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Artesãs de SP mantêm viva a prática do crochê entre gerações

Donas das marcas Lady Brown e Adeleire, de Ermelino Matarazzo, produzem roupas e acessórios ao lado de familiares e amigas

4 ago 2022 - 05h00
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Cristina Fernandes e a família de artesãs
Cristina Fernandes e a família de artesãs
Foto: Arquivo pessoal

A artesã Cristina Fernandes, 29, criou há cerca de dois anos a Atelier Lady Brown, marca de roupas e acessórios de crochê e tricô. Ela mantém a produção das peças na casa onde mora, em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo, e realiza as vendas em uma loja virtual e pelas redes sociais. 

Na família dela, a prática e a confecção atravessam gerações. “Sempre via minha mãe e minha avó fazerem um monte de coisas. Minha tia pintava panos de prato e minha mãe fazia as barrinhas de crochê. Elas sempre foram muito artistas”, conta Cristina. 

O interesse pelas linhas e fios começou na adolescência com o desejo de fazer uma peça para si mesma. “Minha primeira peça foi uma saia de algodão cru, toda vazada, e minha mãe falou ‘você não vai sair assim’. E a gata né, já queria dar o close dela, saindo de saia vazada”, diz. 

“Minha mãe nunca fez para mim. Se eu errava, ela me falava: ‘sem problemas, é só desmanchar’ e assim fui aprendendo”, completa. 

Cristina confecciona as peças na própria casa, na zona leste de São Paulo
Cristina confecciona as peças na própria casa, na zona leste de São Paulo
Foto: Arquivo pessoal

O crochê e o tricô são hábitos relaxantes e até terapêuticos, e foi durante o tratamento para a depressão que Cristina se reconectou com a prática familiar e decidiu criar a marca. O pontapé inicial surgiu com os próprios desejos de estilo pessoal. 

“No início, pensava em muita coisa que eu mesma gostaria de vestir e até hoje estou muito nesse processo. Sempre provo as peças em mim e vou ajustando”, afirma. 

Com o incentivo de amigos, que foram os primeiros clientes, ela deixou de mostrar os itens que fazia nas redes sociais e decidiu vender os produtos. Ter a si mesma como referência é algo essencial para a artesã, que também se enxerga como o próprio público-alvo e usa as peças que produz no dia a dia. 

“Fiz um chapéu com restos de rolos de linhas para mim mesma e postei no Instagram. As pessoas viram e quiseram também, então agora é um produto do atelier”, diz. 

Porém, no início, ela enxergava a criação da marca somente como forma de conseguir um dinheiro extra no fim do mês. “Isso na periferia sempre foi uma realidade para a dona de casa que faz costura e conserto de roupa como hobby e vende por um valor super pequeno só para ter um complemento – e eu também fazia isso”, comenta. 

Hoje, a marca Lady Brown saiu de algo adicional para uma das principais vias de sustento da proprietária. Quando tem grandes encomendas, ela mobiliza a família e vai até Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, onde a mãe e a avó moram, para que façam as peças juntas. Até a prima entra nas rodas de crochê. 

Além de itens prontos, o atelier também faz roupas sob medida de acordo com os desejos e as referências das clientes. 

Renda como um dos motores de criação 

Kylie Oliveira começou a vender as peças de crochê após entrar na universidade
Kylie Oliveira começou a vender as peças de crochê após entrar na universidade
Foto: Dourivan Lima/Agência Mural

O crochê sempre esteve na vida de Kylie Oliveira, 22, estudante de têxtil e moda na Universidade de São Paulo. Também moradora de Ermelino Matarazzo, ela é proprietária da marca Adeleire, de bolsas e acessórios de crochê, há nove meses. A produção também é feita em casa e a jovem conta com ajuda de amigas. 

