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A metamorfose do olhar: 80 anos de fotografia japonesa em exposição na Biblioteca Nacional da França

No âmbito das comemorações do bicentenário da invenção da fotografia, a Biblioteca Nacional da França (BnF) acolhe a exposição "Fotografias Japonesas da BnF: Cenas, Signos, Sensações". A mostra reúne cerca de 300 obras, entre tiragens de época e publicações raras, e traça um panorama de oito décadas de criação visual no Japão, de 1945 a 2025. A curadoria é de Héloïse Conésa e Dominique Versavel, com consultoria científica de Yoshiaki Kai, da Universidade de Niigata, no Japão.

9 out 2026 - 11h27
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Resumo
A Biblioteca Nacional da França exibe seu vasto acervo de fotografia japonesa moderna e contemporânea, reunido desde os anos 1960. A mostra traça um panorama de 80 anos que vai do fotojornalismo humanista do pós-guerra e da estética visceral da vanguarda urbana até a observação sutil do cotidiano. Em cartaz até 2027, a exposição também destaca o diálogo das imagens com as artes cênicas tradicionais, o corpo encenado e uma visão integrada da natureza influenciada pela filosofia oriental.

Patrícia Moribe, em Paris

A BnF aparece, desde o final da década de 1960, como uma das primeiras instituições ocidentais a reunir e conservar sistematicamente a fotografia japonesa moderna e contemporânea. O acervo conta atualmente com cerca de 4.000 tiragens de 200 fotógrafos e uma centena de revistas e publicações históricas.

A constituição do fundo se deve em grande parte ao trabalho de conservadores como Jean-Claude Lemagny, que estabeleceram canais diretos de diálogo com artistas e editores do arquipélago. Um exemplo desse vínculo singular ocorreu no outono de 1975, quando Lemagny recebeu em sua mesa na biblioteca 125 cartões-postais fotográficos enviados diretamente do Japão.

A coleção se distancia de estereótipos ou tendênias. Ela reflete cruzamentos culturais e estéticos entre o Japão e o Ocidente, registrando desde os traumas do pós-guerra até as buscas espirituais e formais mais recentes.

Crianças vão à gruta de Honyara, da série "País da Neve".
Crianças vão à gruta de Honyara, da série "País da Neve".
Foto: RFI

Do fotojornalismo à estética da ruptura

A narrativa da exposição começa no período de reconstrução nacional pós-1945, marcado pela libertação da censura e pela necessidade de recompor uma memória coletiva. A fotografia documental e a fotorreportagem de tom humanista ganharam força com obras sobre as tragédias das bombas nucleares, que viraram marcos editoriais como Hiroshima (1958), de Ken Domon, Hiroshima-Nagasaki Document (1961), em parceria com Shōmei Tōmatsu, e Chizu / The Map (1965), de Kikuji Kawada. Paralelamente, observadores do cotidiano rural como Hiroshi Hamaya e Hiromi Tsuchida abordaram as tradições regionais e a transformação da sociedade.

Guarda-chuva, da série Tóquio.
Guarda-chuva, da série Tóquio.
Foto: RFI

A partir do final dos anos 1960, a emergência de movimentos de contestação urbana estimulou uma busca por linguagens mais subjetivas e viscerais. A revista vanguardista Provoke (1968-1969) sintetizou essa virada ao introduzir o estilo are, bure, boke (bruto, desfocado e granulado), popularizado por Daidō Moriyama para capturar o caos de Tóquio.

A conservadora-chefe e encarregada da coleção contemporânea, Héloïse Conésa, detalha essa sucessão de movimentos que estrutura a abertura da exposição:

"Há muitos movimentos que se sucedem no pós-guerra no Japão. A exposição começa com a reportagem social e humanista. Evocamos o período da estética bruta, desfocada e granulada do movimento Provoke e, em seguida, prosseguimos com uma visão mais próxima de uma forma de 'cotidiano estranho', através de um movimento que se desenvolveu em paralelo à Provoke, que é o da Konpora (fotografia contemporânea). Isso nos leva, portanto, às décadas de 1970 e 1980."

A estética Konpora Shashin, desenvolvida por artistas como Shigeo Gocho, Tokuko Ushioda e Kazuto Miura, se contrapôs à expressividade ruidosa da Provoke. Inspirada na paisagem social norte-americana, a Konpora se concentrou na observação neutra, silenciosa e enquadrada do cotidiano familiar, fazendo emergir a estranheza do banal através de uma distância cortês.

