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DÊ SUA OPINIÃO (OU CALE-SE PARA SEMPRE

Filme: Carne Trêmula, de Pedro Almodóvar.

ATENÇÃO: Para que mais mensagens possam ser publicadas, elas são editadas e reduzidas, mas nunca reescritas. Peço desculpas se, nestes cortes, alguma coisa essencial se perder. Não foi essa a intenção. Reclamações para o porteiro do ZAZ, que ainda não tem e-mail. Gerbase.

De: Ana Maria
Gostei muito da crítica (...) sobre o filme "Carne Trêmula". Principalmente a parte sobre as coincidências, porque elas também me incomodaram. É claro que o novo filme do Almodóvar não é como "Ata-me" ou "Kika", mesmo porque não existe nele nenhum personagem envolvente e forte como nos outros. Nada que se compare à crítica impressionante do cineasta quando concedeu pernas e uma moto para o jornalismo sensacionalista farejar melhor o sangue das pessoas, maravilhosamente personificada na figura de Andrea Cara Cortada. Talvez falte apenas esse ingrediente para que "Carne Trêmula" também alcance o que todos os outros filmes alcançam facilmente: nosso cérebro. Porque os outros recursos tão magicamente utilizados por Almodóvar estão todos lá: as cores vibrantes, as músicas com todo aquele teor dramático, os ângulos inusitados... A minha única "vírgula" no seu texto é quanto à metáfora. Acredito que Glauber entenderia, sim, porque conversei com pessoas muito menos preparadas para compreender a mensagem de Almodóvar e todas interpretaram corretamente as entrelinhas do filme. Verdade é, não nego, que algumas pessoas reclamaram "Mas o jornal dizia que era um filme político!". Quem não viu a transição dos dias de medo para a alegria da liberdade não prestou atenção no filme. Não observou a dificuldade do personagem que buscava seus sonhos mais simples e encontrava os obstáculos mais cruéis pelo caminho. Mas no final estava o recado: o destino de todos nós é a liberdade e o direito de nascer.:)

De: Gerbase
A Ana Maria acha que o sentido político do filme é "o destino de todos nós é a liberdade". E mais: "Carne Trêmula" mostra uma transição dos dias de medo para a alegria da liberdade. Anotei.

De: Alexandre Mercki
É triste, realmente triste, ver um profissional da área escrever uma crítica como a que li sobre o filme "Carne Trêmula", do FANTÁSTICO diretor Pedro Almodóvar. Sua opinião só revela que, infelizmente, Almodóvar não conseguiu passar sua mensagem a todos que assistiram ao filme. Se justamente a quebra de tabus, de preconceitos, a preocupação em mostrar um paraplégico que tem sucesso profissional e consegue satisfazer a esposa sexualmente, que o fato de uma pessoa usar ou não drogas não impede que ela tenha um ótimo caráter e possa se dedicar a obras assistenciais no futuro e que um ex-presidiário, por ser extremamente puro, possa passar seis anos pensando em sua primeira transa planejando sua vingança, que nada mais é do que transar novamente com sua grande paixão e não ser mais rejeitado. O fato de uma briga parar por causa de um jogo, nada mais é do que uma crítica ao ópio do povo. A Espanha, assim como o Brasil, é fanática por Futebol, e a cena é só uma brincadeira. Já a coincidência do cemitério é um recurso valido, já que foi o gancho que faltava para o ex-presidiário começar sua "grande vingança". E, por fim, a crítica social de Almodóvar é fortíssima, um tapa com luva de pelica na cara de críticos que (parece que o diretor advinha) são munidos das mais variadas formas de preconceito. Preconceitos com uma narrativa nova, que conta uma estória e, quase subliminarmente, critica a falsa democracia a que estamos condenados, onde tudo é discurso e a verdadeira liberdade está por demais longe de ser alcançada. Uma das obras mais sensíveis e sérias do diretor Pedro Almodóvar, infelizmente, é questionada impiedosamente, sem direito a defesa dele. Você pode até me dizer que uma obra não tem que ter defesa, a partir do momento em que é exibida está sujeita a aplausos e críticas. Mas um profissional da área, como vc, deve pensar 455 vezes antes de publicar uma opinião que vai influenciar leitores que, às vezes, nem viram o filme e compram a sua idéia. Sei que esse tipo de e-mail geralmente nem é levado em consideração, mas, como profissional da área que tb sou (sou radialista e nas horas vagas escrevo roteiros de rádio e tv) não posso concordar com esse tipo de formação de opinião perigosa.