A mãe dela, baiana que migrou há duas décadas para São Paulo, comanda uma loja de utensílios gerais no interior do estado e sempre teve dificuldade de encontrar fios e barbantes para revender. Assim, passou a viajar para outras cidades (como Ibitinga, a 370 km da capital paulista) para comprar os produtos. 

A vida de Kylie no interior era cercada por diversos tipos de fios e tapetes de crochê, o que sempre a influenciou a aprender a fazer as próprias peças com o intuito de relaxar do estresse escolar, aos 15 anos. 

Crescendo cercada por esse universo, na adolescência ela decidiu iniciar e praticar o crochê com a irmã mais velha, mas não tinha pensado em vendê-los até entrar na universidade e começar a aprender sobre a comercialização de itens feitos à mão, que deveriam ter um valor maior pelo trabalho produzido. 

Bolsas de crochê feitas por Kylie
Bolsas de crochê feitas por Kylie
Foto: Reprodução

Assim como Cristina, Kylie vende as peças que produz pela internet. “É possível enviar meus produtos para o Brasil todo, assim tenho mais possibilidades de clientes”, avalia. Apesar disso, essa tendência vai na contramão da maioria (90%) dos artesãos no Brasil que não têm loja virtual, segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). 

Apesar de ambas morarem em um bairro predominantemente residencial, os consumidores locais não são os grandes compradores. Elas relatam dificuldades em vender as peças para pessoas do bairro, cenário diferente do mercado de bonés de crochê, que concentra a maior parte de clientes locais. 

“Elogiam, acham diferente, mas não compram. Se vendi cinco peças para as pessoas daqui, foi muito. Acredito que isso é porque preferem algo mais popular, ou querem comprar algo que já está consolidado”, lamenta Cristina, que tem iniciativas de vendas, como oferecer descontos para pessoas não-brancas e amigos da região. 

“Mas também não julgo, são referências de consumo diferentes e todas são válidas”, opina. 

Estéticas inspiradora e construtivas 

Kylie com um crochê trabalhado com temática floral
Kylie com um crochê trabalhado com temática floral
Foto: Arquivo pessoal

As duas artesãs avaliam que a estética das peças é algo que mudou com as diferentes gerações de crocheteiras. Para Kylie, as referências e preferências mudaram porque são públicos diferentes. Antes eram mais populares os crochês voltados à decoração, no entanto, agora há um crescente interesse do público pelo vestuário. 

“Minha mãe geralmente trabalhava com itens de decoração, como tapetes e paninhos para mesas. Já eu exploro muito a parte de acessórios e bolsas”, diz a estudante. 

Ela explica que, enquanto gerações de crocheteiras mais antigas exploram padrões tramados, vazados e constantemente com temáticas florais, as mais novas exploram estéticas sóbrias ou completamente divertidas, com elementos que beiram desenhos animados. 

“É esteticamente diferente [das peças da minha mãe], pois minha marca explora potenciais fofos como morangos e flores de uma forma diferente”, exemplifica. “Às vezes são os mesmos elementos.” 

Cristina também não enxerga uma relação forte na estética das produções que faz com as da família. “Apesar do crochê sempre estar na moda, as pessoas não têm essa visão do crochê ser moderno e fashion, que era uma visão que eu também não tinha e acabei adquirindo depois”, diz. 

“Pensei: ‘dá para fazer coisas muito incríveis com isso’ e me motivou junto com o desejo de fazer algo mais relacionado ao conceito de moda calma”, relata a artesã, fazendo referência ao termo “slow fashion” (“moda lenta”, em português). 

O termo fala sobre a prática de se produzir poucas peças de roupas com intervalos maiores, diferentemente do “fast fashion”, que foca em produção em larga escala e constante, tendo um maior impacto ambiental. 

Kylie, que pensa de forma semelhante, relata sobre a importância de manter as tradições vivas. “O crochê é taxado como uma coisa de pessoas mais velhas, mas hoje tem outras abordagens e todas são importantes para manter a técnica viva", conclui.

Agência Mural
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