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8 mm
RAPIDINHO
Todo país tem sua lógica.
A mesma lógica que faz cair bombas e mais bombas na Iugoslávia por razões
moralmente defensáveis (talvez não seja esta a opinião dos bombardeados),
é capaz de gerar filmes como "O troco" e agora este "8mm". Por mais que
se busque qualidades técnicas (e elas existem) neste filme de Joel Schumacher,
é a ética absurda do personagem principal que predomina em qualquer análise
mais cuidadosa.
Tanto Mel Gibson vivendo um bandido sem alma em "O troco, quanto Nicolas
Cage, na pele de um detetive careta que descobre o mundo dos "snuff-movies",
estão a serviço de uma maneira muito norte-americana de ver o mundo: ao
encontrar problemas morais pela frente, resolva-os da maneira mais rápida
e econômica possível, de preferência explodindo a cabeça do "bandido"
imoral com uma bela bomba humanitária.
AGORA COM MAIS CALMA
O filme começa meio
"noir", mas logo o clima parece ser "tenham cuidado, pais de família".
Ao narrar a viagem de Cage a um inferno que não conhecia, Schumacher poderia
ter criado um grande épico, com reflexos de Dante, mas preferiu apostar
em imagens pretensamente "chocantes" pra tentar justificar moralmente
a transformação do viajante num criminoso (e futuro habitante do lugar).
É mais ou menos como usar a limpeza étnica praticada pelos militares sérvios
como justificativa para matar algumas centenas de civis inocentes, numa
limpeza irrestrita. Simplificar situações complexas parece ser a melhor
maneira de começar bem uma guerra, ou terminar mal um roteiro que parecia
tão interessante. Tá certo, os bandidões de "8mm" (apesar de não serem
sérvios) tinham que ser terrivelmente malvados e assustadores, mas por
quê armar o chefão com aquela arma antiquada, charmosa e de belo design,
que, se não me engano, atende pelo significativo nome de "besta"?
"8mm", às vezes, parece indeciso entre ser uma crônica cortante e realista
de um mundo envolto em mistério (e capaz de gerar boas cenas), e uma aborrecida
aula de sado-masoquismo e perversões sexuais para principiantes. O pior
momento do filme acontece quando o mascarado conhecido como "Máquina"
diz que é assim (idiota e violento) porque quer, e não porque foi espancado
pela mãe ou estuprado pelo pai. Cage então olha para ele, com aquela mesma
expressão meio abobada de "A cidade dos anjos", mas desta vez demonstra
como os meninos maus devem ser punidos. Não convence dramaticamente, e
ainda reforça a violência como solução para tudo.
Talvez eu esteja sendo muito rigoroso, exigindo uma postura ética do personagem
de um filme que é sobre a falta de ética (e, afinal das contas, "8mm"
pode ser considerado uma boa diversão e pronto), mas acho que o roteiro
ganharia muito se o detetive não fosse tão rasteiro em sua vingança.
Em "O troco". Mel Gibson tinha ética suficiente para pedir exatamente
o dinheiro que estavam lhe devendo (e nem um centavo a mais), mas não
pensava duas vezes antes de matar a sangue-frio. Em "8mm", Nicolas Cage
tem moral suficiente para chocar-se com o mundo dos "snuffs" (apesar de
descobrir que eles são quase todos falsos), mas não hesita antes de fazer
justiça com as próprias mãos. A atitude pode até ser compreensível, mas
é infantil.
Andrew Kevin Walker, que escreveu o excelente roteiro de "Seven", este
sim, um mergulho adulto e assustador na maldade humana (e sem conclusões
moralistas) não conseguiu dar à história de "8mm" o clima de terror que
pretendia, mas, com certeza, a direção insegura de Schumacher também não
ajudou muito. E, é bom lembrar, as bombas continuam caindo, os malvados
continuam malvados, os bonzinhos continuam bonzinhos e os cadáveres -
nem bons, nem maus, apenas cadáveres - continuam calados. Menos mal que,
no cinema, quando o diretor diz "corta", eles levantam e andam.
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8 MM.
8
mm (EUA, 1998). De Joel Schumacher.
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Carlos
Gerbase é
jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor.
Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A
gente ainda nem começou e "Fausto") e atualmente
prepara o seu terceiro longa-metragem para cinema, chamado "Tolerância".
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