De: Gerbase
Opa... O Alexandre, que também encontrou um sentido político bem evidente no filme, diz que "Carne Trêmula" "critica a falsa democracia a que estamos condenados, onde tudo é discurso e a verdadeira liberdade está por demais longe de ser alcançada". E mais: diz que sou preconceituoso com a "narrativa nova" de Almodóvar, impiedoso demais e um perigoso formador de opiniões. Quem está certo? A Ana Maria, que viu um filme otimista, com final feliz e tudo; ou o Alexandre, que viu um filme pessimista de "fortíssima crítica social"? Fiquei na mesma, caros leitores. É claro que cada um interpreta de um jeito, mas duas interpretações tão antagônicas são, no mínimo, um indício de que o recado de Almodóvar é confuso. O que defendo é o seguinte: "Carne Trêmula" é um bom filme (nunca vi um crítico impiedoso elogiar tanto...), mas que anuncia, em seus créditos iniciais, uma perspectiva que não tem. Não há qualquer discussão da história política da Espanha no filme, por mais que a gente procure e tenha boa vontade. A Ana Maria e o Alexandre procuraram um sentido onde não há sentido algum (mas procuraram porque o filme dá pistas para isso). Quanto a ser um formador de opiniões (e perigosas, ainda por cima), fico muito lisonjeado, mas acho que não tenho tempo para pensar 455 vezes a respeito de cada frase. De modo que o perigo continua. Cuidado, caros leitores!

De: Aurio da Silva
Li sua crítica sobre o "Carne Trêmula" e achei bastante interessante sua definição simples e objetiva de verossimilhança. Característica bastante esquecida pelos autores de filmes e, principalmente, de novelas.

De: Gerbase
Obrigado. É difícil se emocionar com alguma coisa se você não acredita nela. A verossimilhança não é um valor em si. É um pressuposto para que o filme funcione dramaticamente. E concordo que as novelas brasileiras, em sua média, tentam esconder, com o naturalismo das interpretações dos atores, verdadeiros atentados à verossimilhança. E quase sempre conseguem.

De: Mário Terra
Permita-me discordar, mas para mim "Carne Trêmula" é o melhor filme de Almodóvar. Como você mesmo reconhece, no cinema tudo é possível, até mesmo as coincidências. Mas o ponto fundamental do filme não é esse. Inverossímil, mas real, é a paixão que nunca se acaba, do entregador de pizza por sua amada. Inverossímil, mas real, é como as pessoas podem negar-se a amar por causa de um mal entendido, como no caso do ódio que ela nutre pelo pobre rapaz, acreditando ser ele o responsável pela situação terrível em que o policial ficou. Na verdade ele não tinha culpa, mas pagou por isso da pior forma possível, perdendo sua liberdade. Enquanto o verdadeiro culpado se torna herói. Inverossímil? Não para mim. Que maior realismo pode haver numa mulher que sublima suas culpas, fingindo (acreditando) amar alguém de quem tem pena, sem nunca tê-lo amado de verdade. Se você quer mais realismo vá ler "Notícias Populares" ou "A Notícia" (aqui do Rio de Janeiro). Mas a ficção pode ser muito mais interessante, porque nos faz ver nossas próprias misérias numa metáfora.

De: Gerbase
O Mário acha que a esposa "sublima suas culpas, fingindo (acreditando) amar alguém de quem tem pena". Mas vamos lembrar o que escreveu o Alexandre, lá em cima, sobre o marido: ele é "um paraplégico que tem sucesso profissional e consegue satisfazer a esposa sexualmente." Afinal, ela finge ou não finge? Não sou idiota a ponto de cobrar de Almodóvar um personagem absolutamente coerente, do começo ao fim do filme. Só gostaria de compreender melhor as motivações das mudanças de comportamente. Eu e, pelo visto, muitos dos leitores do ZAZ.

