Escritor italiano escancara 'tabu do rompimento familiar' na Flip
'É possível rejeitar sofrimento', disse Andrea Bajani, autor de 'O Aniversário'
Por Bruna Galvão - O escritor italiano Andrea Bajani é um dos destaques da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde apresenta o livro "O Aniversário", lançado no Brasil pela Companhia das Letras e vencedor do Prêmio Strega em 2025, a máxima honraria da literatura na Itália.
Na obra, narrada em primeira pessoa, um homem na faixa dos 40 anos rompe por completo a relação com os pais e, em flashbacks, conta os episódios mais marcantes da vida familiar que o levaram a essa decisão. Logo nas primeiras páginas, o protagonista destaca os 10 anos de afastamento dos genitores como "os melhores" de sua vida.
Nascido em Roma, em 1975, Bajani vive em Houston, nos Estados Unidos, onde ensina escrita criativa na Universidade Rice, incluindo o curso de "escrita sobre famílias", de onde o autor tirou a inspiração para o romance.
"O que mais me surpreende é que leciono nos EUA e não na Itália, onde a família é a instituição primordial e intocável", contou Bajani à ANSA, revelando que "O Aniversário" teve como base "histórias diversas de pessoas diversas", mas que tinham em comum uma "frustração que se acumulava".
O autor vê a família, do ponto de vista sociocultural, como um "organismo político fechado dentro de um muro, onde se desencadeiam instintos primários, medos, desejos e necessidades de amor".
"No dia seguinte a uma lição intensa, comecei a preparar a próxima tarefa, e então percebi que ela consistia em libertar todos os meus alunos, ao abrir uma porta e contar a história de um homem que, em certo momento, percebe que o sofrimento não é o seu destino e que ele tem o direito de se sentir seguro, independentemente da natureza ou da localização da ameaça que enfrenta", explicou Bajani.
Segundo o escritor, foi justamente esse "tabu" do rompimento familiar que levou "O Aniversário" a "disparar e entrar no topo dos livros mais vendidos na Itália". "Isso aconteceu porque a obra deu voz àquela verdade secreta e inconfessável: não se trata apenas de as famílias terem conflitos, mas de que, se tais conflitos existem e causam sofrimento, é possível optar por rejeitar esse sofrimento", afirmou.
Autor de ficção, poesia e peças de teatro, Bajani escreveu 10 romances, traduzidos para mais de 25 idiomas. Em um mundo dominado cada vez mais pela tecnologia, ele disse não ver riscos para o futuro da literatura, já que essa nova era "modifica as relações humanas" e das pessoas "com as ferramentas, a paisagem e a política".
"Quando isso acontece, significa que há um novo terreno para a literatura, uma mudança na condição humana, um novo tipo de dor. Em última análise, acredito que a literatura se ocupa de compreender a dor específica de uma época, e, consequentemente, a felicidade dessa época também", declarou.
Bajani, que está no Brasil pela primeira vez, não tem nenhuma expectativa por sua participação na Flip, uma forma de se proteger contra desilusões. Se Paraty, famosa cidade colonial no litoral do Rio de Janeiro e Patrimônio Mundial da Unesco, se torna a capital dos livros durante as edições da festa literária, o Brasil, para Bajani, é a terra "do futebol e da liberdade em todas as suas formas".
"Sinto muito que o Brasil tenha sido eliminado [da Copa do Mundo] tão cedo", lamentou-se o "grande torcedor" da Azzurra, seleção que não disputa o torneio desde 2014. .
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