O território do tráfico e dos consumidores de haxixe em São Paulo está concentrado na região dos Jardins. E a localização desse nicho de compara e venda tem um motivo, segundo a polícia: a droga, com uma concentração pelo menos duas vezes maior de Tetrahydrocannabinol, ou THC, o princípio ativo da maconha, além de mais cara - enquanto uma trouxinha com cinco gramas de maconha custa em torno de R$ 10, a bolinha de haxixe com o mesmo peso tem o preço triplicado -, é usada particularmente por asiáticos, imigrantes árabes ou brasileiros que estiveram fora do País e se tornaram dependentes. "Existe o fornecimento de haxixe nos Jardins porque lá está a clientela do traficante. A droga normalmente é vendida em casas noturnas", explica o delegado Ivaney Cayres de Souza, titular da 5ª Seccional da Polícia Civil.
Até pouco mais de um ano atrás, o policial chefiou a Divisão de Investigação Sobre Entorpecentes do Departamento de Narcóticos (Denarc) e continua mantendo intercâmbio de informações com as polícias de várias partes do mundo.
Tática publicitária - Segundo o delegado, "não existe no Brasil a cultura do consumo do haxixe". "Os principais usuários são os asiáticos e árabes que chegam aqui já viciados." Mas, pensando em uma estratégia mercadológica para expandir seus negócios, hoje é comum traficantes usarem uma tática que é velha conhecida dos publicitários: compradores de drogas, ao adquirir a cocaína no atacado, costumam ganhar algumas bolinhas de haxixe como "brinde". Com isso, a clientela compra o pó e tem a cusiosidade despertada pela oferta do haxixe.
E as estatísticas do Departamento de Narcóticos mostram que o tráfico de haxixe em São Paulo pode estar ganhando nova proporção: neste ano, a apreensão de bolinhas da droga quintuplicou em relação a 1999. No ano passado, foram recolhidos 308 gramas de haxixe, enquanto neste ano, até o mês de dezembro, os policiais apreenderam 1 quilo e 665 gramas. Dez dias atrás, homens da Polícia Militar encontraram 278 bolinhas de haxixe com um traficante da zona sul e, há uma semana, a Polícia Civil de Pirassununga, no interior do Estado, apreenderam 497 bolinhas, o equivalente a 500 gramas. Ontem foram 200 bolinhas.
Caule da maconha - O haxixe é produzido a partir da seiva extraída do caule da maconha. "É o mesmo processo da extração da seiva da seringueira", explica Ivaney Cayres. A resina obtida, em seguida, é manipulada até se transformar em uma pasta, vendida em forma de bolinhas com cerca de cinco gramas - a quantidade é suficiente para ser fumada até cinco vezes, em cachimbos ou enrolada em papel.
Por causa da alta concentração de THC, os efeitos negativos para a saúde também são potencializados. O consumidor pode apresentar alterações hormonais (uma das conseqüências é a diminuição da libido) e cerebrais, risco de câncer no pulmão e na boca. Segundo o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a maconha tem uma concentração de cerca de 5% de THC, enquanto a do haxixe sobe para 10%.
Hoje, o principal produtor do haxixe consumido no Brasil é o Paraguai. No Estado de Pernambuco, na região conhecida como Polígono da Maconha, os plantadores da cannabis não têm interesse na produção da droga, já que é feita artesanalmente, o que encarece a produção e não há mercado suficiente para justificar a produção.
Produção na ativa - Um relatório do Núcleo de Inteligência da presidência da Colômbia, concluído em setembro e recebido semanas atrás pelo delegado Ivaney Cayres de Souza, revela que as autoridades daquele país acreditavam ter praticamente erradicado o plantio da cannabis. Estavam enganadas: as plantações de maconha (e a conseqüente produção do haxixe) estão ganhando força e se estendendo a outras regiões da Colômbia para abastecer o Paquistão, Afeganistão, ilhas do Caribe e alguns países da Europa.
Leia mais:
» Pesquisa mostra perfil do viciado em maconha
» Saiba mais sobre as drogas