De: Hebert França
Apesar de toda a badalação em torno de "Carne Trêmula" e do sucesso nas bilheterias, não considero essa uma das melhores realizações de Almodóvar. É o mais convencional de seus filmes. Você disse que a salada ficou por demais condimentada, eu já acho que faltou o tempero exagerado característico do diretor. Espero estar errado, mas desde "A Flor do Meu Segredo" sinto que o espanhol está controlando a mão e a mente para não carregar nas tintas. Seu universo, seus personagens e a amarração do enredo estão cada vez mais parecidos com aqueles que o cinema americano nos fornece. "Carne Trêmula" é um filme médio de um ótimo diretor, o que o coloca bem acima da média do que temos visto ultimamente. A seqüência inicial do filme culminando com o parto no ônibus já vale o ingresso.

De: Gerbase
A seqüência realmente é uma obra-prima e vale o ingresso. Quanto a Almodóvar estar se "americanizando", não concordo. A impressão que eu tenho é que Almodóvar está tentando ser cada vez mais popular. O que não é defeito (nem privilégio de Hollywood).

De: Daniel Gallas
A tentativa de dar um verniz político de "Carne Trêmula", como foi colocada pelo colunista, funcionou. A estratégia do roteiro foi dar a idéia política (uma impressão de repressão) no começo e esquecê-la ao longo dos acontecimentos de 1992-1996. Ao final, na última frase, o verniz é retomado e o espectador percebe que, apesar de todos sofrimentos, ironias e crueldades, as personagens viviam agora em mundo livre, não livre das merdas que podem acontecer (shit happens), mas com liberdades garantidas.

De: Gerbase
Tá certo. Se a proposta era apenas "dar um verniz" nas paredes do filme funcionou. O problema é que esse verniz não é anunciado nos créditos como verniz, e sim como a estrutura da casa, as vigas, as fundações. Trata-se, quem sabe, de uma pequena propaganda enganosa de um produto de boa qualidade.

De: Roberto de Magalhães
Situações insólitas que transformam a vida dos personagens e os levam a lugares que jamais iriam, situações que nós, mortais, diríamos NÃO e que os personagens dele entram de cabeça com uma loucura obstinada e a mais profunda sensação de que estão indo no caminho certo, caminho do que sentem, sem medo de estar perdendo algo (com a liberdade). Esta na Minha opinião é uma das características mais importantes de Almodóvar e que, em "Carne Trêmula", é mostrada com um refinamento que não tinha visto em nenhum filme dele, algo como se ele estivesse amadurecendo a sua arte. Gostei muito e apesar das coincidências, que ao meu ver cabem plenamente na magia de um filme, pois as vivemos é bom poder ver uma estrela feita de lâmpadas incandescentes diante de meus olhos em plena era virtual. Obs: quanto à cena de eles pararem a briga para ver o gol, é de uma realidade trêmula a semelhança de agredir uma pessoa somente pelo fato dela estar usando uma camiseta de um time. É difícil não se lembrar de "Ata-me", quando estou conversando na rua e passa uma moto barulhenta e não consigo ouvir o que a outra pessoa esta falando, um grande abraço e obrigado por proporcionar este meio de expressar minhas opiniões.

De: Gerbase
Eu é que agradeço a sua opinião. Mas acho que os personagens de "Carne Trêmula" não são loucos, nem obstinados. São até bastante caretas, principalmente uma ex-viciada em heroína que agora dirige uma creche e um ex-policial que perde o movimento das pernas e agora joga basquete de cadeira de rodas. Eles passaram por situações insólitas, concordo, e também concordo que Almodóvar prefere os sentimentos à racionalidade. Mas nada justifica aquela cena da briga interrompida pelo gol. Simplesmente não funciona.

