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A literatura brasileira continua conquistando leitores na França, diz professora emérita da Sorbonne

Apesar da crise da leitura e do fechamento de livrarias, a literatura brasileira continua despertando curiosidade e interesse na França, impulsionada por editoras especializadas, festivais literários, universidades e novos temas que dialogam com as preocupações da sociedade francesa. A avaliação é da professora emérita da Sorbonne Nouvelle, Jacqueline Penjon, uma das principais especialistas em literatura brasileira no país e responsável por traduzir para o francês obras fundamentais da cultura brasileira.

8 out 2026 - 11h23
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Resumo
A literatura brasileira segue em expansão na França, atraindo jovens leitores e pesquisadores universitários. Segundo Jacqueline Penjon, professora da Sorbonne, o interesse ultrapassou os clássicos e alcançou autores contemporâneos, indígenas e mulheres negras focados em questões sociais. Apesar dos impactos digitais na leitura, o intercâmbio cultural resiste, apoiado em livrarias e na complexidade estilística das obras nacionais, cuja riqueza textual ainda desafia a tradução por inteligência artificial.

Em entrevista à RFI, Penjon afirma que o cenário atual é muito diferente daquele que ela conheceu no início da carreira. Segundo a professora e tradutora, a presença brasileira no mercado editorial francês se consolidou graças ao trabalho de agentes culturais que ajudaram a ampliar o acesso dos leitores à produção literária do país.

Tradutora para o francês de textos clássicos brasileiros, Jacqueline Penjon é professora emérita da Universidade Sorbonne Nouvelle e especialista em língua, literatura e civilização brasileiras.
Tradutora para o francês de textos clássicos brasileiros, Jacqueline Penjon é professora emérita da Universidade Sorbonne Nouvelle e especialista em língua, literatura e civilização brasileiras.
Foto: © RFI/Adriana Moysés / RFI

"Há uma diferença enorme entre os anos 1970 e hoje. Há uma série de editoras especializadas, livrarias especializadas e também eventos", afirma. Ela destaca ainda que, assim como acontece com a música brasileira, a literatura continua atraindo um público jovem: "A literatura interessa muito um público jovem, o que é muito bom".

Penjon atribui parte desse interesse aos intercâmbios literários entre os dois países. Ela lembra a primeira edição do festival Les Belles Étrangères, em 1987, quando o Brasil foi o país convidado e uma delegação de escritores percorreu a França, reunindo nomes como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Ferreira Gullar, Nélida Piñon, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca e Raduan Nassar. "Uma dúzia de escritores brasileiros esteve presente e realmente foi uma grande descoberta para o público", recorda.

Se durante décadas os nomes mais associados à literatura brasileira na França foram Jorge Amado, Clarice Lispector e Machado de Assis, o interesse dos leitores franceses se diversificou progressivamente.

A partir dos anos 1980 e 1990, autores contemporâneos e gêneros variados passaram a conquistar espaço na França. Além dos grandes clássicos, escritores como Milton Hatoum e Patrícia Melo ajudaram a ampliar o interesse do público francês pela produção brasileira contemporânea, incluindo a literatura policial e novas vozes da ficção nacional.

Nas universidades, os clássicos permanecem centrais nos cursos de português e estudos lusófonos. No entanto, Penjon observa uma mudança significativa entre os estudantes de pós-graduação, que têm demonstrado interesse crescente por temas ligados às transformações sociais do Brasil.

"Entre os estudos de mestrado, a gente vê muito esse tipo de escolha, que antes não tinha", explica. Segundo ela, obras de autores indígenas, de mulheres negras e de escritores que abordam questões sociais contemporâneas encontram receptividade entre os jovens pesquisadores franceses. "Agora os jovens escolhem esses livros", ressalta.

Mudança nos hábitos de leitura

A professora reconhece, porém, que o hábito de leitura enfrenta desafios. Como em outros países, as redes sociais e o consumo digital reduziram o tempo dedicado aos livros. "Infelizmente está diminuindo, porque a internet e as redes sociais já ocupam o tempo todo", lamenta. Ainda assim, ela acredita que a formação universitária e a existência de bibliotecas, sebos e livrarias especializadas ajudam a preservar o contato com a literatura.

Mesmo diante das mudanças no mercado editorial, Penjon vê razões para o otimismo. O surgimento de novas livrarias dedicadas à produção lusófona e o interesse contínuo por autores brasileiros indicam que o diálogo cultural entre os dois países permanece vivo.

Riqueza estilística é freio para IA

A pesquisadora também acredita que a riqueza estilística da literatura brasileira representa um limite para o avanço da inteligência artificial no trabalho de tradução. "Guimarães Rosa, traduzido por uma inteligência artificial, não é possível, não é possível", afirma, sorrindo diante do exemplo que considera uma demonstração dos limites da tecnologia na tradução literária.

Para a professora emérita da Sorbonne, embora ferramentas automatizadas possam servir para textos mais simples, a tradução literária continua exigindo a sensibilidade e a criatividade dos tradutores humanos.

Em um contexto de transformação dos hábitos de leitura, a literatura brasileira segue encontrando leitores na França. E, segundo Jacqueline Penjon, o interesse não se restringe aos grandes clássicos: ele se renova à medida que novos autores brasileiros chegam às livrarias francesas e dialogam com questões que mobilizam as novas gerações.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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