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AGORA COM MAIS CALMA Quanto maior a altura, maior a queda. Hallström pegou um mote quentíssimo como o aborto, preparou uma discussão que poderia ser muito dramática e, no final das contas, tirou covardemente o corpo fora. O defensor do aborto revela-se um sujeito angustiado e viciado em éter. Ele faz abortos sem culpa, mas, quando seu único "filho" cai fora, a depressão e a culpa o matam. Ah... Que triste. E que edificante. Mas tem coisas piores: o "filho", que parecia ser contra o aborto, acaba fazendo um, mas só porque a criança era uma "monstruosidade". Que conveniente. Assim ficam todos satisfeitos: quem é contra, quem é a favor e quem não tem opinião nenhuma. Regras da Vida não mostra a que veio, não defende convicção alguma, porque não quer ter convicção alguma, nem ir a ligar algum. Hallström dá voltas sobre si mesmo, fascinado pela máquina poderosíssima de fazer emocionar. Dirão meus caros leitores: mas cinema não pode ser apenas emoção? Claro que pode. Recomendo Regras da Vida a todos que pretendem entorpecer seus sentidos por duas horas, sem correr os ricos de uma overdose de éter. O problema é que, a longo prazo, os efeitos colaterais vão se avolumando. E, no final das contas, E o que mais me irrita é o filme apresentar-se como um "quebrador de regras". Tem todo aquela papo sobre "só pode fazer regras quem conhece o problema na prática". O guri abobado chega a botar fogo nas regras da casa porque "elas foram feitas por quem não nos conhece". Coisa mais nacionalista e reacionária. E falsa. Porque o guri acabará se submetendo ao seu "destino" (facilitado, é claro, por uma série fora de série de tragédias) e dirá ao espectador: "Veja só, não adianta lutar, você acaba voltando para a sua origem. O mundo é assim. Mas chora um pouquinho e segue adiante. Eu sou muito mais infeliz". Pra não dizer que só malhei, achei a garota (Charlize Theron, salvo engano) bem interessante. É uma pena que o filme não tenha valorizado mais o seu papel de "garota que não consegue ficar sozinha". Mas aí seria outro filme. Ou pelo menos um filme com alguma regra quebrada. Uma que seja. Já me faria mais feliz. Carlos
Gerbase é
jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor.
Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A
gente ainda nem começou e "Fausto"). Atualmente
finaliza seu terceiro longa-metragem, Tolerância, com Maitê Proença e Roberto Bomtempo. |
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