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(OU CALE-SE PARA SEMPRE)
Filme: 8
mm
De: André Alvarez Alves
"8mm" foi tremendamente decepcionante.
Havia visto o trailer (aliás deveria existir algum tipo de prêmio para
esta categoria), que me dera a impressão de algo no estilo do "Crash"
de Cronnenberg. É lógico que seria muito exigir este nível de sofisticação
do Joel Schummacher, mas, ainda assim, estava esperando um bom suspense
"hard", com toques de perversão e ousadia. Tiro n'água. O problema do
filme (e de seus personagens) não é a questão de ser ou não ético. O problema
é a coerência.
"8mm" apresenta temas e atitudes extremamente complexas e polêmicas, e,
no entanto, sua discussão é inconsistente, superficial e maniqueísta.
Assunto adulto com interpretação infantilóide. Assim, o que no filme podia
ser usado como ousadia e transgressão, transforma-se em puro mau gosto,
difícil mesmo de agüentar até o fim. Nem como suspense o filme funciona,
sem ritmo e sem clímax. Credo, não pensei que havia desgostado tanto do
filme. Depois disso, o difícil é explicar pra namorada o porquê de o ter
escolhido. Dureza!
De: Gerbase
A simplificação de que você fala (que eu também identifico), além de
tornar o filme maniqueísta como um todo, também tem reflexos importantes
na ética do personagem. A transformação do detetive é radical e consciente.
Ele não passa a agressor (e criminoso) num momento de loucura, numa passionalidade
humanamente compreensível. Ele parece disposto a "limpar" o mundo daqueles
que considera "sujos". Por isso falei tanto na proximidade de "8mm" com
a maneira dos EUA resolverem seus problemas políticos.
Todos sabemos que os bandidos existem. Mas será que a melhor maneira de
lidar com eles é criando bandidos oficiais, pagos e armados pelo governo,
para devolver cada atrocidade com o dobro da violência?
De: Marton Olympio
Primeiro as apresentações. Meu nome é Marton Olympio, sou roteirista (7
curtas e dois longas, partindo para o terceiro baseado no Largo do Desterro,
de Josué Montello, e se tudo der certo filmado ano que vem) e cinéfilo
doeeeeeeeeeeente. Vamos ao "8 mm". Desde que recebeu o Oscar, Nicolas
Cage (o Coppolinha) parou por ali. O filme tem uma idéia ótima e um medo
incrível. Acho exagerada a comparação com "O Ttroco",
que trabalha em outro limiar, menos real, e a crise é mais sentimental
que passional.
"O Troco" erra feio na hora que fica meloso, mas é ótimo em ação/pipoca.
Previsível, tolo, debochado e irônico. Porém, como foi noticiado, Mel
Gibson se achou muito violento e remontou o filme. Cenas melosas, que
ganhariam no vídeo um "fast-foward", na telona duram horas. Mas fugi do
ponto. Voltemos ao medroso "8mm".
Esta película propõe o real. Então sentamos no cinema para ver um filme
real, no sentido de pessoas verdadeiros, mundo cão. Um cara casado, com
filhos, mais de trinta... e sem desejos? Numa cena, o menos talentoso
irmão do River Phoenix pergunta para Cage, depois de um passeio pelo submundo
sex: - Isso está mexendo com você? A partir daí o filme escorrega
feio com o olhar superior de Nick.
Catso! O cara não fica
de bimbo duro em nenhuma situação. Vai ao submundo do desejo, bate na
porta do demo, e nuuuuunca fica tentado? Aquela criança, a filha dele,
foi feita com certeza pelo leiteiro (o cara vive fora de casa) ou por
inseminação artificial.
Lembro de um filme genial (quando Holywood não tinha medo de se desnudar),
chamado "Parceiros da Noite", com Al Pacino. A estrutura é igual, um detetive
se infiltra no mundo gay para decobrir quem tá matando homossexuais na
cidade. Resultado? O cara termina o filme com enormes dúvidas sobre sua
própria sexualidade.
"8mm" erra aí, por não respeitar uma das principais metas do homem: a
satisfação dos desejos. E a cena dele pedindo autorização para matar o
outro cara é de f...! "Why? Why? Why? Why? Why?" Pergunta Nicolas o filme
todo. Why eu paguei pra ver esta bosta!?
De: Gerbase
Concordo com a sua defesa estética de "O troco", que não se propõe
a ser realista, e por isso é bem diferente de "8mm". Mas eu estava falando
especificamente da ética dos dois "heróis". O Mel Gibson interpreta um
marginal, enquanto Nicolas Cage encarna um sujeito que detesta marginais.
Contudo, eles são muito parecidos! Acho que essa proximidade entre bandidos
e mocinhos, quando mostrada criticamente (e Scorcese é o maior mestre
nisso), rende excelentes roteiros.
O problema de "8mm" e de "O troco" é que nada se discute, tudo está a
serviço de um espetáculo apenas visual, para os sentidos, para as duas
horas em que estamos no escuro. O bom filme é aquele que resiste quando
a luz acende.
De: Rafael Kummer
Assassinos devem ser assassinados... O que você faria se isto ocorresse
com sua filha?
