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Jovens resgatam câmeras digitais para desconectar das redes: 'Tem a ver com ser cool, descolado'

Tendência é deixar celular de lado e levar câmeras para sair com amigos; especialista vê desejo por mundo com menos filtros

25 jan 2026 - 04h58
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Resumo
Jovens resgatam o uso de câmeras digitais antigas como forma de desacelerar o ritmo das redes sociais, valorizando registros mais espontâneos, orgânicos e uma conexão com o estilo "vintage".
Milena usa câmera digital da HP para fazer suas fotos
Milena usa câmera digital da HP para fazer suas fotos
Foto: Arquivo pessoal/Milena de Oliveira

Quem já se deparou, em casa, com uma gaveta onde ficam os eletrônicos antigos — celulares esquecidos, talvez quebrados, carregadores inutilizados e cabos infinitos — pode ter encontrado ali uma câmera digital antiga, que era usada para fazer registros da família, em festas e viagens. Se você pensou que o celular viria para substituir de vez essa câmera, se enganou. As câmeras digitais voltaram a clicar por aí, deixando o esquecimento de lado e caindo no gosto dos jovens com apreço pelo “vintage”.

A mestranda e pesquisadora em Antropologia Milena de Oliveira Silva, de 24 anos, fotografa por hobby, e foi exatamente desse jeito que, durante a pandemia, ela resgatou uma câmera digital antiga — esquecida em uma gaveta — para começar a fazer seus registros.

A estética e o fato de precisar se programar para tirar as fotos, e não fazer isso de forma automática, como faria com o celular, por exemplo, são as melhores partes do processo segundo a pesquisadora.

As viagens são os momentos favoritos de Milena para usar sua câmera
As viagens são os momentos favoritos de Milena para usar sua câmera
Foto: Arquivo pessoal/Milena de Oliveira

“É talvez um apego de tentar pegar alguma essência dessas épocas que a gente não viveu. Estamos soterrados por milhares de tecnologias, uso de inteligência artificial... Acho que isso também são formas de conseguir escapar e sentir que tem algum controle sobre o que estamos fazendo, o que estamos produzindo", diz Milena.

As fotos, normalmente, não são editadas depois que saem do cartão de memória da câmera e são passadas como arquivos através de um cabo para o computador. Depois, se forem postadas nas redes sociais, não costumam sofrer alterações.

"Você não vai editar a foto dessa câmera, pelo menos a maioria das pessoas que eu conheço que usam, e eu também, você pega ela, passa para o computador e, se quer postar, posta assim. Não vai ter essa coisa de arrumar a iluminação, é uma coisa mais orgânica”, explica.

A cientista social Giulia Caselato, de 25 anos, também virou adepta das câmeras digitais. Na família dela, o gosto pela fotografia vem desde seu avô, que usava uma câmera analógica, e depois migrou para a digital. Ela mesma conta já ter experimentado com vários tipos de câmera, mas hoje tem em sua Sony Cybershot uma verdadeira companheira para sair com amigos e registrar a cidade.

Giulia Caselato herdou sua primeira câmera digital do avô
Giulia Caselato herdou sua primeira câmera digital do avô
Foto: Arquivo pessoal/Giulia Caselato

Ela conta que a preferência é pelas fotos da câmera, e não do celular “justamente pela espontaneidade dos registros, por me deslocar da ‘facilidade’ do celular, por ser algo em que invisto, de fato, atenção durante o processo, em todas as etapas".

A câmera digital escolhida por Giulia foi uma Sony Cybershot, que comprou em um site de vendas de segunda mão
A câmera digital escolhida por Giulia foi uma Sony Cybershot, que comprou em um site de vendas de segunda mão
Foto: Arquivo pessoal/Giulia Caselato

“Essa coisa de demandar tempo no processo gera curiosidade e agrega muito à experiência, resiste ao ritmo acelerado e ao imediatismo que experienciamos hoje em quase todos os aspectos da vida. Vejo como um deslocamento, mesmo. Um respiro", diz.

Paisagens da cidade são fotografadas por Giulia
Paisagens da cidade são fotografadas por Giulia
Foto: Arquivo pessoal/Giulia Caselato

Para a cientista social, a experiência vai além da estética, que também agrada pelo resgate dos anos 2000 (que muitos atuais adeptos das câmeras digitais sequer viveram). “Existe uma vontade desse resgate a um tempo em que as coisas não tinham um ritmo tão acelerado. Estamos todos saturados disso".

Offline é o novo cool

Mas o que explica o comportamento nostálgico entre jovens que não viveram plenamente essa época, quando as câmeras começaram a se popularizar? A pesquisadora em IA, comportamento e ética Laura Hauser avalia que não é novidade que jovens busquem se diferenciar resgatando gadgets antigos.

“Hoje são as câmeras, mas já foram as fitas cassetes, o disco de vinil, mas a tendência à nostalgia tecnológica é uma constante. Tem a ver com resistência, tem a ver com ser cool, ser descolado, não entrar no senso comum", explica.

Câmeras costumam ser levadas para encontros com amigos e registram momentos descontraídos
Câmeras costumam ser levadas para encontros com amigos e registram momentos descontraídos
Foto: Arquivo pessoal/Giulia Caselato

A pesquisadora afirma que a busca pelo imperfeito em meio a padrões estéticos cada vez mais exigentes e inalcançáveis é outro motivo para o retorno de elementos que nos remetem à afetividade nostálgica. “Tem uma busca por autenticidade em um mundo que está cheio de filtros. É um desejo por desconexão forte, um cansaço das redes sociais”, avalia.

Hauser entende que a busca por autenticidade acontece em um momento em que as imagens de inteligência artificial e fotos com filtros tomam conta da internet. “São imagens sempre muito perfeitas, só que claramente falsas. E aí surge essa nova ética contra a perfeição, e que busca algo mais afetivo e menos perfeito".

Fotos de câmeras digitais oferecem estética apreciada por jovens da geração Z
Fotos de câmeras digitais oferecem estética apreciada por jovens da geração Z
Foto: Arquivo pessoal/Giulia Caselato

As fotos com câmeras digitais, portanto, vêm como uma resposta, uma reação à cultura que prega a harmonização facial, uso de remédios para emagrecer, a padronização de estética, diz Laura.

“Ninguém é perfeito, ninguém está todos os dias perfeito, ninguém tem a pele perfeita, ninguém tem o ambiente perfeito. Então, é uma resistência ao mercado, e isso a gente já vê acontecendo há várias gerações", pontua.

Fonte: Portal Terra
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