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Cartas do Reichenbomber (Opus 10)
Para Jairo Ferreira (por voltar a escrever na Folha sobre o livro de Ângela José)
A
Que prazer voltar a ter acesso ao texto vigoroso e apaixonado de Jairo
Ferreira na grande imprensa. Ivan Finotti, autor da proeza, é um dos
autores
do fundamental MALDITO!, a biografia autorizada do gênio Mojica Marins.
Sintonia visionária: dois dos livros mais importantes para o inventário do
cinema brasileiro aparecem disponíveis quase simultaneamente na boas
livrarias. Olney São Paulo, vida e obra desvendada com carinho e fineza por
Ângela José em A PELEJA DO CINEMA SERTANEJO (citado no Opus 1), e Zé Do Caixão radiografado
sem
subterfúgios, mas com talento e exuberância, por Finotti e Barcinski,
foram/são mitos de uma atividade exercida com tesão e sangue. O cinema
entendido como extensão da vida. Livros que parecem filmes. Quem ainda não
leu, tá por fora e fim de papo.
B
Serviço de utilidade pública. E-mail enviado por Scheila Schvarzman.
Segue uma novo alerta sobre vírus.É sempre bom saber.Um abraço.
Sheila:
"
Se receber um e-mail com o titulo "Up-Grade Internet2" NÃO O ABRA, pois
contém um executável com um ícone muito engraçado, com o nome PERRIN.EXE.
Este vírus apagará toda a informação do seu disco rígido, e de alguma
maneira, se refugia na memória do seu computador, pelo que cada vez que lhe
carreguem informação a seu disco rígido, este o apagará novamente,
deixando-o praticamente inutilizável. Reenvie esta mensagem à todas as
pessoas que puder.
Esta informação foi publicada pela Página Web da CNN. Uma vez mais, passem
isto à todos na sua agenda de endereços para que o vírus possa ser detido.
Foi dito que é um vírus muito perigoso e que não há remédio para ele até
esta data.
Divida estas informações com todos que você conhece. É prudente enviar esta
mensagem para todos da sua lista de endereços.
C
Que beleza a reforma do cine Odeon, Rio de Janeiro.
Que sessão emocionante a da abertura da Première Brasil no Festival do Rio, para toda a
equipe
de DOIS CÓRREGOS, com as presenças da matriarca Leonor Bruno, prestigiando
a
comovente estréia fílmica da bisneta Vanessa Goulart, do papai Chico
Liberato, o herói missionário do longa metragem de animação BOI ARUÁ
(81-85)
e da mamãe Alba Liberato, autora do curta MUÇA GAMBIRA (81), conferindo a
sempre elogiada performance da filhota Ingra.
Uma das coisas auspiciosas dessa maratona de pré-estréias que o recente, e
cansativo, esquema de lançamento pontual que os filmes brasileiros são
obrigados a percorrer, é reviver o espírito afetivo e familiar que marcou
as
filmagens na cidade dos três arco-íris.
D
Revi TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, o Peckinpah mais radical, na
TV a cabo. Que filme colossal! Parece filmado na Boca do Lixo. Quando
Warren Oates tira piolhos e chatos do saco, e irritado de tanto se coçar
derrama meia garrafa de cachaça na cueca, lembrei de Ozualdo Candeias,
Mojica Marins e Oswaldo de Oliveira. Taí um filme que merecia um tratado
sobre a misoginia do faroeste. Tem um filme de Richard Wilson
(ex-assistente
do Welles), CONVITE À UM PISTOLEIRO, com o Yul Brynner fazendo um
pistoleiro
que toca cravo, que é crioulo e meio efeminado, que é outra obra rara.
Tanto
GARCIA quanto CONVITE trazem um protagonista solitário, meio picareta e
pianista. Só que Pechinpah em GARCIA filma sob o viés mexicano,
ostensivamente machista, onde mulher só entra para apanhar e, com o perdão
da palavra, abrir as pernas.
Warren Oates está genial, de óculos escuros e
roupa ensebada, andando para cima e para baixo com aquela cabeça
apodrecendo
enrolada num saco.