De: Gerbase
Temos aqui, caro Rafael, uma discordância filosófica, que não pode
ser discutida em poucas linhas. Você propõe responder violência com mais
violência, certamente é a favor da pena de morte, defende o direito das
pessoas andarem armadas e quer que as prisões sejam jaulas para prender
animais.
Eu acho que, pensando assim, você está aumentando cada vez mais a violência
e fazendo crescer a probabilidade dela atingir minha filha (ou a sua).
O cinema é um espelho do mundo. Como o mundo é violento, é natural que
os filmes contenham cenas violentas. Mas o cinema também é uma ferramenta
para transformar as pessoas, fazendo-as mais conscientes e mais críticas.
Em "8mm", o que me incomodou foi exatamente essa simplificação que você
defende. É importante falar de violência, mostrar violência, procurar
suas origens. O que não justifica assassinato algum. Assassinos de assassinos
não passam de assassinos de segunda mão.
De: Stephanie
Olá... Simplesmente adorei o filme. Me deixou em tal estado de tensão
que fiquei com medo de andar sozinha na minha rua, que é totalmente escura...
Tomei conhecimento, através do filme, das imagens de um submundo que,
para mim, era totalmente desconhecido. Quão baixo pode chegar um ser humano
ao se submeter a tamanhas necessidades físicas. Mas é isso aí mesmo...
Entre quatro paredes tudo é permitido com a sua permissão.
De: Gerbase
"Tudo" é permitido? Não sei. Os limites dessa tolerância são difíceis
de traçar. Mas, se o filme mostrou um mundo que você não conhecia, se
fez você pensar sobre a ética desse mundo, então "8mm" já cumpriu um belo
papel como obra de arte.
De: Rodrigo de Ferreira y Loyola
Acho que vc definiu bem: "Seven" trata a dualidade mocinho/bandido de
maneira adulta, chegando a ser assustador, por ser um roteiro que se leva
a sério; enquanto "8mm" chega à beira da infantilidade. E é surpreendente
que se trate do mesmo roteirista. Coincidência ou não, "8mm" cai no mesmo
abismo de outro recente filme de Cage, "Olhos de Serpente" (este, pelo
menos, ainda conta com a brilhante direção de De Palma).
"Olhos...", apesar do brilhante começo, acaba enveredando pelo tradicional
caminho do cinemão "pipoca" americano: a separação nítida entre bonzinhos
e malvados, o que tão pouco se vê no cinema europeu. Talvez este mesmo
"american way" de ver as coisas que leva alguns a pensar a guerra nos
Balcãs como mocinhos representados pela Otan versus malvados sérvios.
Afinal, qual a necessidade de se tratar as coisas de modo tão infantil?!
Roteiros que apresentam personagens reais, com atitudes e sentimentos
reais, não dão retorno comercial? As agonias inerentes ao ser humano não
são suficientes como fonte para bons roteiros? É preciso sempre buscar
percepções absurdas da realidade, com malvadões armados de "bestas"? Talvez
assim fique mais "degustável" ao grande público, mas isso definitivamente
não é Cinema.
Certo dia aqui nesse espaço foi comentado algo como "Viva os filmes médios!".
Não concordo. A busca da genialidade, a intenção de se fazer algo ousado,
que surpreenda, que cause efeitos colaterais (mesmo que nem sempre alcançados)
é muito mais válido do que a acomodação na mediocridade. O dia em que
diretores e roteiristas tiverem como objetivo a produção de filmes médios
será o fim do cinema, e nunca veremos novos Kubricks, Tim Burtons ou Cronembergs....
De: Gerbase
Se não em engano, o "filme médio" que foi defendido aqui não é aquele
que nasce de une esforço consciente do seu realizador, de uma aceitação
prévia da mediocridade. O "filme médio" é aquele que, sem ser uma obra-prima,
consegue atrair um bom público, com uma história interessante e pelo menos
alguns momentos de bom cinema.
O Brasil já teve sua cota de gênios ousados, que transformavam cada filme
num legado às futuras gerações, com resultados bem abaixo do "médio".
No mais, concordo com sua apreciação de "8mm". Mas acho que este ainda
é melhor que "Olhos de serpente", porque consegue criar um clima mais
pesado e verossímil.
De: Brito Marcelo
Concordo em parte com a tua opinião; porém, comparar "8mm" com "O troco"
ficou fora de contexto, pois, em "8mm", a ética usada é totalmente diferente.
Além do que eles não são as pessoas que tu quer que elas sejam. Por isso,
não exija atitudes que tu chama de "éticas" por parte delas. Quando tu
fores ver um filme, tente ser imparcial e assista o filme não procurando
defeitos, ou querendo ver o que quer, procure ver o filme e a sua história.
De: Gerbase
Tudo bem, Brito, mas por que você acha que eu tenho preconceito com os
filmes? E qual é a diferença entre as atitudes éticas dos dois "heróis"?
Eles são vingadores sanguinários, interessados em colocar ordem num mundo
que consideram injusto.
