As estranhas criaturas submarinas que devoram baleias
De 'flor de muco que come ossos' a vermes-escama que 'surfam', quando uma baleia morre ela se torna uma imensa ilha de nutrientes, atraindo criaturas estranhas e fascinantes em busca de alimento.
As baleias são uma plataforma ambulante gigante de alimentos. Elas movem até 150 toneladas de alimento — carne, gordura e ossos — por grandes distâncias, da superfície às profundezas do oceano. Seus corpos são um verdadeiro banquete em formação.
As baleias geralmente morrem em alto-mar, espalhadas ao longo de suas extensas rotas migratórias, afirma Greg Rouse, curador de invertebrados bentônicos do Instituto Scripps de Oceanografia em San Diego, Califórnia, nos EUA.
Quando isso acontece, já no início, a carcaça dessas baleias pode flutuar, já que os gases internos a fazem inchar como um balão. Depois, a baleia afunda — atravessando as zonas iluminada, crepuscular e abissal — até chegar à escuridão do fundo do oceano, seu destino final.
Na morte, a baleia gera vida, se tornando uma imensa fonte de alimento. Normalmente, os nutrientes chegam ao fundo do mar como pequenas partículas de matéria orgânica, conhecidas como "neve marinha".
Mas, quando uma baleia afunda até o leito oceânico, ela se torna o "maior aporte orgânico" a alcançar o fundo do mar de uma só vez. Uma única baleia pode equivaler a milhares de anos de neve marinha, e com isso sustentar um ecossistema inteiro por décadas.
Primeiro chegam os animais necrófagos
A "comunidade de necrófagos de águas profundas" é a primeira a aparecer, diz Adrian Glover, ecólogo marinho do Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido. "Inclui vertebrados como peixes-bruxa e tubarões-dorminhocos, além de muitos anfípodes necrófagos — crustáceos semelhantes a camarões. Eles consomem a carne, expondo os ossos." Essa "fase de necrófagos móveis", afirma, pode durar anos.
Os peixes-bruxa são os únicos animais conhecidos que possuem crânio, mas não possuem vértebras. Esses peixes se enterram de cabeça no alimento, consumindo-o de dentro para fora.
Eles também têm uma estratégia de defesa extraordinariamente viscosa: quando atacados, liberam um muco que obriga o predador a recuar ou acabar sendo asfixiado.
Os peixes-granadeiro (também conhecido como peixe-rato) podem atingir até 1 m de comprimento e viver em profundidades de até 4.000 m. Nessas regiões, muito além do alcance da luz solar, a única luminosidade vem de organismos vivos — e os grandes olhos azuis desse peixe conseguem perceber até os menores lampejos de bioluminescência que denunciam suas presas.
Barbilhões semelhantes a bigodes, no queixo desse peixe, também detectam qualquer movimento de possíveis alimentos — como crustáceos e vermes — que possam estar escondidos logo abaixo da superfície do fundo marinho lamacento. Além disso, um olfato apurado ajuda o peixe a localizar carcaças em decomposição, como a de uma baleia.
Os comensais oportunistas
Depois que os grandes necrófagos se alimentam e os ossos ficam expostos, chegam os predadores menores. "Osedax, os 'vermes comedores de ossos', aparecem em grande número", diz Rouse, do Instituto Scripps de Oceanografia.
Os osedax são um tipo de verme poliqueta. Conhecidos como vermes de cerdas, fazem parte de um grupo diverso e abundante de vermes segmentados que podem se concentrar aos milhares em uma queda de baleia. Algumas espécies nessa etapa, chamada de "oportunistas de enriquecimento", só foram encontradas até hoje em ambientes de carcaças de baleia.
O Osedax mucofloris, ou "flor de muco que come ossos", é um verme poliqueta que foi descoberto pela primeira vez em 2005, na carcaça de uma baleia. Esses vermes injetam ácido no osso. "É como se colocassem o próprio intestino dentro do osso e o absorvessem diretamente — algo bastante estranho", diz Glover, do Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido.
Ao longo de uma década, uma população inteira cresce, vive e morre em uma única queda de baleia. Quando todo o esqueleto já foi consumido, pouco antes de morrer, os Osedax liberam larvas que seguem pelas correntes oceânicas na esperança de encontrar outra carcaça de baleia onde possam se fixar e reiniciar todo o ciclo.
"Eles descalcificam o osso para acessar o colágeno", diz Rouse, do Instituto Scripps de Oceanografia. "O osso então se torna muito poroso e pode ser fragmentado por caranguejos e outros necrófagos."
A matéria orgânica se espalha a partir da carcaça, enriquecendo o fundo do mar ao redor com nutrientes. Nesse momento, dezenas de milhares de vermes oportunistas, moluscos e crustáceos chegam para consumir os restos de gordura ou carne e vasculhar o sedimento do fundo do mar.
Entre eles, o caranguejo-aranha-japonês, que pode viver até 100 anos e é considerado o maior caranguejo do mundo. Seu corpo pode atingir cerca de 30 cm de largura, mas suas pernas continuam crescendo e podem alcançar até 3,8 m de uma pinça à outra, quase o comprimento de um carro pequeno.
Viajando pelo 'corredor de quedas de baleia'
Ao mesmo tempo em que os necrófagos digerem os ossos, um grupo mais especializado de organismos se junta ao banquete e pode se alimentar por até 50 anos. É a fase sulfófila, ou seja, "amante do enxofre". À medida que as bactérias continuam a decompor os ossos, é liberado sulfeto de hidrogênio. Esses gases são consumidos por organismos quimiossintéticos.
Os quimioautotróficos são organismos capazes de gerar energia a partir de reações químicas, em um processo chamado quimiossíntese, ao contrário das plantas, que dependem de luz solar e dióxido de carbono para realizar a fotossíntese.
Esses microrganismos que consomem substâncias químicas frequentemente estabelecem relações simbióticas estreitas com invertebrados, fornecendo a eles praticamente toda a nutrição de que precisam.
"A capacidade dos organismos de evoluir para explorar essas adaptações tão incomuns, estranhas e extraordinárias a esses ambientes… estamos constantemente surpresos", diz Glover.
Os quimioautotróficos são encontrados em apenas quatro tipos de habitats do fundo do mar: fontes hidrotermais, exsudações frias, quedas de madeira e quedas de baleias.
Agora, especialistas dizem que as quedas de baleias funcionam como "pontos de apoio" para animais especializados, permitindo sua dispersão pelo geralmente desolado fundo do mar.
Em vida, a baleia fertiliza os oceanos e transporta carbono para as profundezas, ajudando a manter o oceano cheio de vida e o clima mais estável. Na morte, uma única baleia pode fornecer alimento, abrigo e condições para prosperar a dezenas de milhares de organismos marinhos, mesmo nos ambientes mais hostis. Seu último presente à Terra: um ecossistema inteiro.