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"Amor à Flor da Pele" encena paixão entre o real e a fantasia


Maggie Cheung e
Tony Leung, o melhor ator
em Cannes (Divulgação)

Há gente que vai falar mal de Amor à Flor da Pele, chamando-o de estiloso. Não se deixe enganar. É um filmaço. Não é estiloso - tem estilo, o que é bem diferente, e inteligência, conceitual e visual, em sua feitura.

Seu autor, Wong Kar-Wai, de Hong Kong, é um cineasta que vem em evolução contínua. O primeiro filme dele a baixar por aqui foi Amores Expressos, este sim um exercício formal meio estéril, em que a preocupação com o invólucro deixava o produto em segundo plano. Kar-Wai estava tateando, queria ser original a todo custo e isso era bem perceptível. Em seguida veio Felizes Juntos, em que ele concilia inovação com tratamento inspirado de um tema ingrato - um amor terminal gay entre dois chineses, que vai se resolver em Buenos Aires.

Havia radicalidade, e também muita ternura nessa love story portenha. Agora, Kar-Wai adiciona à sua receita mais delicadeza e outro tanto de inteligência. Em cena, dois personagens, um homem e uma mulher, Chow e Li-chun, que moram no mesmo prédio. Ambos são casados com outras pessoas. Há mais pontos em comum entre os dois. Seus respectivos cônjuges vivem fora de casa a maior parte do tempo e, descobre-se depois, estão tendo casos extraconjugais. Assim, Chow e Li-chun, machucados, consolam-se mutuamente.

Mas não da maneira como seria esperado e até mesmo previsível. O jogo entre os dois se dá mais no plano imaginário do que no da realidade. Chow e Li-chun conversam e falam dos respectivos parceiros que estão pulando a cerca. Consolam-se, até certo ponto, mas isto não é o fundamental. Eles falam, porque falar permite ao ser que sofre colocar-se, pelo menos por algum tempo, fora do centro gravitacional do seu sofrimento. Ele distancia-se. Fala de sua história como se fosse a história de outro. E em nenhum momento é tão verdadeiro quanto nessa fabulação do fato real, que, transformado em palavras, torna-se ficção.

Esse jogo no imaginário é semelhante àquele do poeta fingidor de Fernando Pessoa. Os sentimentos, encenados, têm o mesmo grau de realidade que aqueles deveras sentidos. Portanto, Chow e Li-chung, que apenas encenam um caso de amor, estão de fato vivendo uma grande paixão sob esta forma. É um trabalho belíssimo nessa zona fronteiriça entre o sonho e a realidade, entre o impulso real e o da fantasia. Acrescida do tratamento visual sofisticado que lhe dá Kar-Wai, essa trama sensual em registro onírico parece não apenas plausível como extremamente envolvente. (O Estado de S. Paulo)

 

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