Nenhum dos dois filmes sugere a tradicional leitura ambígua de RIO BRAVO
(Onde Começa O Inferno) de Hawks, WARLOCK (Minha Vontade É Lei) de Edward
Dmitrick, ou do bandeirosíssimo ROUGH NIGHT IN JERICHO (A Noite Dos
Pistoleiros), onde George Peppard flerta descaradamente com a braguilha do
inimigo Dean Martin.
Brynner em CONVITE personifica um vilão aparentemente castrado. Oates, ao
contrário, lembra o herói de MANELÃO, O CAÇADOR DE ORELHAS de Candeias, que
vira sicário para poder pagar o tratamento de uma terrível doença venérea.
Eis um universo amoral, onde a ética é subvertida conforme a gravidade do
cancro sexual e/ou social.
Podem acusar Peckinpah do que quiserem. De truculento e medieval em THE
WILD BUNCH (Meu Ódio Será Tua Herança), de fascista em STRAW DOGS (Sob O
Domínio Do Medo), de reacionário em CROSS OF IRON (Cruz de Ferro) ou de
abjeto em ALFREDO GARCIA. Mas são esses filmes soberbos que colocam às
claras a gênese da ideologia da dominação.
Peckinpah tinha sangue índio, era neto de cacique, e normalmente filmava
embriagado. Sua obra quase teratológica parecia purgar a raiva atávica,
revelando um mundo sórdido onde só cascavéis e escorpiões pareciam ter
alma.
E
Ainda na TV a cabo, para ver e rever a hilariante comédia AFTER THE FOX
(O Fino Da Vigarice). É quase inacreditável, mas Neil Simon escreveu uma
chanchada deliciosa. Vittorio De Sica, parece ter sido escolhido à dedo
pelos produtores, para dirigir com a tradicional displicência rítmica dos
latinos, uma farsa que nas mãos de qualquer americano impessoal (do naipe
anêmico de um Arthur Hiller) resultaria numa catástrofe. Quem não tem Blake
Edwards, vai atrás de um Dino Risi, de um Monicelli ou um De Sica de bem
com
a vida.
O sempre hilário Peter Sellers encabeça um bando de ladrões de terceira
que
para tentar se apossar de um carregamento de ouro invade uma vila
balneária,
com os larápios travestidos em equipe de filmagem. Para dar mais veracidade
ao embuste, contratam um galã decadente, Victor Mature.
O que torna essa comédia inesquecível é a quantidade generosa de gags
antológicas. Embora a narrativa, quase sempre, caminhe à passos de
caranguejo, são nas tiradas mais inesperadas e nos solos insuspeitados dos
inúmeros figurantes (marca registrada das comédias de De Sica) que reside o
charme de AFTER THE FOX.
Até um Lando Buzzanca em início de carreira tem
seus lampejos saborosos explorando ao máximo sua napa avantajada.
Não sei de Edwards, com seu "humor organizado", faria melhor. De Sica
parece filmar com os pés nas costas e se divertindo à valer. Até a pontinha
que faz no próprio filme, abrilhanta uma das piadas mais originais.
O FINO DA VIGARICE foi muito subestimado na época do lançamento. É fácil,
fácil, um daqueles filmes que Martin Scorsese apelidou de "pecados
inconfessáveis" ou "porcarias que temos vergonha de dizer que adoramos". No
meu livrinho secreto, quatro estrelas.
CARLOS REICHENBACH
P.S. - Ufa, consegui terminar o texto sem falar daquela moça ... a que tem
o
nome de um continente ...
Carlos Reichenbach, 54, é cineasta, roteirista, diretor de fotografia e crítico, além de rebelde renitente e utopista assumido nas horas vagas. Suas principais vítimas e afetos serão revelados nesta coluna. Atrás das câmeras desde 1966, Reichenbach está lançando seu 12º longa, Dois Córregos.
Comentários, desgostos, bombas e coquetéis podem ser enviados para: reichenbach@zaz.com.br
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