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Cartas do Reichenbomber (Opus 11)

Para todos aqueles que têm enviado e-mails afetivos sobre Dois Córregos,
e/ou votado favoravelmente no ranking do ZAZ

Impressionante o efeito Peckinpah da coluna anterior. Entre os e-mails recebidos de seus admiradores reproduzo parcialmente dois dos mais contundentes.


Sam Peckinpah, em foto de John Bryson de 1972 (Revista Playboy)

"Seu "OPUS 10" está fantástico, principalmente no que se refere ao trabalho de Peckinpah. "Bring Me The Head Of Alfredo Garcia" é realmente o mais radical filme deste diretor que está, solenemente, entre os meus favoritos. O objetivo de lhe escrever é agradecer a menção desta obra, hoje esquecida, já que não está disponível em vídeo. Outras, ainda esquecidas, precisam ser radicalmente lembradas, como "The Ballad Of Cable Hogue" e "Major Dundee".

Eu o conheço de diversas Mostras de São Paulo (hoje estou morando em São Carlos), onde sempre estive com o Khouri, de quem sou muito amigo. Sempre me alegra encontrar opiniões que são interessantes, desde os tempos de refúgio nos cinemas japoneses (que não mais existem), como as suas observações sobre o Mojica.

Interessante é notar que, entre Peckinpah, Mojica e Ozu existe um abismo, mas que podemos ter a sensibilidade de nos interessarmos pelos três. Esta é uma questão não só de gosto pessoal, mas de interesse e respeito por profissionais de cinema que representam muito para quem é aberto ao novo, sem cair no modismo Tarantino e cia.

Parabéns por "Dois Córregos". Que sua coragem receba os elogios que merece. Enfim, já bastam os tantos anos de "emburrecimento" no cinema brasileiro. Parece que estamos, finalmente, progredindo bem, com o Cecílio e os novos trabalhos de Bressane. Seu novo filme se inclui aí, na vertente mais atraente do verdadeiro cinema, FAZER O MELHOR, mesmo que com poucos recursos, mas não APELAR ou subestimar um público que pode pensar ... Espero pelas suas próximas opiniões agradecido pela lembrança de Mojica e de Peckinpah".

LUIS ANTONIO RIBAS

Ainda sobre Sam Peckinpah

"A maldade já nasce conosco". É intuitiva, primal, está lá aguardando o momento certo para explodir. Está claro em "Meu Ódio Será Sua Herança" na famosa cena de abertura em que vemos crianças se divertindo e muito, no ato de torturarem um escorpião. Esse é sem dúvida um dos pilares do cinema de "Peckinpah", mas certamente não o único, a amizade posta em cheque pelos caminhos opostos (legalidade / criminalidade) e seus temas adjacentes (lealdade, cumplicidade, cinismo, honra, etc...) é outro.

Mas para mim, fã absoluto deste que considero o maior de todos os diretores, sempre me perguntei qual seria o seu melhor filme, a resposta óbvia : "The Wild Bunch", pode ser correta se pensarmos no filme mais abrangente e elaborado de sua obra, do tipo que quanto mais se vê, mais se descobre. Mas como bom fã ela não me satisfaz por ser justamente óbvia; "Major Dundee"(Juramento de Vingança) encontra forte ressonância entre os seus fãs mais ardorosos como se pode observar em alguns sites dedicados a sua obra, e por muito tempo também foi o meu preferido, mas sinto falta de uma revisão.

Pois bem, há "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia", o que sofreu menos interferência em razão de ser sua produção mais independente, o que se percebe mais autobiográfico, niilista, mais "torto", mas lhe falta alguma coisa, o desencanto que é por excelência um tema poético parece não encontrar o casamento ideal neste filme, há como sempre uma cena magistral de abertura, mas depois a promessa não se cumpre da forma desejada e entendida como possível por este fã (algo na linha de "Filme Demência" para dar um exemplo).

"Straw Dogs" (Sob o Domínio do Medo) é um filme de tese que se vale da forma (aliás, com extremo talento) para convencer os seus opositores, a situação faz surgir a violência que sempre esteve conosco no mais racional dos homens, têm uma das seqüências mais incômodas do cinema (a cena do estupro), mas ressente-se de uma certa artificialidade imposta pela necessidade de afirmar sua tese. O filme antibelicista "Cross Of Iron" (Cruz de Ferro) é mais brilhante, mas também sofre com a preocupação de mostrar à seus críticos, mesmo que de maneira absolutamente original, que condenava a violência.

