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REGRAS DA VIDA
de
Lasse Hallström






RAPIDINHO
Filme errado. Errado pra mim, claro. Para milhões de pessoas, deve ser o filme certo. Deve fazer chorar, fazer sorrir e, de quebra, fazer nascer uma pontinha de reflexão sobre a ética do aborto, que será devidamente discutida no restaurante, após a sessão. Mas é um filme errado. Muito errado. E não há nada de explicitamente errado: bela fotografia, atuações contidas, enquadramentos clássicos, cenários majestosos. E uma história com começo, meio e fim, cheia de peripécias, acompanhando a jornada de um herói à procura do seu destino. Mas tá tudo errado.

As lágrimas estão erradas, os sorrisos estão errados, até as peripécias estão erradas. O que fazer? Detesto filmes que cumprem todas as expectativas, que decolam como um 747, ao pôr do sol e levam os passageiros a um lugar bonito e agradável. O problema de Regras da vida é que ele segue todas as regras. Chatice. A gente fica esperando uma turbulência, um tranco, uma pequena sucudidinha que seja, e o máximo que acontece é a aeromoça, nem tão bonita assim, perguntar se a viagem está agradável.

AGORA COM MAIS CALMA
Não exijo de um filme mais do que ele pretende dar. Mas também peço que ele me mostre o que tem com muita vontade. É óbvio que Lasse Hallström sabia o que estava fazendo: um filme careta, baseado num meloso romance de John Irving, pseudo-sensível e pega-ratão. Ou pega-Oscar, o que dá no mesmo. Pegou um (que me lembre), pro Michael Caine, em papel que o Francisco Cuoco faria numa boa. Mas o novelão Regras da Vida vai disfarçando sua absoluta indigência criativa com uma série quase ininterrupta de imagens e sons feitos para quebrar corações. Aos trinta segundos, eu já sabia o que me esperava nas duas horas seguintes. A única luz no fim do túnel era a personalidade do médico, um defensor do aborto. Ora, num filme desses, que será assistido por milhões de pessoas conservadoras, ver um assunto como o aborto ser discutido, com uma ótica aparentemente (no início) moderna, é uma coisa quase inusitada.

Quanto maior a altura, maior a queda. Hallström pegou um mote quentíssimo como o aborto, preparou uma discussão que poderia ser muito dramática e, no final das contas, tirou covardemente o corpo fora. O defensor do aborto revela-se um sujeito angustiado e viciado em éter. Ele faz abortos sem culpa, mas, quando seu único "filho" cai fora, a depressão e a culpa o matam. Ah... Que triste. E que edificante. Mas tem coisas piores: o "filho", que parecia ser contra o aborto, acaba fazendo um, mas só porque a criança era uma "monstruosidade". Que conveniente. Assim ficam todos satisfeitos: quem é contra, quem é a favor e quem não tem opinião nenhuma. Regras da Vida não mostra a que veio, não defende convicção alguma, porque não quer ter convicção alguma, nem ir a ligar algum. Hallström dá voltas sobre si mesmo, fascinado pela máquina poderosíssima de fazer emocionar.

Dirão meus caros leitores: mas cinema não pode ser apenas emoção? Claro que pode. Recomendo Regras da Vida a todos que pretendem entorpecer seus sentidos por duas horas, sem correr os ricos de uma overdose de éter. O problema é que, a longo prazo, os efeitos colaterais vão se avolumando. E, no final das contas, podem levar a danos irreparáveis ao cérebro, coisa que o éter também faz. O que aconteceu com a ironia e a leveza de Minha Vida de Cachorro? Hollywood fez com Lasse Hallström o que já fez com muitos outros diretores: retirou-lhes – consciente ou inconscientemente – qualquer aspiração ao risco, ao novo, à quebra da regra. E aí só sobra a submissão e a morte.

E o que mais me irrita é o filme apresentar-se como um "quebrador de regras". Tem todo aquela papo sobre "só pode fazer regras quem conhece o problema na prática". O guri abobado chega a botar fogo nas regras da casa porque "elas foram feitas por quem não nos conhece". Coisa mais nacionalista e reacionária. E falsa. Porque o guri acabará se submetendo ao seu "destino" (facilitado, é claro, por uma série fora de série de tragédias) e dirá ao espectador: "Veja só, não adianta lutar, você acaba voltando para a sua origem. O mundo é assim. Mas chora um pouquinho e segue adiante. Eu sou muito mais infeliz".

Pra não dizer que só malhei, achei a garota (Charlize Theron, salvo engano) bem interessante. É uma pena que o filme não tenha valorizado mais o seu papel de "garota que não consegue ficar sozinha". Mas aí seria outro filme. Ou pelo menos um filme com alguma regra quebrada. Uma que seja. Já me faria mais feliz.

Regras da Vida
(EUA, 1999). De Lasse Hallström

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Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e "Fausto"). Atualmente finaliza seu terceiro longa-metragem, Tolerância, com Maitê Proença e Roberto Bomtempo.

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