Festival de Veneza começa nesta quarta sob os ventos da política
Guerras em Gaza e na Ucrânia devem dominar debates na mostra
O 83º Festival de Cinema de Veneza inicia sob forte tensão política, marcado por debates sobre o conflito em Gaza e a guerra na Ucrânia. A inclusão de obras como o documentário israelense "Naza" e o filme do dissidente russo Ilya Khrzhanovsky gerou protestos e contestações internacionais, além de atritos com a União Europeia. O evento, que traz ainda produções de cunho histórico como a ítalo-brasileira "Retorno a Buenos Aires", enfrenta apelos por boicotes e polarização em torno do seu júri.
Por Francesco Gallo - O vento da política sopra forte sobre o 83º Festival de Cinema de Veneza, que começa oficialmente nesta quarta-feira (2).
Um dos eventos mais importantes da sétima arte no mundo se vê novamente no centro de tensões globais, de Gaza à Rússia, passando por uma disputa com a União Europeia.
O debate sobre o conflito no Oriente Médio, que já dominou a edição passada, deve se intensificar com a presença no concurso de "Naza", documentário dos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor que investiga os sistemas usados pelo Exército de Israel para calcular as possíveis vítimas civis em ataques a Gaza.
Os dois cineastas estão entre os quatro autores de "No Other Land", vencedor do Oscar 2025, e a nova produção foi incluída de última hora na lista de concorrentes ao Leão de Ouro em 2026.
Enquanto isso, o coletivo Venice4Palestine, que reúne trabalhadores e personalidades do cinema, lançou um apelo à direção da mostra para que a bandeira palestina seja exposta durante o eventos, bem como a suspensão de acordos com entidades ligadas ao governo israelense.
Entre os signatários estão a Nobel de Literatura Annie Ernaux, Roger Waters, Matteo Garrone, Anna Foglietta, Fabrizio Gifuni, Greta Scarano, Jasmine Trinca e Luigi Lo Cascio.
A polarização contaminou até a preparação da coletiva de imprensa do júri. Publicações especializadas como Deadline e Variety chegaram a noticiar que o encontro poderia ser cancelado para evitar perguntas políticas dirigidas à presidente Maggie Gyllenhaal ou aos jurados Kaouther Ben Hania, Daniel Blumberg, Francesco Casetti, Xavier Giannoli, Shahrbanoo Sadat e Johnnie To, porém a informação foi desmentida pela organização.
Ben Hania venceu o Leão de Prata no ano passado com "A Voz de Hind Rajab", documentário que reconstitui os últimos instantes de uma menina palestina assassinada por soldados israelenses enquanto aguardava socorro na Faixa de Gaza.
Rússia - Outro foco de tensão é o monumental "Dau", do diretor russo dissidente Ilya Khrzhanovsky, incluído pelo regime de Vladimir Putin na lista de "agentes estrangeiros". A Ucrânia questiona a presença do filme na seleção, alegando que a obra ? apesar de assinada por um opositor do Kremlin ? estaria ligada a financiadores próximos ao establishment russo e poderia oferecer legitimidade cultural a Moscou.
A Bienal de Veneza respondeu que "Dau" é uma produção europeia, não russa, e que Khrzhanovsky renunciou à cidadania de seu país, além de ser abertamente contrário à invasão da Ucrânia. Para Kiev, trata-se de influência cultural; para Veneza, censurar o filme significaria atingir exatamente uma obra antiautoritária e um autor perseguido por Putin.
A polêmica se soma ao recente confronto entre a Bienal e a União Europeia por conta da reabertura do Pavilhão Russo na Mostra Internacional de Arte, o que levou Bruxelas a cancelar um financiamento de 2 milhões de euros à instituição.
Em entrevistas aos jornais Corriere della Sera e La Stampa, o presidente da entidade, Pietrangelo Buttafuoco, defendeu a decisão e disse que faria "tudo de novo": "Saberemos cobrir o buraco." A 83ª Mostra de Veneza vai até 12 de setembro e também inclui entre os concorrentes ao Leão de Ouro a coprodução ítalo-brasileira "Retorno a Buenos Aires", do cineasta ítalo-chileno Marco Bechis e que narra a história de um argentino chamado a testemunhar contra os militares que o sequestraram e torturaram durante a brutal ditadura no país.
O próprio Bechis foi raptado pelo regime em Buenos Aires, em 1977, quando estudava para se tornar professor. Ele foi torturado com choques elétricos e acabou libertado graças à ajuda de um empresário que tinha acesso à cúpula da ditadura, embarcando para a Itália logo em seguida. .
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