Para não me alongar, fecho questão com "Billy The Kid and Pat Garret", o mais poético, o que dá uma "banana" para o ritmo, e fica contemplando a "ação reflexiva" de seus personagens, mas que como nenhum outro faz uma ode a rebeldia, ao inconformismo, trabalhando um de seus temas mais caros (talvez o pilar que dá sustentação a sua obra) a chegada do "novo", de tempos que exigem mudanças, civilidade - mas vejam que paradoxal, porém tão preciso -, maior dose de conformismo. É preciso sufocar a liberdade, como diria o nobre do filme de Visconti ("O Leopardo"): "É preciso mudar para manter as coisas como estão". Aliás dizem que seu último projeto era filmar com Burt Lancaster, um western crepuscular.

Por fim, a questão da mulher. Com certeza seus filmes têm um caráter machista, misógino, mas o que dizer dessas situações:

1- Ali Mcgraw se entregando ao chefe de um presídio (Ben Johnson) em "Os Implacáveis" para facilitar a fuga de Steve McQueen e quando ele descobre o acontecido é evidente que Peckinpah toma as dores da personagem feminina

2- A filha que pede à Warren Oates em "Tragam-me a Cabeça...", para executar o seu pai como forma de fazer justiça, novamente o diretor endossa a personagem feminina;

3- Por fim, há Maureen O'Hara em "Deadly Companion" (Parceiros da Morte, ou o Homem Que Eu Devia Odiar), aliás, poucas vezes um diretor teve um filme de estréia tão brilhante e neste filme a mulher é a sua essência, estão lá a obstinação, a coragem, a busca de justiça, a independência, registro forte considerando que a estória se passava no século passado e o papel era o de uma prostituta -, há também nesse filme, uma extraordinária originalidade em trabalhar a questão da violência que em nome da justiça e da legalidade acaba por atingir inocentes (no caso, por meio de uma bala perdida).

Haveria muito o que falar ainda, sobre maravilhas como : "Pistoleiros do Entardecer", ou o às vezes muito "modernoso" na forma, mas extremamente original no conteúdo, "A Morte não Manda Recado", como também do até ingênuo no discurso político "Elite de Assassinos", mas que revelava mais originalidade que seu principal discípulo buscaria, tentando revitalizar alguns de seu faroestes; falamos, é claro, de Walter Hill. Só para fechar de vez, é curioso verificar que o trabalho que melhor prestou-lhe homenagem acabou sendo um filme de terror, realizado pelas mãos de John Carpenter, "Vampiros".

Eduardo Aguilar

Ribas e Aguilar citam como obrigatório MAJOR DUNDEE (Juramento de Vingança), a obra mais mutilada de Sam Peckinpah. Realmente trata-se de um filme soberbo e que algum pesquisador dos grandes estúdios poderia e deveria recuperar, nos moldes do que foi feito com a "versão do diretor" em BLADE RUNNER. Garanto que estaria prestando um serviço mais pertinente à história do cinema do que tentar eternizar um fetiche de ocasião.

Sabe-se que MAJOR DUNDEE era o projeto dos seus sonhos, e cuja interferência dos estúdios teria provocado imensa frustração em Pechinpah, interrompendo sua carreira por quase quatro anos. A mesma arrogância mutilatória dos executivos dos estúdios quase destruiu o encanto crepuscular de PAT GARRET E BIILLY THE KID. E se deixei de citar os dois filmes no Opus 10 foi porque o próprio realizador não os levava em consideração. Sei exatamente o que é isso, quando proíbo de exibir AMOR, PALAVRA PROSTITUTA nas retrospectivas de meus filmes. Um filme cortado, seja pela censura ou pelos produtores, é pior que um projeto abortado. Até JUNIOR BONNER (Dez Segundos De Perigo) ou THE KILLER ELITE (Elite De Assassinos) são filmes mais relevantes em sua filmografia, embora realizados por encomenda, já que seus produtores respeitaram o "final cut" do diretor.

Conheci pessoalmente o produtor de JUNIOR BONNER, que também foi o responsável pelas qualidades de PRIME CUT (A Marca Da Brutalidade) dirigido pelo irregular Michael Ritchie, e embora tenha ganho muito menos dinheiro com o primeiro, falava com emoção, entusiasmo e extrema admiração do prazer de trabalhar com Peckinpah. De qualquer maneira, os heróis envelhecidos do mestre índio marcaram em definitivo a história do melhor cinema americano, aquele onde a lenda é sempre mais relevante do que a realidade.

Aguilar acerta em cheio quando cita VAMPIROS de John Carpenter como tributo honroso à Peckinpah. Eis um dos grandes filmes de 99, recentemente disponível nas locadoras de vídeo. Embora o humor não seja uma característica do homenageado, é impossível não enxergar o desagradável herói interpretado por JOHN WOODS em VAMPIROS como um duplo do bandalho Warren Oates de TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA. Fica, no entanto, ainda nos créditos de WALTER HILL (discípulo assumido) os filmes mais peckinpanianos não assinados pelo próprio, THE LONG RIDERS (Cavalgada De Proscritos) e EXTEME PREJUDICE (O Limite Da Traição).