Eu acredito que não cabe a cada um essa missão de limpeza, porque existem
coisas complicadas e, às vezes, muito difíceis de administrar, como leis,
democracia, direitos humanos, etc. Podemos chutar o balde e ver o que
acontece, mas o balde quase sempre cai sobre a nossa cabeça.
De: Sabrina Nogueira
Não sei nem por onde começar a minha crítica a esse filme, "8 mm". Falando
assim parece até que a minha intenção é mais uma vez destruir o filme.
Mas não, muito embora não tenha gostado, existem ressalvas a serem feitas.
A história, como já pude falar a algumas pessoas, a meu ver não cumpre
o papel do cinema. Na verdade nem sei se, para os críticos de verdade,
o cinema tem um papel a cumprir. Mas acho que o cinema é uma forma de
diversão, de busca e análise de sentimentos, e o caráter informativo entra
para, quem sabe, enredar a história da trama, seja ela real ou fictícia.
"8 mm" peca, por assim dizer, em querer retratar a realidade de forma
crua. Não, eu não esperava um "happy-end", nem que a mocinha estivesse
viva no final. Esperava, talvez, uma mensagem. E qual foi a mensagem que
ficou? Que os bandidos tem mesmo é que morrer? Que a mocinha, coitada,
inocente, acreditou no papo dos caras? Não! Tanta coisa boa (entenda-se
que não precisa ser feliz para ser boa) para se mostrar no cinema, que
não acredito que, mais uma vez, precisasse apelar para a violência gratuita.
Não sei se por admirar tanto as técnicas de filmagem, foi talvez o que
realmente salvou e me fez ficar sentada até o final do filme. Realmente
impressionante, não sei nem se pela verossimilhança, mas a forma como
foram feita as filmagens. A fotografia, isso eu realmente não posso opinar,
até porque não me recordo agora, mas a coreografia do filme, a forma do
vai e vem da filmagem, talvez eu até pudesse bater umas palmas tímidas
para nem ser notada e não correr o risco de ter que defender esse filme,
pobre em conteúdo, em público.
De: Gerbase
Filmes não precisam ter "mensagens". Mas os bons filmes costumam ter
conteúdos, que são apresentados da forma mais eficiente possível, usando
todos os recursos do cinema e fazendo o espectador sair da sala com a
sensação de que aquela história vale a pena ser contada.
O problema de "8mm" não é a crueza com que retrata o sub-mundo, mas a
falta de coragem para escapar do velho esquema "eu vou acabar com essa
pouca vergonha". Eu também bato palmas para algumas seqüências do filme,
pela sua qualidade técnica, pelo seu ritmo, pela sua decupagem. O que
não me impede de considerá-lo (assim como você) um filme pobre em conteúdo.
De: João Pedro Caleiro
Não pude ver o filme por causa da censura de 18 anos. Você acha
que ela se justifica? P.S. - Você viu "A
vida em preto e branco"? Se sim, o que achou?
De: Gerbase
Acho que a censura de 18 anos tá certa. Mas não vi, em "8mm", nada mais
violento ou chocante que em "O troco", que ficou com censura 12 anos.
Alguém explica? Ainda não vi "A vida em preto e branco".
De: Ivan Luiz Bento
Quando saí do cinema fiquei incomodado também com a matança promovida
pelo detetive. Confesso que sabia que você ia tocar exatamente neste ponto.
Não, não estás sendo previsível, é só a convivência! (risos). Falando
sério sobre este ponto, concordo que a primeira impressão é exatamente
a que você passou (moralista). Acho também que aquele roteiro, filmado
por outra pessoa, daria coisa melhor (tenho um pé atrás com o J.Schumacher).
Mas olhando com mais carinho, percebe-se que podemos tirar outras conclusões.
O detetive "dançou com o diabo" e tornou-se uma pessoa violenta como aqueles
que ele conheceu. A segunda cena, em que ele varre o jardim, é idêntica
a uma anterior, só que ele, a esta altura, está totalmente diferente (bem
pior). Em resumo, não dá pra discordar de você, mas também podes concordar
comigo...
De: Gerbase
Tá certo. O detetive se transformou mesmo. Suas ações têm explicação
na lógica do roteiro. Assim como era lógico, nos grandes westerns da primeira
metade do século, que os colonos brancos matassem todos os índios, porque
eles eram "maus". Assim como é lógico matar algumas pessoas por engano,
num bombardeio "humanitário". Pena que os índios não tenham feito seus
próprios filmes sobre os colonos, baseados em sua lógica e nos seus pontos
de vista.
Nicolas Cage, em "8mm", é o velho e bom John Wayne detonando os peles-vermelhas
na Califórnia ou os peles-amarelas na Coréia. Mas John Wayne tinha mais
carisma na hora de mandar os malvados para o inferno. Um abraço para todos
e até mais.
8
MM (EUA, 1998). De Joel Schumacher.
Dê
sua opinião ou cale-se para sempre
Carlos
Gerbase é
jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor.
Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A
gente ainda nem começou e "Fausto")
e atualmente prepara o seu terceiro longa-metragem para cinema, chamado
"Tolerância".
Índice
de colunas.
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