Busca

Pressione "Enter"

Cobertura completa Sites de cinema Grupos de discussão Colunistas Os melhores filmes Notas dos filmes Todos os filmes Roteiro de cinema O que está passando no Brasil


GAROTA, INTERROMPIDA
De James Mangold






RAPIDINHO

Filmes que têm como personagens principais pessoas que apresentam algum tipo de desequilíbrio mental (verdadeiro ou não) são sempre grande desafios para roteiristas, diretores e atores. Garota, Interrompida não é exceção. Representar um desvio de personalidade, uma esquizofrenia ou uma psicose, nesses tempos de absoluta incerteza sobre a sanidade da espécie humana, é tarefa das mais ingratas. James Mangold, o diretor escolhido pela atriz/produtora Winona Ryder, tentou fazer um filme sobre a amizade entre duas garotas - uma plenamente caracterizada como "doente mental" (a personagem de Angelina Jolie) e outra que está no fio da navalha (a personagem de Winona) – ambas internadas (por vontade própria) na mesma instituição psiquiátrica.

Infelizmente, esse objetivo não é atingido, pois é impossível construir dramaticamente essa amizade sem ter antes respondido a dilemas muito mais fundamentais: quem é "louco" e quem é "são" nesse filme? Quais são os limites de uma conduta social "aceitável"? O que fazer com alguém que tenta o suicídio? Qual é o papel de uma "clínica" no tratamento dos "doentes"? Garota, Interrompida não discute, nem tenta discutir, estas questões básicas, pois articula-se como uma narrativa leve, ao gosto popular, que não vai fundo em coisa nenhuma. E até funciona como bom veículo para duas atrizes competentes e como mais um produto descartável de Hollywood. Com um tema desses, contudo, isso é quase uma heresia.

AGORA COM MAIS CALMA

"Personalidade fronteiriça" é o diagnóstico que a psiquiatra estabelece para Winona. Ela fica sabendo do seu rótulo (em cena bastante inverossímil) e vai procurar informações sobre sua suposta doença. Eu, de certo modo, fui junto com ela. Eu, como espectador, queria respostas sobre essa fronteira da personalidade. O filme não dá essas respostas. Talvez filme algum possa dar essas respostas, simplesmente porque elas não existem. Ou, se existem, quem me garante que o diagnóstico estava certo? Ou, se elas existem e o diagnóstico estava certo, quem me garante que o suposto tratamento é adequado? Compreendem agora por que eu disse que filmes com personagens mentalmente desequilibrados são difíceis de fazer? Caminhamos sempre por um terreno inseguro, movediço e cheio de armadilhas.

Lembro de dois filmes que superaram esta dificuldade: Vida em família, de Ken Loach, e Um estranho no ninho, de Milos Forman. São bons filmes sobre loucura: narrativas fortes, dramáticas, que não abandonam nem subestimam o tema. Talvez possam ser acusados de simplificar demais, mas prefiro uma certa simplificação, tipo "esse hospício é comandado por uma nazista" (sendo a nazista a Louise Fletcher) do que uma simplificação tipo "essa clínica é comandada por uma democrata" (sendo a democrata a Whoopie Golberg). Sobre o filme de Loach, pesará sempre a acusação de que é um cineasta ideológico demais. Mas, que diabos!, também prefiro uma overdose de ideologia a um vazio de idéias.

Mas vamos voltar para as supostas qualidades de Garota, Interrompida. Além de Golberg, que constrói sua habitual personagem simpática e politicamente correta, temos duas atrizes belas e jovens, mas apenas uma delas está na crista da onda: Angelina Jolie. Ela interpreta a garota explicitamente desequilibrada. Não gostei. Faz caras e bocas de maluquinha, mas está sempre com o batom sem borrões. Lembra, guardadas as devidas proporções, o jeitão junkie-fashion de Kate Moss. É uma loucura "clean", feita para não chocar as platéias adolescentes, público-alvo explícito do cinema mundial nesse começo (ou final) de milênio. As outras internas, mesmo a menina de rosto deformado, também são, no fundo, bem comportadas. O trágico fim de uma delas acontece fora da clínica, o que é, no mínimo, discutível dramaticamente, além de estabelecer uma espécie de defesa prévia da instituição.

Meus leitores bem informados, a esta altura, devem estar se perguntando: mas esse cara não sabe que a história é baseada numa vida real? Ele (eu) está querendo mudar o que aconteceu "de verdade"! E eu respondo: a única verdade que interessa ao espectador é a que está no filme. Tenho certeza que, na redação do roteiro, dezenas de modificações foram feitas na história "real", com o objetivo de torná-la mais emocionante e mais cinematográfica. Então, por que também não se mexeu em coisas mais sérias, como o verdadeiro papel dessas clínicas no tratamento psiquiátrico? Do jeito que está, mais do que a uma garota interrompida, assistimos a uma discussão interrompida, e bem no início.


Garota, Interrompida (EUA, 1999). De James Mangold

Leia as cartas sobre Bossa Nova

Dê sua opinião ou cale-se para sempre

Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para a Terra Networks (A gente ainda nem começou e "Fausto"). Atualmente finaliza seu terceiro longa-metragem, Tolerância, com Maitê Proença e Roberto Bomtempo.

Índice de colunas.

Copyright© 1996 - 2003 Terra Networks, S.A. Todos os direitos reservados. All rights reserved.