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Pesquisa mostra perfil do viciado em maconha

Domingo, 03 de dezembro de 2000, 03h44min
Eles são jovens, do sexo masculino, moram com a família, estudam, trabalham e são dependentes de maconha. Um estudo recém-concluído pelo Ambulatório de Maconha, que integra a Unidade de Pesquisa do Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostrou, além do perfil do usuário da droga, que 66% dos 59 pacientes entrevistados enfrentam problemas no relacionamento familiar e dificuldade no aprendizado. Mais: 35% já foram presos, acusados de porte ou tráfico de droga.

A pesquisa Dependentes de Cannabis: Perfil dos Pacientes Atendidos em Ambulatório Especializado foi apresentada há um mês, no Rio de Janeiro, durante o 18º Congresso Brasileiro de Psiquiatria pelos psiquiatras Ronaldo Laranjeira, Cláudia Maciel e pela enfermeira Christina Jun Sugo, da Unifesp.

"Ficamos assustados com os resultados", observa Cláudia. "Imaginávamos que os dependentes fossem jovens, mas que não tivessem tantos problemas e procurassem tratamento tão cedo."

No estudo, os pesquisadores, que entrevistaram 59 pacientes entre 13 e 55 anos, concluíram que a maioria (93%) dos dependentes de maconha está concentrada na faixa etária que varia entre os 15 e os 30 anos. A metade deles (50%) estuda, quase todos (91%) vivem com as famílias, são homens (82%). têm empregos fixos (57%) e grau de escolaridade até o 2º grau incompleto. Também descobriram que 47,5% apresentam alguma doença psiquiátrica associada ao uso da maconha.

"A esquizofrenia costuma surgir nos homens nessa faixa de idade, e a maconha pode deflagrar os sintomas psicóticos, que desaparecem com a suspensão do uso da maconha", explica a psiquiatra Cláudia Maciel. O estudo também revelou que 75% dos pacientes nunca tinham sido submetidos a tratamentos contra a dependência química e que 94% já haviam usado outra substância anteriormente, como o álcool, a cocaína ou solventes, mas que elegeram a maconha como a droga preferida.

Histórias semelhantes - O aumento da demanda de dependentes de maconha que procuravam a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas e a avaliação dos coordenadores de que esses pacientes enfrentavam problemas de adaptação para tratamento conjunto com usuários de cocaína e álcool fez com que a EPM criasse, em março, o Ambulatório de Maconha. É o único especializado nesse tipo de atendimento no País. "Eles têm vidas, idades e histórias semelhantes e não se identificavam com os dependentes de outras drogas", observa a psiquiatra.

A apatia, a perda da motivação para estudar ou trabalhar e o isolamento da família e dos amigos são resultado do consumo maconha, de acordo com Cláudia: "Não existe um período pré-fixado para o início dos sintomas e a inalação da fumaça de um cigarro de maconha por dia já pode ser considerada uso abusivo da droga." A longo prazo, aparecem as conseqüências físicas, como as alterações hormonais, que podem provocar a diminuição da libido, problemas pulmonares, fragilização das relações familiares e o significativo aumento do risco do aparecimento do câncer na boca e nos pulmões.

Os pacientes têm sido tratados com psicoterapia, no mínimo uma vez por semana, com ênfase à terapia motivacional. Cláudia Maciel também alerta: além dos problemas físicos e psiquiátricos gerados pelo consumo da maconha, a droga traz outro efeito colateral - o risco da prisão e da morte pelo estreito relacionamento que mantêm com criminosos. "Eles podem sair de casa para compar a maconha em favelas e até começar a traficar para alimentar a dependência."

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