Mudando de assunto, reproduzo e-mail enviado pelo fiel conterrâneo Ricardo Scotta.

"Bom dia Bomber Amigo,

Louvável o seu serviço de utilidade pública, só tem um detalhe. Não me entenda mal, não estou acusando a moça que te enviou o e-mail de alerta, mas é que existe na rede uma coisa chamada "corrente", tipo essas pirâmides que prometem dinheiro fácil. No caso da internet, essas mensagens tem a intenção de congestionar o tráfego na rede. Além de mensagens falando sobre vírus, existem outras, sobre pessoas com AIDS que colocam agulhas nas poltronas de cinema, roubo de órgãos (rins, fígado, etc), ajuda a vítimas do Timor, etc. Uma maneira fácil de identificar este tipo de "corrente" é a clássica frase "envie esta mensagem para o maior números de pessoas que puder", ou coisa do gênero. O correto é cortar a corrente, ou seja, receber a mensagem e ignorá-la. A mensagem publicada contém algo absurdo, mas para saber disso tem que ser da área de informática. Não existe essa história de apagar o conteúdo do disco rígido e ficar na memória do micro, para que cada vez que você carregue uma informação ele apague novamente, isto para mim é mágica e nem o Mister M explica
".

Prezado Ricardo, também tenho recebido inúmeras e estranhas correntes que você tão auspiciosamente aponta acima. Acontece, que a pessoa que nos informou do tal vírus, não só é absolutamente confiável, como foi vítima de uma roubada semelhante. A agência de notícias que veiculou publicamente o aviso é notoriamente séria. Talvez os termos técnicos não sejam específicamente corretos, mas o encômio me pareceu mais do que relevante. De qualquer maneira, agradeço a sua atenção com a coluna, e solicito aos leitores que não estão entendendo nada do que estamos falando que consultem o Opus 10.


Um continente: a misteriosa protagonista de B. Monkey.

Finalmente a Miramax anuncia nos Estados Unidos o lançamento de B. MONKEY, o novo filme de Michael Radford (O CARTEIRO E O POETA), com Rupert Everett, Jonathan Rhys Meyers (revelado em MICHAEL COLLINS), Jared Harris (I SHOT ANDY WARHOL) e a tal mocinha com nome de continente no papel título. Inspirado no best-seller de Andrew Davis, o filme narra uma mórbida, excitante e violenta história de amor. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está tentando trazer o filme para exibí-lo em primeira mão na América Latina. Rezamos para que a estrela e protagonista venha junto. E se alguém ainda não descobriu de quem se trata, aí vai o endereço da Miramax para consulta: https://www.miramax.com/

Aos bombers que ficaram perplexos com a minha inclusão no júri de gourmets que escolheram o melhor da cozinha paulista, na Veja São Paulo da semana passada, edição Comer & Beber, vou logo avisando que isso é fruto de minha veia andarilha. Continuo sendo o mesmo "noivo da cidade" que meus amigos me apelidaram há trinta anos atrás. O eterno peregrino em busca dos achados inesperados que se escondem nas quebradas da imensidão da metrópole desvairada. Embora continue fiel ao pastel de carne convencional da Pastelaria Modelo na Praça Da Sé, à pizza de muzzarela quase centenária do Bruno na Freguesia do Ó, ao filé à parmegiana do Restaurante do Júlio na Estação da Luz, ao cheeseburger que o Sylvio Lancelotti inventou para o seu reduto no Circus e às esfihas folhadas do Catedral da Vergueiro, estou sempre alerta às sugestões menos convencionais.

Se alguém souber de uma coxinha creme divina na Vila Matilde, um sorvete cremoso com raspas de coco no Jardim São Paulo, um rocambole de chocolate com recheio de chantilly de neutralizar insulina na Vila Mazzei ou mesmo de algum crepe supimpa de marrom glacê flambado em Grand Marnier submerso no porão de alguma praça de alimentação, venha por favor socializar o cardápio através do meu endereço.

E antes que algum leitor venha dizer que cinema não tem nada a ver com comida, cito o exemplo de Jean Louis Commolli, um dos pensadores fílmicos mais radicais do Cahiers du Cinema - anos 70, realizador do já clássico LA CECÍLIA, sobre a experiência anarquista incentivada por Dom Pedro II no Brasil, que abandonou o cinema para se dedicar única e exclusivamente ao seu pendor de Cordon Bleu ao abrir um bistrô na província.

CARLOS REICHENBACH

Carlos Reichenbach, 54, é cineasta, roteirista, diretor de fotografia e crítico, além de rebelde renitente e utopista assumido nas horas vagas. Suas principais vítimas e afetos serão revelados nesta coluna. Atrás das câmeras desde 1966, Reichenbach está lançando seu 12º longa, Dois Córregos.

Comentários, desgostos, bombas e coquetéis podem ser enviados para: reichenbach@zaz.com.br

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