Busca

Pressione "Enter"

Cobertura completa Sites de cinema Grupos de discussão Colunistas Os melhores filmes Notas dos filmes Todos os filmes Roteiro de cinema O que está passando no Brasil



"Ponte do Rio Kwai" tem lançamento de luxo em DVD



Quando David Lean morreu, em abril de 1991, os obituários de jornais e revistas recorreram a um substantivo, e não a um adjetivo, para defini-lo. Foi chamado de mestre. Era um mestre singularmente humilde. Disse certa vez que era terrivelmente difícil ter confiança em si mesmo e, por isso, tinha de confiar na capacidade de discernimento e observação dos críticos. Achava que os amigos que o elogiavam eram suspeitos. Preferia confiar nos críticos, mas esses, em geral, não eram menos efusivos nos elogios. Lean recebeu 28 Oscars pelos filmes "A Ponte do Rio Kwai", "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago", "A Filha de Ryan" e "Passagem para a Índia". Pelos dois primeiros, ganhou os Oscars principais - de melhor filme e direção. Isso não impediu que ao lançar "Passagem para a Índia", que terminou sendo seu último filme, o modesto Lean se confessasse um principiante que somente naquele momento começava a descobrir o que, afinal de contas, é o cinema.

"A Ponte do Rio Kwai" está sendo lançado em DVD. Chega às lojas no dia 5. Fazendo jus à importância desse lançamento, a Columbia edita o filme famoso num disco digital duplo, de tantos que são os extras. Tudo o que você sempre quis saber sobre o filme, o diretor e a equipe técnica e artística está lá. Tudo isso e mais a alta qualidade de som e imagem, que só o DVD oferece. Ou seja, um (lançamento de) luxo. Em seus épicos intimistas, Lean sempre foi considerado um estudioso do comportamento humano. O personagem leaniano típico é um alienado - como o militar interpretado por Alec Guinness em "A Ponte do Rio Kwai".

Prisioneiro dos japoneses num campo do Pacífico, ele resiste altivamente ao comandante Sessue Hayakawa, convencido da superioridade intelectual e moral que lhe confere o fato de ser cidadão britânico. Em seus filmes, Lean historiou a grandeza e a derrocada do império britânico. O personagem interpretado por Hayakawa - ator japonês lendário, que fez carreira em Hollywood nos anos 20, quando manteve com o latin lover Rodolfo Valentino o affair amoroso que Nagisa Oshimas tentou, mas não conseguiu, transformar em filme - também acredita na superioridade nipônica. O choque desses dois temperamentos é inevitável.

Guinness aceita construir uma ponte sobre o Rio Kwai com toda a eficiência da engenharia britânica. Quer provar que realmente pertence a uma cultura superior, sem se dar conta de que a referida ponte será usada para o transporte de tropas e armamentes dos japoneses, portanto, contra os ingleses. No seu orgulho, é um alienado - como Lawrence, o Douor Jivago e todos os grandes personagens da fase final, das superproduções, de Lean. Era um cético que amava as, mas desconfiava das, revoluções. Sabia que elas são um momento de exceção, no qual se revela toda a complexidade das emoções humanas. O ponto violento de ruptura quase nunca tem continuidade. A revolução engendra seus valores, seus códigos. Vira um novo sistema ou status quo, contra o qual novos revolucionários se insurgem. Não era trotskista, mas talvez acreditasse na revolução permanente.

Entra em cena o oficial americano interpretado por William Holden. Pragmaticamente, ele vem para destruir a ponte, já que se trata de peça vital do sistema japonês de segurança. Cria-se um novo choque, entre Holden e Guinness, que não suporta a idéia de ver destruída a obra de sua vida. Culmina na explosão do desfecho, quando uma expressão, repetida diversas vezes - "Madness" (Loucura) -, resume o que Lean quer dizer sobre a guerra e os homens. O cineasta foi um grande narrador clássico e esse filme é uma das melhores amostras disso. Não por acaso, "A Ponte do Rio Kwai" recebeu, além dos Oscars de melhor filme, direção e ator (Guinness), as estatuetas de melhor fotografia (Jack Hildyard), montagem (Peter Taylor), música (Malcolm Arnold) e roteiro adaptado.

Justamente a música - a marcha assoviada pelos presos no campo, quando Guiness é levado para sua jaula, virou um marco da história do cinema. E não se pode deixar de falar do roteiro de "A Ponte do Rio Kwai". Era creditado ao escritor Pierre Boule, autor do romance original (e que também forneceu o material para outro clássico - "O Planeta dos Macacos", de Franklin J. Schaffner). Na verdade, esse roteiro foi escrito por Carl Foreman, Michael Wilson e Calder Willingham. O primeiro não pôde assiná-lo por causa da lista negra do macarthismo. Autor do roteiro de "Matar ou Morrer", de Fred Zinnemann, Foreman teve de abandonar os EUA acusado de atividades antiamericanas. Escreveu na Inglaterra o roteiro para a superprodução de Sam Spiegel, mas como havia predominância de capitais dos EUA e uma grande empresa americana por trás do projeto (a Columbia), Pierre Boule serviu de testa-de-ferro. (Outro roteirista, Michael Wilson, também estava na lista negra.)

Em 1992, "A Ponte do Rio Kwai" foi (re)relançado em vídeo com os novos créditos do roteiro, corrigindo uma injustiça histórica. E só cabe lamentar, em tudo isso, que Hollywood, em má hora, tenha resolvido fazer uma seqüência para essa aventura clássica. "Regresso ao Rio Kwai", de Andrew McLaglen, feito 32 anos depois (em 1989), é o fim, narrado com aquela indigência artística que é a marca do filho do lendário ator fordiano Andrew McLaglen.

Serviço - "A Ponte do Rio Kwai" ("The Bridge on the River Kwai"). Inglaterra, 1957. Direção de David Lean, com William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa e Geoffrey Horne. Disco duplo da Columbia. Colorido, 161 min. Lançamento no dia 5, R$ 45. (Agência Estado)

 

Copyright © 1996-2000 Terra Networks, S.A. Todos os direitos reservados. All rights reserved.