrisia mata.
BBC News Brasil — Aliás, a produção de humor, no Brasil, quase não existe mais. Por quê?
Orth — Eu estava conversando com Alexandre Machado, ex-marido de Fernanda Young. Foi uma grande dupla que escreveu as melhores séries de humor para televisão, como Os Normais, e ele pensa que isso tudo está na mão. O celular nos supre a vontade de rir. Explodiu a comédia na internet, e a gente não está percebendo isso. De repente tem um comediante que surge no quintal, crianças, um corte que é de chorar de rir, dublagem, bichas talentosíssimas, trans do mundo inteiro. A gente passa o dia rindo com esse negocinho na mão. E a televisão está cautelosamente vendo o que vai escolher.
BBC News Brasil — Você tem razão sobre a internet, mas para o público que assiste só à TV há uma carência de humor, não?
Orth — Sim. Estão carentes também porque é gostoso rir junto, descobrir que todo mundo riu da mesma piada, comentar no dia seguinte. Isso faz falta. É a coisa da televisão.
BBC News Brasil — Depois de tanto tempo, como é trabalhar com Miguel Falabella?
Orth — Ele foi meu professor de comédia. Ele me libertou, me obrigou a perceber que eu era engraçada. Eu devo isso a ele. Com 20 e poucos anos, eu fui fazer uma comédia rasgada, e eu chata, criticando, com aquela patrulha paulista. Ele falou: 'Vem cá, você quer que a gente instale umas canaletas e começa a nevar quando você entra, aí você se sente num filme do [Ingmar] Bergman?' Era meu sonho. E olha onde eu caí, olha o que eu virei.
BBC News Brasil — Isso nos leva a Magda. As pessoas continuam te reconhecendo por ela. Isso te incomoda?
Orth — Eu sou muito grata a ela. Ela mudou minha vida completamente. Foi quando eu me estabeleci. E eu já tive muitos relatos de gente que desistiu de se matar por causa da Magda. Teve gente que já veio me dizer que ajudei na quimioterapia, 'tem um pedaço da senhora dentro de mim'. Já escutei coisas assim. Minha pretensão é essa: chegar ao povo.
BBC News Brasil — Hoje, quando você dá play em Sai de Baixo no Globoplay, há uma alerta de que se trata de conteúdo sensível. Como você vê os novos limites do humor?
Orth — Estamos acolhendo as queixas das minorias que se sentiam vítimas de bullying. Só reforçava o preconceito contra eles, só estragava a vida deles. Isso nós não vamos passar por cima. A piada com o preto e a preta piorava a vida do preto e da preta, a piada com o gordo e a gorda piorava a vida do gordo e da gorda, a piada com o gay e o viado piorava a vida do viado. Eles reclamaram, se organizaram e disseram que dói, que estava machucando. Vamos acolher. Piada quando tem alguém chorando eu não acho legal. Não me faz rir, porque é a piada dos meninos malvados da classe, e eu sempre fui contra os meninos malvados.
Agora, o humor é autocrítica. A gente tem que pegar um tipo e avacalhar. E o humor é o prazer da inteligência. A gente às vezes esbarra no limite da burrice. As pessoas falam 'ah, mas você fez a Magda, que era um elogio à mulher submissa'. Não era um elogio à mulher submissa. No entanto, eu gostaria que ainda tivesse o Caco e a Magda hoje. Humor é crítica, e tem que ser livre para poder criticar.
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