A metamorfose do olhar: 80 anos de fotografia japonesa em exposição na Biblioteca Nacional da França
No âmbito das comemorações do bicentenário da invenção da fotografia, a Biblioteca Nacional da França (BnF) acolhe a exposição "Fotografias Japonesas da BnF: Cenas, Signos, Sensações". A mostra reúne cerca de 300 obras, entre tiragens de época e publicações raras, e traça um panorama de oito décadas de criação visual no Japão, de 1945 a 2025. A curadoria é de Héloïse Conésa e Dominique Versavel, com consultoria científica de Yoshiaki Kai, da Universidade de Niigata, no Japão.
A Biblioteca Nacional da França exibe seu vasto acervo de fotografia japonesa moderna e contemporânea, reunido desde os anos 1960. A mostra traça um panorama de 80 anos que vai do fotojornalismo humanista do pós-guerra e da estética visceral da vanguarda urbana até a observação sutil do cotidiano. Em cartaz até 2027, a exposição também destaca o diálogo das imagens com as artes cênicas tradicionais, o corpo encenado e uma visão integrada da natureza influenciada pela filosofia oriental.
Patrícia Moribe, em Paris
A BnF aparece, desde o final da década de 1960, como uma das primeiras instituições ocidentais a reunir e conservar sistematicamente a fotografia japonesa moderna e contemporânea. O acervo conta atualmente com cerca de 4.000 tiragens de 200 fotógrafos e uma centena de revistas e publicações históricas.
A constituição do fundo se deve em grande parte ao trabalho de conservadores como Jean-Claude Lemagny, que estabeleceram canais diretos de diálogo com artistas e editores do arquipélago. Um exemplo desse vínculo singular ocorreu no outono de 1975, quando Lemagny recebeu em sua mesa na biblioteca 125 cartões-postais fotográficos enviados diretamente do Japão.
A coleção se distancia de estereótipos ou tendênias. Ela reflete cruzamentos culturais e estéticos entre o Japão e o Ocidente, registrando desde os traumas do pós-guerra até as buscas espirituais e formais mais recentes.
Do fotojornalismo à estética da ruptura
A narrativa da exposição começa no período de reconstrução nacional pós-1945, marcado pela libertação da censura e pela necessidade de recompor uma memória coletiva. A fotografia documental e a fotorreportagem de tom humanista ganharam força com obras sobre as tragédias das bombas nucleares, que viraram marcos editoriais como Hiroshima (1958), de Ken Domon, Hiroshima-Nagasaki Document (1961), em parceria com Shōmei Tōmatsu, e Chizu / The Map (1965), de Kikuji Kawada. Paralelamente, observadores do cotidiano rural como Hiroshi Hamaya e Hiromi Tsuchida abordaram as tradições regionais e a transformação da sociedade.
A partir do final dos anos 1960, a emergência de movimentos de contestação urbana estimulou uma busca por linguagens mais subjetivas e viscerais. A revista vanguardista Provoke (1968-1969) sintetizou essa virada ao introduzir o estilo are, bure, boke (bruto, desfocado e granulado), popularizado por Daidō Moriyama para capturar o caos de Tóquio.
A conservadora-chefe e encarregada da coleção contemporânea, Héloïse Conésa, detalha essa sucessão de movimentos que estrutura a abertura da exposição:
"Há muitos movimentos que se sucedem no pós-guerra no Japão. A exposição começa com a reportagem social e humanista. Evocamos o período da estética bruta, desfocada e granulada do movimento Provoke e, em seguida, prosseguimos com uma visão mais próxima de uma forma de 'cotidiano estranho', através de um movimento que se desenvolveu em paralelo à Provoke, que é o da Konpora (fotografia contemporânea). Isso nos leva, portanto, às décadas de 1970 e 1980."