De: Rodrigo Ramiro
RAPIDINHO Até que fim! Uma crítica sua que eu discordo inteiramente.
AGORA COM MAIS CALMA

1>
Este é o melhor filme do Almodóvar.
2>
Você deve ter se deixado enganar pela "seriedade" deste filme. Não existem tantas cores e histeria, nem personagens femininas predominando, como nos outros filmes do diretor.
3>
Não tem o menor sentido alguém citar "Ata-me" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" como melhores filmes do diretor e reclamar de falta de "verossimilhança" de "Carne Trêmula". As coincidências são muito mais "inverossímeis" e freqüentes nos outros dois filmes do que no filme em questão. (E mesmo assim são excelentes filmes).
4>
Uma mulher que deixa de ser viciada após um acontecimento trágico e depois se casa com a vítima deste acontecimento. E o rapaz que perde a virgindade com a viciada e se apaixona por ela, vai para a cadeia por causa dela e continua apaixonado. As motivações dos personagens podem não ser as mais comuns, mas daí a dizer que os acontecimentos não definem seus caracteres...
5>
Sobre a cena do futebol, ela é razoavelmente explicada quando se descobre que fora o parceiro (e com motivos) que havia atirado, e não o ex-presidiário. É como se no fundo o paraplégico já soubesse disso.
6>
Por último, o período da ditadura foi apenas um pano de fundo identificador da época, nada mais do que isso na minha opinião.

De: Gerbase
1> Não é. "Ata-me" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" são muito melhores e muito mais divertidos.
2> Justamente porque se pretende "sério" e "político" o filme não consegue me enganar. Eu gosto de ser enganado.
3> Minha memória é curta, curtíssima. Por isso até evito usar filmes para falar de filmes. Mas dessa vez posso ter realmente me quebrado. Então diz aí, Rodrigo, quais são as coincidências desses filmes. E peço perdão antecipadamente.
4> Ele não foi pra cadeia por causa dela. Foi pra cadeia porque não entregou logo a arma para os policiais. Foi idiota. E saiu da cadeia mais idiota ainda. Acontece freqüentemente.
5> "É como se no fundo o paraplégico já soubesse disso." Ah, tá. Então tinha que ter uma cena dele ligando pro Walter Mercado um pouco antes. Mas aí o Walter também contaria o escore do jogo, acabando com a surpresa. Que ceninha difícil de explicar!
6> Concordo. Panos de fundo tem que ficar no fundo.

De: Eduardo
Não é fácil acompanhar a todos os filmes que estão passando, porque a gente vai tendo outros compromissos e não dá pra viver só de sala escura. (...) Falo isso porque estou trabalhando e fazendo mestrado na universidade daqui, e nunca vi tão pouco filme na vida. Mas "Carne Trêmula" foi um filme que me tocou naquela noite. Na verdade a questão do realismo no cinema espanhol nunca me importou, até porque os espanhóis sabem tratar muito bem a ausência do real. Mas saí da sala convicto de uma coisa: este é o filme mais maduro e mais humano de Almodóvar, exatamente porque a caricatura rotineira não está tão presente. Me lembrou um pouco os filmes do Vicente Aranda. Achei um grande exercício de cinema. Vou começar a acompanhar as páginas do ZAZ a partir de agora, e numa próxima vou escrever uma crítica da crítica para entrar na página.

De: Gerbase
O Eduardo jogou uma luz interessante sobre o filme e sobre a obra de Almodóvar ao dizer que "os espanhóis sabem tratar muito bem a ausência do real". Sobre quem ele está falando? Buñuel, é claro. O mestre do surrealismo, o genial diretor de "O cão andaluz" (junto com Dali), "Viridiana" e "A bela da tarde". Não sei se Almodóvar admite a influência, mas acredito que ela existe mesmo. Ponto para o Eduardo. Mas há uma diferença fundamental entre eles: Almodóvar grita, enquanto Buñuel sussurra.

De: José Augusto
Perfeita a tua crítica sobre o filme, é exatamente o que eu escreveria. Parabéns! A cena da briga e do jogo chega ser um deboche ao espectador. Mas o filme tem realmente o mérito de prender-nos. Outro "buraco" é que ela sendo uma viciada, anos depois aparece como benfeitora e respeitada na comunidade. Ele, um policial, de repente paraplégico, aparece totalmente adaptado à sua nova condição sem nenhum choque psicológico, na maior naturalidade e perdidamente apaixonado por sua mulher e vice-versa! Neste filme o Almodóvar exagerou, né?

De: Gerbase
É. E até a próxima semana
.

Carne Trêmula (França/Espanha, 1997). De Pedro Almodóvar. Com Javier Barden, Francesca Neri, Liberto Rabal e outros.

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Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e Fausto) e atualmente prepara o seu terceiro longa-metragem para cinema, chamado "Tolerância".

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