A teatralidade e a encenação do corpo

Outro pilar central da exposição é a relação entre a fotografia e as artes cênicas tradicionais japonesas, como o Nō, o Kabuki e o Butō. Desde a década de 1950, fotógrafos passaram a adotar artifícios de palco — como travestimentos, maquiagens carregadas, iluminação dramática e direção minuciosa de gestos — para construir composições alegóricas ou poéticas.

Atores de rua, da série Chindon.
Atores de rua, da série Chindon.
Foto: RFI

A conservadora Dominique Versavel, responsável pelas coleções do século XX na BnF, explica a profundidade dessa influência teatral ao longo de várias gerações:

"Na exposição, quisemos mostrar esse aspecto bastante teatralizado que caracteriza diversas obras de fotógrafos desde Shoji Ueda, nas décadas de 1940 e 1950, até os dias de hoje, em que vemos o quanto os fotógrafos são fascinados pelo teatro. Eles não apenas trasformam esse tema em reportagens, mas também adotam seus artifícios e modalidades cênicas, como a direção dos corpos, a iluminação desses corpos, o travestimento, o trabalho de maquiagem e a expressividade das mímicas. É algo que encontramos em diversos momentos na obra desses fotógrafos. Obviamente, pensamos em Eikoh Hosoe para começar, mas há muitos outros, chegando a linguagens visuais bastante recentes, como as de Mami Kiyoshi ou Tomoko Sawada, por exemplo."

Mestres como Shoji Ueda inauguraram o conceito de "fotografia dirigida", posicionando seus familiares sobre as dunas de Tottori como figuras atemporais. Posteriormente, nomes contemporâneos como Mami Kiyoshi e Yasumasa Morimura expandiram essas pesquisas sobre o retrato, a identidade e a encenação social.

Da série Areia e Dunas.
Da série Areia e Dunas.
Foto: RFI

A natureza, o sentimento e a síntese do haicai

A abordagem da paisagem e dos elementos naturais na exposição revela distinções filosóficas profundas em relação à tradição ocidental. Influenciados pelo xintoísmo e pelo budismo zen, os fotógrafos japoneses percebem o ambiente não como um cenário externo e passivo, mas como uma experiência íntima de integração e purificação.

Dominique Versavel analisa essa dimensão fenomenológica:

"A abordagem da natureza é algo muito marcado culturalmente. Podemos dizer que aqui no Ocidente a paisagem é abordada como um espetáculo exterior, enquanto no Japão, e talvez de maneira mais geral na Ásia devido à cultura budista, há uma abordagem que conecta mais a subjetividade de quem observa ao meio em que se encontra. E é essa correlação, essa verdadeira simbiose, que escolhemos destacar por meio de fotografias nas quais essa relação com o meio se torna sensível, e onde sentimos que a paisagem é, antes de tudo, uma experiência que atravessa a pessoa que observa — uma experiência fenomenológica do sentir.

Da série "Zaido".
Da série "Zaido".
Foto: RFI

Para a curadora, a poesia minimalista e observadora do haicai pode ser vista nas imagens:

"Existe uma conexão muito evidente entre a prática do haicai — que é uma forma curta, muito legível e que permite compartilhar um sentimento — e a fotografia, que é justamente algo bastante conciso e legível em aparência, desempenhando esse mesmo papel de compartilhar a forma como somos, quase de um ponto de vista fisiológico, atravessados pela paisagem."

Da série Cui Cui.
Da série Cui Cui.
Foto: RFI

Essa busca pelo sensível se manifesta no rigor técnico das tiragens em platina-paládio de Koichiro Kurita e Takeshi Shikama, nas pesquisas sobre a água em Yuki Onodera e Sayuki Inoue, e na estética do minimalismo e da sombra presente nas obras de Kazuo Amemiya e Chieko Shiraishi, entre outros.

"Fotografias Japonesas da BnF: Cenas, Signos, Sensações" fica em cartaz na Biblioteca Nacional da França, sítio François Mitterrand, até 31 de janeiro de 2027.

Cartazes sobre exposição de fotografias japonesas no exterior da Biblioteca Nacional da França, em Paris, em 5 de outubro de 2026.
Cartazes sobre exposição de fotografias japonesas no exterior da Biblioteca Nacional da França, em Paris, em 5 de outubro de 2026.
Foto: RFI
RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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