A estética Konpora Shashin, desenvolvida por artistas como Shigeo Gocho, Tokuko Ushioda e Kazuto Miura, se contrapôs à expressividade ruidosa da Provoke. Inspirada na paisagem social norte-americana, a Konpora se concentrou na observação neutra, silenciosa e enquadrada do cotidiano familiar, fazendo emergir a estranheza do banal através de uma distância cortês.
A teatralidade e a encenação do corpo
Outro pilar central da exposição é a relação entre a fotografia e as artes cênicas tradicionais japonesas, como o Nō, o Kabuki e o Butō. Desde a década de 1950, fotógrafos passaram a adotar artifícios de palco — como travestimentos, maquiagens carregadas, iluminação dramática e direção minuciosa de gestos — para construir composições alegóricas ou poéticas.
A conservadora Dominique Versavel, responsável pelas coleções do século XX na BnF, explica a profundidade dessa influência teatral ao longo de várias gerações:
"Na exposição, quisemos mostrar esse aspecto bastante teatralizado que caracteriza diversas obras de fotógrafos desde Shoji Ueda, nas décadas de 1940 e 1950, até os dias de hoje, em que vemos o quanto os fotógrafos são fascinados pelo teatro. Eles não apenas trasformam esse tema em reportagens, mas também adotam seus artifícios e modalidades cênicas, como a direção dos corpos, a iluminação desses corpos, o travestimento, o trabalho de maquiagem e a expressividade das mímicas. É algo que encontramos em diversos momentos na obra desses fotógrafos. Obviamente, pensamos em Eikoh Hosoe para começar, mas há muitos outros, chegando a linguagens visuais bastante recentes, como as de Mami Kiyoshi ou Tomoko Sawada, por exemplo."
Mestres como Shoji Ueda inauguraram o conceito de "fotografia dirigida", posicionando seus familiares sobre as dunas de Tottori como figuras atemporais. Posteriormente, nomes contemporâneos como Mami Kiyoshi e Yasumasa Morimura expandiram essas pesquisas sobre o retrato, a identidade e a encenação social.
A natureza, o sentimento e a síntese do haicai
A abordagem da paisagem e dos elementos naturais na exposição revela distinções filosóficas profundas em relação à tradição ocidental. Influenciados pelo xintoísmo e pelo budismo zen, os fotógrafos japoneses percebem o ambiente não como um cenário externo e passivo, mas como uma experiência íntima de integração e purificação.
Dominique Versavel analisa essa dimensão fenomenológica:
"A abordagem da natureza é algo muito marcado culturalmente. Podemos dizer que aqui no Ocidente a paisagem é abordada como um espetáculo exterior, enquanto no Japão, e talvez de maneira mais geral na Ásia devido à cultura budista, há uma abordagem que conecta mais a subjetividade de quem observa ao meio em que se encontra. E é essa correlação, essa verdadeira simbiose, que escolhemos destacar por meio de fotografias nas quais essa relação com o meio se torna sensível, e onde sentimos que a paisagem é, antes de tudo, uma experiência que atravessa a pessoa que observa — uma experiência fenomenológica do sentir.
Para a curadora, a poesia minimalista e observadora do haicai pode ser vista nas imagens:
"Existe uma conexão muito evidente entre a prática do haicai — que é uma forma curta, muito legível e que permite compartilhar um sentimento — e a fotografia, que é justamente algo bastante conciso e legível em aparência, desempenhando esse mesmo papel de compartilhar a forma como somos, quase de um ponto de vista fisiológico, atravessados pela paisagem."
Essa busca pelo sensível se manifesta no rigor técnico das tiragens em platina-paládio de Koichiro Kurita e Takeshi Shikama, nas pesquisas sobre a água em Yuki Onodera e Sayuki Inoue, e na estética do minimalismo e da sombra presente nas obras de Kazuo Amemiya e Chieko Shiraishi, entre outros.
"Fotografias Japonesas da BnF: Cenas, Signos, Sensações" fica em cartaz na Biblioteca Nacional da França, sítio François Mitterrand, até 31 de janeiro de 2027.
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